21/09/2026

Curta e longas no Cine Ceará retratam conflitos pessoais e políticos


Fortaleza – A noite de quarta (9) no Cine Ceará foi marcada por produções que exploraram o mal-estar, tanto em termos pessoais e familiares quanto sóciopolíticos. Foi o caso dos dois longas concorrentes, Pedro sob a cama, do gaúcho Paulo Pons, e do dominicano O homem que cuida, de Alejandro Andújar. O mesmo ocorreu com o único curta da programação de ontem, Memórias do subsolo ou o homem que cavou até encontrar uma redoma, diário documental do cineasta cearense Felipe Camilo.
Pedro sob a cama descreve a situação dramática de uma família destroçada por um acidente. Mariano (Fernando Alves Pinto), um empresário bem-sucedido, golpeia acidentalmente sua mulher grávida durante uma briga numa festa em sua casa. Ela morre e o bebê, Pedro, sobrevive. Abalado com a tragédia, Mariano desaparece por oito anos, período em que seu filho (Gabriel Furtado) e o enteado mais velho, Mani (Konstantinos Sarris), são cuidados pela tia materna (Fernanda Thuran) – que teve alguma responsabilidade na briga que provocou a morte da irmã.


Depois dessa ausência, Mariano resolve voltar e enfrenta as consequências de seu afastamento. Não conhece o próprio filho, um garoto esperto mas que não fala – usa constantemente um pequeno teclado para comunicar-se com os outros. Depois de uma tentativa mal-sucedida de encontrar o pai, o menino resolve segui-lo e esconder-se em sua casa todas as noites, dormindo sob sua cama – sem que o pai saiba. Isso é facilitado pelo fato de Mariano nunca trancar sua porta.
Contando com dois bons atores jovens e uma premissa instigante, o filme tropeça em transições um tanto bruscas no comportamento dos personagens, num roteiro que se vale de muitos truques para manter a presença secreta de Pedro na casa do pai (numa ocasião, ele se esconde também em seu carro). Sem nunca tornar-se orgânica e convincente, essa circunstância enfraquece a potência dramática da história, que tem a participação de Letícia Sabatella e Betty Faria (como a avó das crianças, numa interpretação excessivamente caricata).

Vigilante profissional
Estreia na ficção do diretor Alejandro Andújar, O homem que cuida aborda a história de Juan (Héctor Aníbal), caseiro de uma rica propriedade à beira-mar que é confrontado com uma série de problemas pessoais – sua mulher o deixou por outro – e profissionais, quando o filho do patrão traz para a casa alguns amigos que cometem uma série de excessos, sem que ele possa impedi-los.
O mais interessante da história transpira justamente nisto que é capaz de transmitir sobre as relações sociais na República Dominicana, profundamente impregnadas de vícios coloniais, com desigualdade social, racismo e machismo em primeiro plano. A realização, no entanto, peca por um roteiro irregular e uma direção de atores um tanto precária, diluindo a intensidade que seria capaz de elevar o filme a um patamar superior.

1984 a 2016
Curta solitário da noite, Memórias do subsolo... materializou, de forma bastante consistente,o mal-estar e a divisão que tomam conta do Brasil neste momento, a partir das observações pessoais do diretor Felipe Camilo, que as organiza sob a forma de um diário íntimo. Ele recorre a fotos familiares e outras imagens singulares de sua vida para comentar o arco de esperanças assumidas e perdidas entre 1984, auge da campanha das Diretas-já, e 2016, ano do golpe parlamentar que decretou o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.