21/07/2026

Brasília fecha competição com filmes-manifesto sobre diversidade sexual

Brasília – Com a exibição do longa paulista Bixa Travesty (fotos), da dupla Cláudia Priscila e Kiko Goifman, e dos curtas BR3, de Bruno Ribeiro (RJ) e Reforma, de Fábio Leal (PE), encerraram-se as seções competitivas do 51º Festival, que anuncia nesta noite de domingo (23) os seus prêmios.

Vencedor do troféu Teddy no último Festival de Berlim, o aguardado Bixa Travesty fechou com uma nota apoteótica, de intensa aclamação do público, um festival que conseguiu articular de forma notável o diálogo entre curtas e longas a cada noite da competição, o que permitiu uma fruição maior dos temas e formas apresentados na tela do Cine Brasília. Mostras paralelas, como a Caleidoscópio, igualmente trouxeram filmes em consonância com esta afinidade de propostas.

A sexualidade trans em suas diversas expressões esteve em evidência, tanto em Bixa..., com as já famosas Linn da Quebrada e Jup do Bairro, estrelas de shows originárias de bairros da periferia de São Paulo - que irão comandar um programa no Canal Brasil - quanto em BR3, com Kastelany, Dandara, Luciana e Mia, moradoras do complexo da Maré, no Rio. Suas declarações, vivências e fabulações igualmente se comunicaram com a homossexualidade abordada em Reforma, ficção que armou uma discussão pertinente sobre os conflitos de aceitação do corpo gordo diante do erotismo.

Assim, o corpo esteve no centro desta última noite do festival, que tematizou este ano em seus longas na competição as estratégias de sobrevivência diante da prisão e da tortura na ditadura (Torre das Donzelas), dilemas da vida proletária e familiar (Temporada), conflitos da adolescência feminina hoje (Luna), família em crise com toque sobrenatural (A Mão que Afaga), a greve dos caminhoneiros (Bloqueio), deslocamentos forçados diante de conflitos armados e identidade indígena (Los Silencios), experimentos formais (Ilha) e uma tentativa de ficção científica social (New Life S.A.).

Esta breve classificação certamente não esgota todos os aspectos dos nove longas concorrentes, que se mostraram diversos o bastante para produzir uma fricção entre os rumos tomados por vários realizadores neste momento conturbado do País, em diversos estados do Brasil. Esta riqueza e diversidade permitem um otimismo que outras áreas neste instante não estimulam, atestando as tentativas de respostas que a cultura e o cinema nacional, especificamente, estão dando à complexa realidade do País, disputando seu lugar na criação de um imaginário mais amplo e matizado de seu público.

Lembrando Humberto Mauro

Neste sentido, caiu como um bálsamo a exibição, no sábado à tarde, do documentário Humberto Mauro, do sobrinho-neto do pioneiro diretor mineiro, André Di Mauro, que teve sua première mundial no mais recente Festival de Veneza.
O documentário reúne imagens de diversos filmes realizados por Mauro, recriando através da montagem seu universo de inspirações, especialmente vindas da natureza – “o progresso é antifotogênico”, costumava dizer o diretor de Lábios sem Beijos (1930), Ganga Bruta (1933) e O Descobrimento do Brasil (1936). Também se incluem participações de Mauro como ator, como em O Canto da Saudade (1952), em que ele interpreta o “coronel” Januário, numa cena em que disputa uma candidatura política que tem um evidente paralelo com este momento de campanha eleitoral (certas coisas parece que não mudam nunca).

Uma das costuras sonoras do filme, que não inclui depoimentos, vem de algumas entrevistas do próprio Mauro, como uma, saborosa, realizada pelo crítico e cineasta Alex Viany.

O resgate deste passado instigante do cinema brasileiro vibrou na tela do Cine Brasília como uma evocação da paixão criativa de Mauro, que bem pode inspirar todos aqueles que acreditam que “cinema é cachoeira”, como ele dizia.