Sem abrir mão da preocupação social, já que o novo trabalho aborda a imigração na Europa, Gavras, de 76 anos, busca maior leveza e até algum humor para contar a história de um imigrante ilegal, Elias (Riccardo Scamarcio, de Meu Irmão é Filho Único).
Em sua coletiva de imprensa, na tarde desta terça (28), o cineasta greco-francês não nega inspirações neorrealistas e mesmo no comediante Jacques Tati para compor Éden à l`Ouest. “Fiz muitas películas dramáticas sobre imigrantes. Desta vez, queria que o público visse a história de uma maneira distinta. Escolhi mesclar o drama com a comédia porque isso me pareceu indispensável aqui. Não há só uma inspiração neorrealista. Jacques Tati dizia que a comédia está em todas as partes. E eu já usara um viés cômico em meu filme anterior, O Corte (2005). Neste meu novo filme, me pareceu que retratar a imigração como um drama provocaria medo. E os imigrantes não devem inspirar medo. São pessoas positivas, que trazem consigo um outro tipo de cultura”.
Para o cineasta, essa busca de uma nova linguagem em sua obra não é meramente uma decorrência dos novos tempos, em que a Guerra Fria foi superada e a globalização se impôs. “A linguagem de um filme depende mais de sua história do que do período em que é feito. Há outros fatores de transformação nos últimos 15 ou 20 anos, especialmente os clipes. Eles mudaram a maneira de os espectadores compreenderem o cinema e seguirem as elipses de uma história”, acredita.
Risco do digital
O impacto da tecnologia digital, em que ele vê uma nova revolução, em termos de concepção, estética e economia do cinema, pode trazer alguns efeitos negativos. “Há também o perigo de grandes companhias criarem uma concentração, disparando películas em várias partes do mundo pelo telefone, por exemplo. É preciso examinar essas novas questões”, pondera.
América Latina
Indagado sobre como surgiu seu interesse pelo continente latino-americano, cenário de dois de seus principais filmes (Estado de Sítio e Missing – Desaparecido), Gavras recordou que veio da busca de uma história, nos anos 70. Ele pesquisava a figura de um embaixador norte-americano, que servira na Grécia durante a ditadura dos generais, nos anos 60, e depois se deslocara para a Guatemala, onde novamente estaria por trás de um golpe militar.
Ao invés disso, o diretor encontrou o tema dos Tupamaros, grupo guerrilheiro que combatia a ditadura no Uruguai, nascendo ali o filme Estado de Sítio. “Esta era uma história muito mais moderna e interessante do que a que eu procurava antes”, justificou.
Devido à ditadura uruguaia naquele momento, Gavras filmou Estado de Sítio no Chile sob o governo de Salvador Allende, que lhe pareceu “um socialista completamente humano que pretendia mudar seu país numa direção democrática”. Anos depois, produtores norte-americanos o procuraram para dirigir Missing – Desaparecido, que lhe deu o Oscar de roteiro adaptado. Hoje ele comenta que também quis fazer o filme em homenagem a amigos mortos sob a ditadura de Augusto Pinochet, como Augusto Rivales, diretor da TV chilena.
Presidente do júri do Festival de Berlim que, em 2008, deu o Urso de Ouro ao filme brasileiro Tropa de Elite, de José Padilha, Gavras não lhe poupa elogios: “Interessou-me seu conteúdo, o modo como retrata a polícia e como o governo lhe permite fazer tudo. Ali havia violência e sarcasmo. É um filme muito importante".
