21/07/2026

Caminhoneiros e sem-teto mobilizam competição em Brasília

Filmes de emergência, feitos no calor da hora, o longa Bloqueio, de Victória Álvares e Quentin Delaroche (RJ), e o curta Conte Isto Àqueles que Dizem que Fomos Derrotados, de Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cristiano Araújo e Pedro Maia de Brito (MG/PE), tematizaram duas questões cruciais do país – respectivamente, a recente greve dos caminhoneiros e as ocupações de movimentos pró-moradia popular.

Por essa urgência, são filmes que dialogam – uma marca especial desta edição – e também trazem na carne sua incompletude. Nenhum deles terá, na verdade, tantas respostas ao tema que abordam, mas cada um deles contém materiais de reflexão pertinentes ao momento à flor da pele vivido pelo país às vésperas de uma eleição visceral.

Filmado em três dias em maio último, em Seropédica, na via Dutra, Bloqueio faz um instantâneo do movimento dos caminhoneiros que parou o país, ficando junto com eles. Assim, o filme toma o pulso do grupo ali reunido num bloqueio, que expõe suas reivindicações, seus protestos contra o governo Temer, revelando um desalento generalizado com os políticos e, da parte de vários deles, uma simpatia pela intervenção militar.

Devido a esta opção por ouvir estes caminhoneiros “num exercício de empatia, sem julgamento”, como afirmaram os diretores no debate de hoje, o filme oferece uma tribuna a uma camada do país que geralmente não é vista nem ouvida com toda essa intensidade. Não raro, o público, especialmente o que não compartilha das visões políticas dos protagonistas, algumas ingênuas, outras francamente preconceituosas e protofascistas – como um caminhoneiro que diz que na ditadura militar quem foi morto pelo governo foram só os “vagabundos” -, pode ficar incomodado. De todo modo, é um desconforto também didático, diante do quadro eleitoral entrevisto por estes dias no país.

O próprio filme problematiza, em termos, esta visão dos caminhoneiros, com algumas perguntas dos diretores e também mediante o aproveitamento de algumas cenas – a melhor delas, a conversa de uma professora do Rio, que foi espontaneamente ao agrupamento dos caminhoneiros, que indaga sobre suas reivindicações mas problematiza a adesão deles ao intervencionismo militar, com o qual ela deixa claro que não concorda.

Vencedores e perdedores

No debate do longa, emergiram críticas quanto a aspectos que ficaram fora dele – como a ausência de patrões e de líderes que estariam por trás do movimento de paralisação, usando os caminhoneiros como massa de manobra. O diretor Delaroche pontuou que, quando decidiram fazer o filme, realizado com recursos próprios, ele e Victória foram lá “para registrar”. “Nem sabíamos se faríamos um filme, muito menos que o mandaríamos a Brasília”, disse.

Victória, por sua vez, admitiu que o documentário “tem muitas fragilidades que a gente assume. A gente não tinha condições de dar todas essas respostas. Em três dias de filmagem, só conseguimos dar um retrato de momento que nos pareceu o mais justo”. Antes de filmar, eles tiveram que formar uma relação de confiança com os caminhoneiros, o que lhes permitiu estar ali quando o exército e a polícia rodoviária federal chegaram, com uma ordem do STF, para forçar sua dispersão, mediante a imposição de multas. A decepção deles com essa autoridade fardada, em que tantos deles depositam uma confiança idealizada, afinal, mostra-se uma das contradições interessantes captadas no documentário – que ainda não tem distribuidor e deve percorrer mais um pouco um circuito de festivais.

Ocupações em BH

Conte Isto Àqueles que Dizem que Fomos Derrotados é um curta feito a oito mãos, por realizadores ligados ao movimento por moradia de Belo Horizonte, especificamente, o MLB – Movimento de Luta dos Bairros, Vilas e Favelas. Com uma captação de imagens desenvolvida ao longo de quatro anos, em três ocupações diferentes
- duas delas, alvo de despejo –, o filme captura a urgência desse tipo de ativismo, mostrando pessoas movendo-se no escuro, em terrenos baldios, esgueirando-se para escapar da polícia e construindo febrilmente suas cabanas, pendurando suas bandeiras. Não há diálogos ou narração neste material que, segundo seus diretores, é usado para “educação política” junto a populações. Como definiu um dos diretores, Bemfica, trata-se de “um uso tático da imagem”. Os diretores comentaram também que este é o primeiro curta do MLB selecionado num festival.