21/07/2026

Contagem regressiva para vampiros de Bellocchio e fantasmas paraguaios


Sangue do meu sangue
Vencedor do prêmio da crítica no Festival de Veneza 2015, o recente filme do prestigiado cineasta italiano Marco Bellocchio é um primor de frescor e apuro. No roteiro, também assinado por Bellocchio – que colhe parte de sua inspiração de um episódio do clássico I promessi sposi -, alternam-se duas épocas. No século 17, um nobre, Federico Mai (Pier Giorgio Bellocchio), tenta obter que a Igreja permita o sepultamento de seu irmão, Fabrizio, um frei que se suicidou, em campo santo. Para permiti-lo, os superiores eclesiásticos do convento obcecam-se por obter uma confissão da monja Benedetta (Lidiya Liberman) de que fizera um pacto com o demônio, seduzindo o frei suicida, o que o liberaria de toda culpa.
Hospedado ali, com duas irmãs supostamente pias (Alba Rohrwacher e Federica Fracassi), o próprio Federico é atormentado por tentações de sedução e pelo próprio olhar de Benedetta, que solicita uma aliança com ele.
Na época atual, um funcionário corrupto do governo (Pier Giorgio, de novo) e um empresário russo tentam comprar as dependências da velha prisão/convento, em cujos quartos úmidos e corredores desolados habita apenas um velho e misterioso conde (Roberto Herlitzka), que só é visto à noite pelas ruas da cidade e sobre quem paira a suspeita de ser um vampiro.
Alternando estes tempos de maneira fluente, Bellocchio coloca em discussão temas que sempre frequentaram sua obra – como o moralismo doentio da religião, a força indomável dos sentimentos mais vitais do ser humano, a ambição desmedida e a aliança subterrânea e sinistra dos eternos poderes do mundo, à qual cabe muito bem a metáfora do vampirismo, impregnada de um humor negro admirável. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2 – 13:30


Exercícios de memória
Em 2006, a paraguaia Paz Encina surpreendeu na Mostra ao exibir seu filme de estreia, Hamaca Paraguaya, uma criativa exploração do uso do som, na qual os diálogos não correspondiam às imagens. Ouvimos ali as conversas entre um pai e uma mãe que esperavam o retorno do filho da Guerra do Chaco, mas não os víamos conversando na tela. Este foi o primeiro filme concluído no Paraguai desde 1978.
Dez anos depois, a diretora está na Mostra, novamente, agora com o documentário Exercícios de Memória, no qual, novamente, o poder da arte da palavra é a força motriz. Ao centro está o desaparecimento, em 1976, do médico Agustín Goiburú, um dos maiores opositores do regime ditatorial de Alfredo Stroessner, que assolou o país entre 1954 e 1989.
A construção da trajetória de Goiburú é feita através de fragmentos da memória dos que ficaram. Seus três filhos Rogelio, Rolando e Jazmin vão à cidade de Paraná, na Argentina, onde ele viveu exilado, e a partir dali reconstituem não apenas a história de sua família como a de um país, que, no fundo, reflete a de todo um continente num de seus períodos mais obscuros.
Numa entrevista à agência EFE, a diretora disse que esse assunto é um capítulo da história do Paraguai que os cineastas, artistas e a sociedade não encaram de frente. Para fazê-lo, então, ela se vale da memória dessas três pessoas para encontrar a intersecção entre o pessoal e o histórico. As imagens mostram a região, crianças brincando e cenas melancólicas de uma jovem numa pequena casa.
A repressão da ditadura paraguaia ficou documentada em algo conhecido como Arquivos do Terror, que contém vários documentos, inclusive, da Operação Condor, que visava coordenar a repressão aos opositores dos regimes ditatoriais da América do Sul com o apoio da CIA, e também responsável pela morte de Goiburú, em 1977.
Paz resgata toda essa história pelo viés da história pessoal da família Goiburú, numa narrativa melancólica, que faz questionar sobre os silêncios e omissões históricas e papel social das produções culturais. Num país que produz tão poucos filmes por ano, Exercícios de Memória não é apenas um filme necessário, mas também uma grande e bem-vinda ousadia. (Alysson Oliveira)

CINESESC

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27/10 - 16:50


Depois da Tempestade
Assista ao trailer
Um atributo importante do diretor japonês Hirokazu Kore-Eda é a constância para realizar excelentes filmes, como uma sensibilidade técnica, estética e, sem dúvida, emotiva. Basta lembrar Depois da Vida (1998), Ninguém Pode Saber (2004), Seguindo em Frente (2008) e Pais e Filhos (2013), vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes e Melhor Filme de Ficção Estrangeiro na 37ª Mostra de São Paulo.
Aqui, ele volta aos relacionamentos familiares, ao contar uma história de Ryota (Abe Hiroshi), um escritor celebrado por um best-seller que escreveu há mais de uma década e que vive, agora, de bicos como detetive particular chicaneiro. Endividado e enrolador, não paga pensão alimentícia ao filho, que vê perder, aos poucos, para a ex-mulher Kyoko (Yôko Maki) e seu novo namorado.
O porto seguro do protagonista é sua mãe Yoshiko (a hilariante atriz veterana Kirin Kiki) que, apesar de parecer desinteressada e brincalhona, fala ferinas meias verdades aos filhos (há outra irmã vítima de esculhambação) e quer ver Ryota novamente com Kyoko e o neto.
Mas, apesar do humor, Kore-Eda coloca em perspectiva a cobrança que os pais impõem a seus filhos e como essa relação agridoce gera, d ília de Ryota e como será aceita essa realidade quando a metáfora do tufão/tempestade que atravessa a cidade (este também um personagem) passar.
(Rodrigo Zavala)


Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 1 – 27/10 - 13:30
Cinemark Cidade São Paulo – 29/10 - 21:30

O Rei dos Belgas
Depois de sua “Trilogia da Mongólia” de documentários de viés antropológicos, como O Estado do Cão (98), o cineasta belga Peter Brosens iniciou uma parceria frutífera com Jessica Woodworth na ficção, com Altiplano (2009) e A Quinta Estação (2012). Agora é a vez de ele juntar sua experiência em ambos os gêneros para criar um híbrido, com um mockumentary. o falso documentário O Rei dos Belgas. Nesta sua primeira inserção na comédia, Brosens sai-se muito bem na tarefa com esta sátira da monarquia decorativa do século XXI.
O rei belga é Nicolas III (Peter Van den Begin), que está em uma viagem diplomática na Turquia quando seu país entra em crise, porque a Valônia, uma das regiões administrativas da Bélgica, declara sua independência. Para piorar, o monarca e sua comitiva, formada pelo chefe de protocolo (Bruno Georis), uma assessora de imprensa (Lucie Debay) e seu camareiro (Titus De Voogdt), ficam presos em território turco porque nenhum voo decola da Europa, por razões climáticas.
O grupo resolve, então, fugir do cerco dos seguranças locais e partir por terra rumo à sua terra natal, via os Balcãs, acompanhados do documentarista britânico Duncan Lloyd (Pieter van der Houwen).
Contratado para fazer um filme “chapa branca” da monarquia, Lloyd passa a gravar, escondido ou não, tudo que acontece nesta viagem pela Bulgária, Sérvia e Albânia, em que se submetem às mais diversas situações, como integrarem um grupo folclórico ou se disfarçarem como uma equipe de TV, encontrando vários tipos curiosos.
Quieto, comedido, dominado pela mulher e os assessores, Nicolas descobre sua faceta mais humana neste caminho, em que até o fim tenta deixar de ser um mero representante figurativo e adquirir voz própria através de um discurso que tenta escrever, insistentemente. No meio das idiossincrasias dessa viagem, uma Bélgica cindida em suas partes francesa e flamenga e seus respectivos preconceitos, é colocada em pauta. Colocar em uma situação de extremo conflito justo a nação considerada o coração da União Europeia, como pontua um personagem, é um modo de discutir essa identidade europeia em tempos de recessão econômica e tentativas de países do Leste Europeu entrarem na UE, enquanto a crise dos refugiados deflagra a desunião do bloco e a oposição à livre circulação de pessoas entre os países do continente. (Nayara Reynaud)

CINE CAIXA BELAS ARTES
s/1 Villa Lobos



27/10 - 19:30
CINEARTE 1


















































29/10 - 17:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
30/10 - 15:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1






31/10 - 19:50


Amor e Outras Catástrofes
A atriz dinamarquesa Sofie Stougaard estreia na direção com uma obra irregular em sua narrativa e tom, mas irresistível ao final com sua tragicômica história de tão comuns encontros amorosos múltiplos. No caso, os de Frederik (Lars Ranthe), um mecânico de carros antigos que se divide entre o casamento perfeito com Rosa (Christine Albeck Børge), com quem teve dois filhos, e o ardente caso com a artista Sonja (Ellen Hillingsø). Só que essa vida dupla é abalada quando as duas mulheres ficam grávidas e ele pede a ambas para abortarem, mas a decisão de cada uma delas é diferente.
O roteiro começa no modo drama, porém, uma sessão de terapia ascende o humor que cresce na trama na segunda metade da história, escondendo certos clichês do script. Isso se deve não apenas ao inusitado das situações e ironias do texto, mas também à trilha sonora que dá este tom, com pausas dramáticas, ou melhor, cômicas, uso dos metais e uma levada entre o jazz e o vaudeville.
O irresponsável Frederik é um personagem que não nota que o mundo à sua volta está mudando e Stougaard torna-o agente e reflexo, igualmente, de um machismo que não encontra mais espaço nos dias de hoje – entretanto, ainda sobrevive em ações e frases tão rotineiras, que são pinceladas aqui em vários personagens. A diretora estreante traz ótimos planos-sequências com a câmera na mão, que dão conta, no início, do fluxo da vida diária na família, e depois, do ritmo de uma comédia de erros. (Nayara Reynaud)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
25/10 - 17:20
INSTITUTO CPFL - SALA UMUARAMA (Campinas)


27/10 - 21:00

Paterson
O novo filme do norte-americano Jim Jarmusch, pousou em Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro em 2016, com uma nota densa de sutileza e literal poesia – já que é esse o tema que impregna tudo em torno de Paterson, o protagonista interpretado com calor intimista por Adam Driver.
Motorista de ônibus que compartilha o nome da cidade em que nasceu e onde vive, Paterson é um fino observador do mundo à sua volta – só que, ao contrário dos anjos de Wim Wenders em Asas do Desejo, não é invisível (embora ninguém à sua volta pareça notá-lo). Ele escreve poemas num caderno, em que anota pensamentos e especula em torno das mínimas coisas de seu cotidiano. Uma simples caixa de fósforos, por exemplo.
Seu mundo parece estreito: as ruas da pequena Paterson, uma casinha modesta e rosada, que compartilha com a mulher Laura (Goshifteh Farahani) e o cachorro, Marvin (que é um personagem com função na história e, sem ironia, ótimo intérprete).
O filme é conduzido com rigor, retratando um cotidiano que se repete, aparentemente sem mudanças. Todo dia Paterson faz tudo igual, Laura nem tanto – mas as variações dela guardam uma certa afinidade interna, já que ela é obcecada por atividades artísticas e culinárias em torno de padrões em preto-e-branco.
A repetição permite aos poucos enxergar as brechas onde se insinua a grandeza da vida, por mais simples que pareça. A própria história da cidade de Paterson, afinal, não é tão insignificante, já que ali nasceram ou viveram poetas e atores, como William Carlos Williams, Allen Ginsberg e Lou Costello (da dupla Abbott & Costello), entre muitos outros. Um mural no bar, frequentado por Paterson toda noite, guarda as pegadas dessas célebres passagens pela cidade.
Habilmente, Jarmusch provoca nossas expectativas viciadas como espectadores. Cria pistas que levam a temer grandes tragédias e violência. E aí, também, nos lembra de que tantos outros caminhos se sucedem diariamente, ao largo dessa espetaculosidade enganosa que o próprio cinema, em geral, estimula. E aí está o grande prazer de descobrir este filme sutilmente grandioso. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1 – 27/10 – 21:40
CINE CAIXA BELAS ARTES S/1 VILLA LOBOS – 28/10 – 21:35

Guerra do Paraguay
O filmedo veterano diretor carioca Luiz Rosemberg Filho traz à tona um cinema inventivo, com raízes fincadas no passado, mas, como toda obra capaz de dialogar acima do tempo, finamente certeira e contemporânea. Nada de estranhar no trabalho de um cineasta cuja obra, em que se incluem Jardim de espumas (71), Crônicas de um industrial (78) e O santo e a vedete (82), dialogou sempre com a procura de novos caminhos, valendo-lhe enormes problemas com a censura da ditadura militar.
Filmado todo em preto-e-branco, em planos-sequência, o filme começa com uma frase de Mário de Andrade (o passado é lição para meditar, não repetir) e dedicatória a Stanley Kubrick (Dr. Fantástico) e Jean-Luc Godard (Os Carabineiros). Assim, anuncia desde logo sua filiação a um cinema sem medo de explorações além dos rumos confortáveis.
Com roteiro assinado pelo próprio Rosemberg, Guerra do Paraguay declara um acento fortemente teatral, o que implica diálogos mais longos e elaborados. O primeiro personagem é um fantasma de soldado paraguaio (Chico Díaz), cujos ferimentos evocam o massacre realizado em seu país pela guerra vencida pela tríplice aliança, da qual fez parte o Brasil (além do Uruguai e Argentina), no século 19.
Soldado brasileiro que anuncia, solitário, a vitória sobre o Paraguai (Alexandre Dacosta) tem um breve encontro com o fantasma – que ele mesmo pode ter matado. Mas seu caminho segue adiante, cruzando-se com uma carroça mambembe, sem cavalo, arrastada penosamente por mulheres.
Uma delas, mãe das outras duas, acaba de morrer. O soldado ajuda a sepultá-la e ali inicia um instigante e quase sempre áspero diálogo com a filha mais velha, atriz (Patricia Niedermeier) que cuida da irmã caçula, moça autista (Ana Abbott).
Dentro da proposta de liberdade da história, permite-se este embate entre dois personagens que sequer pertencem à mesma época: o soldado é do século 19, a atriz, brechtiana, contemporânea. Ela evoca falas de escritores e poetas para contrapor a lógica autoritária, militarista e machista do soldado, que, sob uma aparência contida, esconde um veio de violência cuja irrupção é um baque.
Na parte final, mostram-se imagens documentais terríveis, de diversas guerras. Há todo um discurso pacifista entremeando o filme, mas não só. A polarização entre arte e inteligência, de um lado, e truculência, do outro, não poderia ser mais atual. História do Paraguay é um filme exigente para com o espectador, mas que certamente oferece um prato de resistência para os seus sentidos e pensamento.
(Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 6 – 27/10 – 18:10

Como podem ocorrer mudanças de programação de última hora, recomenda-se conferir sempre previamente a programação no site da Mostra: www.mostra.org