21/09/2026

Filmes em Brasília expressam experimentos de linguagem

Um ano depois de passarem por Brasília em 2017 com seu longa de estreia, Café com Canela – que recebeu três prêmios -, os diretores baianos Ary Rosa e Glenda Nicácio, retornaram com outro longa na competição, Ilha, de estilo completamente diverso.

Este cinema fora do eixo, criado no polo de Cachoeira, Recôncavo Baiano, desta vez arriscou-se bem mais, ao criar um filme que desafia o espectador desde a primeira imagem, olha nos olhos dele e o chama para a briga, correndo o risco de irritar e desconcertar, claramente flertando com o espírito do Cinema Marginal.

O fio condutor é a relação tensa entre um cineasta premiado, Henrique (Aldri Anunciação), sequestrado pelo traficante Emerson (Renan Motta) na ilha que dá nome ao filme. À força, Emerson quer que Henrique filme a história de sua vida, conturbada pela pobreza e por abusos de seu pai, ditando-lhe as regras do jogo.

Por não se tratar de uma história narrativa, linear, estes e outros personagens que fliuem pelo caminho têm um desenvolvimento peculiar–
existem em função do que o filme quer dizer, sendo, até certo ponto, categorias, símbolos, dentro de uma alegoria da sociedade desigual e desordenada do Brasil. Brasil, aliás, é o nome de uma personagem misteriosa, uma mulher negra, de certa idade, vestida em andrajos, com um cajado, desvalida, mas dona de um diálogo no filme que a coloca como uma representação possível da nação, desafiando o cineasta por não reconhecê-la, ainda que se dê ao direito de estar continuamente falando e escrevendo sobre ela.

Esta vinculação social da história é nítida em vários momentos – inclusive numa reveladora cartela final, que de certo modo é uma bula para leitura da própria obra – e é, talvez, o que de melhor haja no tecido desta narrativa. Um problema é que se articula, ao longo do caminho , e de maneira irregular, um outro discurso, este estético, metalinguístico, em que Emerson faz cobranças ao diretor – como quando o indaga sobre quando “perdeu o tesão” de filmar. Este pé em dois mundos balança o filme, certamente de modo intencional, num percurso nem sempre satisfatório. Ilha é uma provocação, um ato de coragem, o que é positivo, mas no todo não dá conta de todas as setas que lança ao vento. Muitas não acertaram o alvo.

Quanto a este uso de diferentes linguagens, e mesmo a diferença entre este segundo longa e Café com Canela, o diretor Ary Rosa pontuou no debate: “Queremos mesmo é repensar, descaretar o cinema, gozar de uma liberdade sem restrições. Eu e Glenda não temos nenhuma pretensão de ter um estilo”.

Curta
Da mesma maneira que o longa, o curta da competição na noite de terça, Aulas que matei (foto), de Amanda Devulsky e Pedro B. Garcia (DF), lançou-se a uma desconstrução da narrativa ao retratar uma escola pública, colocada no centro de incidentes – como a presença da polícia, que interfere numa rotina que nunca parece inteiramente normal, alienando estudantes de sua vida – o que pode ser lido como uma metáfora da própria educação pública brasileira, em risco, sempre numa situação estranha, tematizada pelo filme por um certo tom fantástico em algumas cenas. No elenco, o baiano Marcus Curvelo, o premiado ator e diretor de curtas como Mamata, visto em Brasília em 2017, aqui como um professor de filosofia deslocado, quase um Buster Keaton, na procura de um aluno e de um rumo perdidos.