"Malasartes e o Duelo com a Morte" mistura gêneros e investe nos efeitos
- Por Neusa Barbosa, de Fortaleza
- 07/08/2017
- Tempo de leitura 5 minutos

Fortaleza – A corporalidade e a identidade sexual voltaram a fazer parte da programação do Cine Ceará nesta noite de domingo (6), entre curtas competitivos e também no longa Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano (fotos ao lado e abaixo), fora de competição, numa sessão especial promovida pela Associação dos Críticos do Ceará.
O longa competitivo da noite, Malasartes e o Duelo com a Morte, de Paulo Morelli, por sua vez, inverteu esta chave, deslocando-se para um humor que funde vários tons, do fantástico ao caipira, e em que a sexualidade é filtrada por um viés quase ingênuo – talvez para não alterar o espírito geral de um filme que mostra querer dialogar com todos os públicos, sem um alvo muito claro na faixa etária que procura atingir.
Por esse motivo, a seleção de curtas de forte conteúdo erótico, caso de Vando vulgo Vedita, de Andréia Pires e Leonardo Mouramateus, e Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica, de Sávio Leite, não pareceram a escolha mais adequada, em termos da programação da noite, para preceder o filme de Morelli.

Intimidade brasileira
Com seu título tirado de um poema de Walt Whitman, do celebrado livro Folhas na Relva, Corpo Elétrico segue o fluxo dos desejos de Elias (Kelner Macedo), um designer gay, assistente numa confecção do Bom Retiro, em São Paulo. Inserido numa São Paulo do centro velho, proletário, o filme incorpora também essa porção da cidade em seu contexto, retratando de forma orgânica uma parcela do universo dessa classe média baixa que trabalha nas confecções ao longo da rua José Paulino.
Longa de estreia do diretor Marcelo Caetano (de curtas premiados, como Bailão), o filme se detém em temas como a diversidade sexual, preocupando-se com um tom libertário, e as pressões vividas pela necessidade do trabalho. Em debate seguido à sessão, Caetano contou que o roteiro, de sua autoria, Gabriel Domingues e colaboração inicial de Hilton Lacerda, foi sendo criado de maneira mais fluida, com a colaboração dos atores, a partir de situações que improvisavam numa sala de ensaios. Ele mesmo encarregou-se da preparação dos atores, para manter o frescor das interpretações e também uma esfera de intimidade no set.
O filme foi exibido em avant première no Festival de Roterdã e tem tido sessões em diversos países. Entre as reações comentadas pelo diretor, uma das mais curiosas ocorreu na Lituânia – onde um espectador perguntou a Marcelo: “Mas no Brasil vocês se encostam assim?”. De todo modo, Corpo Elétrico vai bem longe nessa problematização não só do amor romântico, como sustenta o diretor, como da exploração do corpo no trabalho e da resistência representada pela busca do lazer e do prazer, onde está sua catarse. O filme tem estreia marcada para 17 de agosto.
Comédia de efeitos
Apoiada em muitos e caros efeitos especiais (que teriam custado cerca de R$ 4,5 milhões), a comédia Malasartes e o Duelo com a Morte (fotos ao lado abaixo) – que tem estreia prevista para esta quinta (10) – resgata o tradicional personagem malandro e cheio de esquemas Pedro Malasartes (Jesuíta Barbosa), perseguido por Próspero (Milhem Cortaz), irmão de sua namorada (Ísis Valverde), a quem ele deve muito dinheiro, e ninguém menos do que a Morte (Julio Andrade) – que foi seu padrinho de batismo e voltou para transformar Malasartes em seu substituto na tediosa tarefa de ceifar vidas no outro mundo.

Esta ambientação do outro mundo é que exigiu os efeitos que transformam cada vida numa vela unida à terra por um longo fio flexível, além de ser o lugar onde a Morte e seu assistente, Esculápio (Leandro Hassum), são capazes de voar. Ali também se encontram as Parcas, as tecedeiras que traçam os fios dos destinos, interpretadas por Vera Holtz, Luciana Paes e Julia Ianina.
Dadas estas referências e também a velocidade com que se dão as estrepolias de Malasartes entre um mundo e outro, não se trata de uma comédia de simples acesso ou identificação. Seu grande trunfo, mais do que nos efeitos, está no elenco, que se entrega com sinceridade à composição de cada aspecto deste universo peculiar, que resgata também uma nostálgica cultura caipira.
Curtas
Esta primeira noite competitiva de curtas reuniu quatro exemplares de considerável grau de complexidade – caso do experimental Mehr Licht!, de Mariana Kaufman (RJ), uma exploração visual em torno das últimas palavras do poeta Goethe, significando “mais luz!”. Fogo Selvagem, de Diogo Hayashi (SP), sugere uma situação de ameaça sobre um enfermeiro que mora num sítio afastado e vem sendo vítima de incêndios em sua propriedade, talvez ligados aos seus encontros com outros homens.
Por esse tom, tanto estes, quanto os citados Vando vulgo Vendita e a animação Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica, de conteúdo sexual bem explícito, estariam mais bem programados numa outra noite, não antecedendo um filme como Malasartes e o Duelo com a Morte.
