Jovens diretoras pedem passagem com garra em Brasília
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 21/09/2018
- Tempo de leitura 6 minutos
Uma nova geração de diretoras talentosas está se consolidando no cenário nacional, como comprovou a noite competitiva desta quinta (20). Passaram por aqui os novos trabalhos da mineira Juliana Antunes (do inquietante e premiado Baronesa), com o curta Plano-Controle; a curta-metragista pernambucana Nara Normande (Sem Coração), com a já premiada animação Guaxuma; e a baiana radicada em São Paulo Gabriela Amaral Almeida (O Animal Cordial), com o longa A Sombra do Pai.
Gabriela exercitou mais uma vez seu domínio numa obra de gênero. A Sombra do Pai (foto acima) é um drama de terror que tematiza uma fantasia sombria da infância, tendo ao centro uma menina de 9 anos, Dalva (a impressionante Nina Medeiros). A garota é órfã de mãe e cuidada por uma tia (Luciana Paes) que está prestes a se casar. O pai da garota, Jorge (Júlio Machado), é um pedreiro que fica longe da filha mesmo quando está presente. Sufocado por emoções que não consegue expressar, ele é atravessado pela brutalidade das condições de trabalho, a própria insegurança do emprego e também por uma tragédia envolvendo um amigo.
O desenho da produção compõe os ambientes em que se passam a maior parte das cenas, a casa humilde de bairro proletário de São Paulo (Freguesia do Ó) e o canteiro de obras, como cenários sombrios, que espelham os medos de seus habitantes, como uma extensão de seus pesadelos. Pontuando esse clima com um pé no real, outro no fantástico, a menina acredita que tem poderes sobrenaturais e que poderá trazer sua mãe de volta do reino dos mortos. Os medos que assombram seu pai também assumem a apavorante materialidade de um fantasma, um soldador que usa sempre uma máscara de ferro e usa suas ferramentas produzindo sons e faíscas.
Metáfora social
Esse recurso à crença no sobrenatural mostra-se uma resposta da própria fragilidade destes personagens – na falta de meios eficazes para o enfrentamento de questões tão avassaladoras para os seus limites, recorre-se ao imaginário que está sempre ao alcance da mão, isto no caso das personagens femininas. Jorge permanece encastelado em sua afasia, em sua impossibilidade de comunicação. Como definiu a diretora no debate de hoje: “A humanidade não tem como sair. Ele também é vítima desse sistema patriarcal que está ao nosso redor”.
Tanto quanto em seu visceral longa de estreia, O Animal Cordial, existe aqui um discurso social transparente nestas relações – e que Gabriela articula de forma mais orgânica do que um outro filme com o qual seu cinema tem parentesco, Trabalhar Cansa, de Marco Dutra
e Juliana Rojas.
e Juliana Rojas.
Neste jogo, há uma criança solitária repentinamente empoderada em seu círculo familiar com a partida da tia, levando-a a assumir um protagonismo apoiado em seus supostos poderes. O que lhe dá uma vantagem, pelo menos imaginária, sobre o pai, cujo desmoronamento emocional é evidente, além de sua vulnerabilidade econômica. A ferida em suas costas que não quer sarar é um símbolo gritante de tudo o que este homem não consegue dizer.
Teletransporte e intimismo
Como tem sido a marca desta edição do festival, os dois curtas da noite dialogaram intensamente com o longa. Plano-Controle, de Juliana Antunes, envereda para a ficção científica com uma pegada política ao situar a aventura de uma jovem, Marcela (Marcela Santos), que dispõe de um plano de operadora de celular, a Slim, que prevê o teletransporte.
Sonhando ir para Nova York, ela tecla essa opção, apenas para ir parar no bairro de Nova York, em sua própria cidade (Belo Horizonte). Ela não desiste e continua tentando, desembarcando nos anos 1990, onde conhece outro personagem (Uirá dos Reis). As conversas entre os dois são impagáveis, sinalizando o descrédito dele diante de tudo o que ela lhe conta que aconteceu no Brasil até 2016 (ano de que vem Marcela), como as eleições de Lula e o impeachment de Dilma Rousseff.
Guaxuma (foto), por sua vez, é um primor de sensibilidade e técnica – e há uso de várias, como stop motion, areia molhada, areia seca e escultura em areia – para representar, em animação, uma história autobiográfica, a amizade entre a diretora, Nara Normande, e uma amiga de infância, Tayra. A narração sensível da própria Nara, orientada pela atriz Maeve Jinkings (que originalmente faria a narração) pontua este trajeto das duas, trazendo de volta suas vivências com os pais, na praia de Guaxuma, suas descobertas e cumplicidade, até a ocorrência de uma tragédia (Tayra morreu em 2010).
Caleidoscópio
Na mostra paralela Caleidoscópio, o longa Calypso, dos diretores Lucas Parente e Rodrigo Lima, apostou num cinema de referências e montagem para criar um ambiente onírico, que desafia seus espectadores a formarem um sentido a partir de imagens e sons dispersos. Numa ilha, dois personagens (Julia Gorman e Walter Reis) se relacionam, declamam textos poéticos, ocupam o espaço, traduzindo uma experiência em contato com essa natureza estranha, delimitada pelo mar e também pela existência de uma casa abandonada.
Numa narrativa nunca linear, que incorpora a performance (como vários outros filmes deste festival) e o discurso poético, traduz-se um contraste entre um mundo primitivo e um mundo industrial que o espreita de perto, com seus navios e plataformas.
O som é um agente essencial à composição destes universos, assim como a inserção de trechos de filmes antigos – como um que mostra a célebre Luz del Fuego e sua dança com uma cobra. A direção de arte é de Moa Batsow, colaborador habitual de Júlio Bressane, em filmes como Educação Sentimental e Beduíno, e Walter Reis.
Outro filme da mostra, Os jovens Baumann, de Bruna Carvalho Almeida, cria uma ficção em torno de uma caixa de fitas VHS encontradas numa grande fazenda no sul de Minas Gerais, que registram as últimas férias de oito jovens, herdeiros da família mais rica e importante do lugar, depois desaparecidos.
Boa parte do filme utiliza essa estética de vídeo, em janela estreita, através da qual conhecemos estes jovens ricos e despreocupados, em momentos de lazer e conversas que aos poucos infiltram uma certa incerteza sobre seu próprio futuro. O contraponto está em imagens mais atuais, supostamente da diretora como personagem da história, como uma pessoa da região que conheceu os protagonistas e hoje reflete sobre este súbito e misterioso desaparecimento.
O jogo do filme, visivelmente, é jogar para o espectador suas lacunas, levando-o a participar de um exercício imaginativo sobre o que não se sabe, não se conta e talvez nunca se possa descobrir com certeza sobre estas pessoas que deixaram para trás apenas estes VHS, que foram o derradeiro testemunho de sua passagem na terra, extinguindo a família com seu desaparecimento – uma evidente metáfora sobre o fim de uma certa aristocracia e do vazio da herança deixada no seu rastro.
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