05/06/2026

Em crise de identidade, Oscar 2022 pode buscar ao menos relevância artística




Jane Campion, no set de Ataque dos Cães (Divulgação/Netflix)

A História, como sempre, oferece contextos mais variados para os discursos de agradecimentos do Oscar. Tudo pode entrar no balaio dos “obrigado” de ganhadores e ganhadoras da estatueta. Neste ano, além do perene aquecimento global e da pandemia, a invasão da Ucrânia deverá frequentar várias falas, numa busca de maior relevância para a cerimônia, além das barreiras e recordes eventualmente quebrados.

Quem deverá ser o primeiro ou a primeira a mencionar Ucrânia no palco? Alguém superará os cancelamentos e ganhará um prêmio? Com o passar dos anos, e queda da audiência – em especial nos EUA –, a festa do Oscar veio se tornando cada vez mais protocolar e previsível, seja nas piadas dos apresentadores e apresentadoras ou nos discursos dos ganhadores e ganhadoras. O que não quer dizer que não haja espaço para alguma consistência, inclusive artística. Jane Campion, caso se confirme vencedora do Oscar de direção, categoria em que é a franca favorita, seria a terceira mulher – a segunda consecutiva – a levar o prêmio. O mesmo feito vale para seu Ataque dos Cães, na categoria melhor filme.

Desde sua vitória como diretora no Festival de Veneza de 2021, Campion tem feito uma bela escalada nas premiações anuais, e esta seria a merecida coroação na carreira de uma das maiores diretoras da história do cinema. Ela já tem um Oscar pelo roteiro de O Piano, em 1994. Um filme que, por falar em grandes feitos, foi o primeiro dirigido por uma mulher a vencer a Palma de Ouro em Cannes (1993), ainda que dividida com o chinês Adeus, Minha Concubina, de Chen Kaige. Ataque dos Cães, que já recebeu inclusive críticas machistas pela maneira como a diretora adentra o universo masculino, é mais um ponto alto numa carreira admirável.

Internacionais

O japonês Drive My Car, de Ryûsuke Hamaguchi, ostenta o feito de ser o primeiro de seu país indicado na categoria Melhor Filme – e também concorre em direção e Filme Internacional, na qual, obviamente, é o favorito - embora o norueguês A Pior Pessoa do Mundo e o italiano A Mão de Deus até possam surpreender. Mas seria uma lástima. Em sua sutil mistura de minimalismo e intensidade, Drive My Car está muito acima dos outros concorrentes nesta modalidade, embalando com uma capacidade hipnótica as suas alentadas três horas de duração.




Drive My Car, de Ryûsuke Hamaguchi, primeiro longa japonês indicado a Melhor Filme e favorito em Filme Internacional

O intenso e original dinamarquês Flee (Flugt), de Jonas Poher Rassmussen, reúne vários méritos, mas tem mais chances nas categorias animação e documentário, nas quais igualmente concorre. Entre os documentários, no entanto, o favorito é o luminoso Summer of Soul (...ou Quando a Revolução Não Pode Ser Televisionada), de Questlove, um extraordinário e vibrante resgate do lendário Festival Cultural do Harlem, em 1969.

Nas categorias de intérpretes, talvez também não haja surpresas. A novidade, na verdade, aconteceu antes, nas premiações da temporada que elegeram Jessica Chastain como melhor atriz, por Os Olhos de Tammy Faye, um filme que ainda não vimos aqui no Brasil e, fora as indicações à atriz, passou batido. Nesta categoria, aliás, trava-se uma das competições mais acirradas da premiação, com a espanhola Penélope Cruz arrasando como a protagonista de Mães Paralelas, de Pedro Almodóvar – um filme que merecia mais do que suas duas indicações (a outra sendo também merecida, pela trilha original de Alberto Iglesias); a inglesa Olivia Colman (vencedora em 2019, com A Favorita), por sua atuação sensível e interiorizada em A Filha Perdida (estreia notável da atriz Maggie Gyllenhaal na direção); a australiana Nicole Kidman, numa surpreendente transformação em Lucille Ball no drama Apresentando os Ricardos; e a mais jovem candidata, a norte-americana Kristen Stewart, 31 anos, superando-se no trágico papel da princesa Diana no singular drama biográfico Spencer, do chileno Pablo Larraín. De modo geral, porém, os latino-americanos foram esnobados em todas as categorias este ano.




Will Smith, em King Richard: Criando Campeãs, favorito na categoria Melhor Ator

Tudo indica que Will Smith deve levar a estatueta como ator, por King Richard: Criando Campeãs – embora ele tivesse merecido mais por outros filmes no passado. Neste ano, na verdade, Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães) e Denzel Washington (A Tragédia de Macbeth) realizaram trabalhos mais repletos de nuances e complexidade.











Troy Kotsur, concorrendo como coadjuvante, poderá tornar-se o primeiro ator surdo a ganhar um Oscar. Ele é um dos grandes achados de No Ritmo do Coração, no qual contracena com Marlee Matlin, que é a única atriz surda que até hoje ganhou um Oscar – por Os Filhos do Silêncio, em 1987. Mas este Oscar não cairia nada mal ao jovem australiano Kodi Smit-McPhee, nada menos do que surpreendente em seu papel em Ataque dos Cães.

Ariana DeBose, de Amor, Sublime Amor, é também a favorita como coadjuvante, embora Kirsten Dunst, de Ataque dos Cães, possa surpreender. Ninguém espera mesmo que a sublime Judi Dench, do alto de seus 87 anos – a indicada mais velha – e na oitava indicação, como a avó em Belfast, venha a vencer aqui seu segundo Oscar.




Dinamarquês Flee, de Jonas Poher Rassmussen, concorre em três categorias: Documentário, Animação e Filme internacional

Há outros filmes que, mesmo com indicações múltiplas, devem, quando muito, conseguir prêmios técnicos, como é o caso de Duna, de Denis Villeneuve, Belfast, de Kenneth Branagh (um tanto supervalorizado em número de indicações), Não Olhe Para Cima, de Adam McKay (um roteiro original dos mais interessantes, indicado ao Oscar), O Beco do Pesadelo, de Guillermo del Toro, e Licorice Pizza, de Paul Thomas Anderson – embora este último tenha bastante chance na categoria Roteiro Original, o que seria ao menos um prêmio de consolação para um longa tão envolvente como retrato de época.