Afetos e representatividade em foco nos filmes em Brasília
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 22/09/2018
- Tempo de leitura 4 minutos
No longa Temporada, o diretor mineiro André Novais Oliveira pela primeira vez escala uma atriz profissional conhecida, Grace Passô como protagonista. Sua dramaturgia fluida, perto do real, no entanto, continua presente em todas as cenas deste novo filme, que teve sua première mundial em Locarno, em agosto, e é parte da competição em Brasíia. Sua apresentação, na noite desta sexta (21), registrou uma nota de alta emoção, pela homenagem à mãe do diretor, dona Zezé Novaes Oliveira, recentemente falecida e que mais uma vez integrou o elenco de um filme do filho.
Grace Passô interpreta Juliana, que recentemente assumiu um posto de agente de combate a endemias na cidade de Contagem (MG). Ela vem de Itaúna, onde deixou para trás um relacionamento fraturado. A recomposição da vida desta mulher obedece a dois compassos, um, a expectativa de retomada deste casamento, outro, a sua própria necessidade de encarar os desafios de um cotidiano que só à primeira vista parecem corriqueiros.
Em Temporada, outro roteiro seu, Oliveira aprofunda a dramaturgia intimista com olhos voltados à vida proletária que marcou todos os seus trabalhos, premiados inclusive, caso do longa Ela Volta na Quinta e curtas como Quintal (apesar da nota fantástica deste último). Salta mais uma vez aos olhos como o diretor insere no quadro corpos comuns, fora do modelo referendado pelos padrões estéticos da publicidade – inclusive do ponto de vista étnico-racial -, ocupando a tela com suas vidas miúdas, comuns, sem grandes revelações mas que encerram todo o dilema de estar vivo, aqui e agora. A marca do cinema do diretor é este afeto, esta sutileza que encobre a grandeza que requer atenção para se revelar.
Compartilhando afetos
Dentro deste arco, o longa se apóia na trajetória de Juliana, que encarna uma mulher simples diante de uma série de escolhas diante dos obstáculos, mas também oportunidades que se apresentam. Neste sentido, a solidão que se desenha por um lado é compensada por suas interações com os colegas de trabalho, como o carismático Russão (o rapper Russo APR), Hélio (Hélio Ricardo) e outros, permitindo-lhe desdobrar camadas que ela nem imaginava. Mais uma vez, o diretor trabalha com atores não-profissionais, que desempenham seus papéis em total organicidade dentro de uma história desenvolvida igualmente ao longo dos ensaios, como destacaram no debate de hoje Oliveira e seu elenco.
Estes momentos coletivos, além do contato com alguns moradores cujas casas os agentes visitam em ações de combate à dengue, compõem um contexto urbano do Brasil
urbanocontemporâneo que reforça o sentido de muitos atos e mentalidades, sem grandes ênfases, teses ou julgamentos. Neste sentido também, Temporada afirma uma identidade, tomando, por assim dizer, o pulso de cidadãos que normalmente ficam invisíveis, maioria silenciosa, mas capazes de tantas coisas que só uma câmera sensível quanto a de André consegue colocar em evidência.
urbanocontemporâneo que reforça o sentido de muitos atos e mentalidades, sem grandes ênfases, teses ou julgamentos. Neste sentido também, Temporada afirma uma identidade, tomando, por assim dizer, o pulso de cidadãos que normalmente ficam invisíveis, maioria silenciosa, mas capazes de tantas coisas que só uma câmera sensível quanto a de André consegue colocar em evidência.
Famílias em transe
Dupla carioca premiada em 2016, pelo curta Chico, os irmãos Carvalho retornaram com outro curta de temática social, Eu, minha mãe e Wallace, novamente na competição. Wallace (Fabrício Boliveira) é um presidiário em liberdade provisória que procura a antiga namorada (Noêmia Oliveira), com quem tem uma filha (Sophia Rocha) que não o conhece. A visita é cercada de um ritual de encobrimento que, por si só, escancara as tensões e contradições em jogo, tanto na família quanto no contexto social, marca registrada dos diretores do morro do Salgueiro, onde o filme, aliás, foi feito.
Na mostra paralela Caleidoscópio, foi acolhido com merecido entusiasmo o longa cearense Inferninho, de Guto Parente e Pedro Diógenes. Já exibido em Roterdã, o filme retrata o bar de Deusimar (Yuri Yamamoto), um lugar decadente, frequentado por figuras que se vestem como personagens do cinema caídos – de Mickey, Homem-Aranha e uma Mulher-Maravilha de bigode a Hannibal Lecter. A chegada do marinheiro Jarbas (Demich Lopes) altera a rotina do lugar, quando ele e Deusimar se apaixonam. O filme é um primor de carinho por estes personagens um tanto marginais, desdobrando uma gama de emoções que garante um engajamento total da plateia por eles e sua vibrante humanidade.Relacionadas
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