21/07/2026

Festival de Brasília mantém sua sintonia como um espelho do país

Fechando o ano de 2023, o mais antigo festival de cinema do Brasil, o 56º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro começa sua programação na noite deste sábado (9), com a exibição do inédito Ninguém Sai Vivo Daqui (foto ao lado), novo longa-metragem de André Ristum, logo após a cerimônia de abertura do evento. O filme teve sua première mundial no Black Nights Film Festival (Estônia) e terá sua primeira projeção nacional na capital federal. A estreia comercial está planejada para 2024.
Ninguém Sai Vivo Daqui inspira-se livremente no livro "Holocausto Brasileiro", de Daniela Arbex, e parte da série Colônia, do Canal Brasil, com cenas inéditas. O longa aborda ficcionalmente os casos de internação compulsória, torturas e assassinatos no Hospital Psiquiátrico Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. No elenco, Fernanda Marques, Augusto Madeira, Andréia Horta, Rejane Faria, Naruna Costa, Aury Porto, Arlindo Lopes e Bukassa Kabengele

Antes do filme, a cerimônia de abertura, apresentada pelos atores Rocco Pitanga e Gabriela Corrêa, homenageia profissionais do audiovisual. A começar pelo grande homenageado da edição, o ator Antonio Pitanga, que receberá um Troféu Candango pelo conjunto de sua obra. O ator, de 84 anos, terá assim reconhecida uma admirável trajetória que remete aos anos 1960, em filmes como Barravento, primeiro longa de Glauber Rocha (1962) até o recente Casa de Antiguidades, de João Paulo Miranda Maria (2020).

Outras homenagens

Distinção conferida anualmente pelo festival para profissionais destacados pela dedicação à pesquisa e preservação do cinema nacional, a Medalha Paulo Emílio Salles Gomes será atribuída à professora da UnB e documentarista premiada Dácia Ibiapina.

A Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV) que historicamente entrega seu prêmio na abertura, outorgará uma distinção especial em reconhecimento ao trabalho realizado pela documentarista, poeta, professora e artista plástica Maria Coeli, mineira radicada em Brasília.

Também serão lembrados em homenagens póstumas, duas personalidades históricas do audiovisual brasiliense: o ex-projecionista do Cine Brasília Elmar Umberto “Beto” Techmeier e o premiado cineasta e fotógrafo André Luís da Cunha, vencedor de quatro troféus Candango, que trabalhou em mais de 50 produções do cinema local.

A cerimônia de abertura, bem como a de premiação, no dia 16, serão transmitidas ao vivo pelo canal do Festival de Brasília no YouTube. O filme de encerramento será Raoni, Uma Amizade Improvável, de Jean-Pierre Dutilleux, com sessão marcada para as 16h do dia 16, no Cine Brasília. O cinema, aliás, assim como outros cinco locais de exibição (confira abaixo), incorpora a tecnologia 4k em todas as sessões da mostra competitiva e da mostra Brasília.

Competição de longas
Seis longas integram a competição. Entre eles, A Transformação de Canuto (foto ao lado), produção pernambucana e paulista dirigida pelo cineasta indígena Ariel Kauray Ortega e por Ernesto de Carvalho, colaborador do projeto Vídeo nas Aldeias, além de co-diretor e fotógrafo do documentário Martírio, de Vincent Carelli - este, vencedor de um Prêmio Especial do Júri, além de ser considerado o Melhor Filme para o Júri Popular no 49º Festival de Brasília.
A Transformação de Canuto retrata a comunidade Mbyá-Guarani na fronteira brasileira com a Argentina, por meio de uma reconstituição cinematográfica da lenda de um homem que se transformou em onça. O filme venceu dois prêmios no prestigiado IDFA - Festival Internacional de Documentários de Amsterdã: melhor filme e melhor contribuição artística da seção Envision, dedicada aos filmes de inovação.

A seleção de longas traz de volta à capital nomes já consagrados no festival: a cineasta carioca Sandra Kogut, conhecida pelos longas Mutum (2007), Campo Grande (2015) e Três Verões (2019); o premiado diretor carioca Allan Ribeiro, vencedor do Candango de melhor direção de arte e edição por Esse Amor que Nos Consome em 2012; e o diretor mineiro André Novais, que participa pela quarta vez do festival, após sagrar-se grande vencedor da 51ª edição, com o longa Temporada (2018).

Nesta edição, Sandra Kogut apresenta o documentário No Céu da Pátria Nesse Instante (foto ao lado), um olhar sobre os turbulentos meses do período eleitoral de 2022 que culminaram na invasão dos Três Poderes em 8 de janeiro deste ano. O carioca Allan Ribeiro mais uma vez recorre à linguagem poética para refletir sobre o cotidiano em Mais um Dia, Zona Norte, no qual retrata as transformações na rotina de trabalhadores da periferia do Rio. No elenco, Valéria Silva, Victor Veiga, Silvio Fernandes e Lara Rodrigues. E André Novais comparece com sua nova ficção ambientada em Contagem (MG), O Dia Que Te Conheci, sobre a vida do bibliotecário Zeca (Renato Novais), cuja rotina é transformada após conhecer uma moça chamada Luísa (Grace Passô).

Do Distrito Federal, vem Cartório de Almas, estreia do diretor brasiliense Leo Bello na mostra competitiva nacional. Premiado por obras anteriores no gênero do cinema fantástico, este seu segundo longa-metragem de ficção narra a história da mais nova funcionária contratada pelo tal cartório do além. Aos 126 anos, ela tem como função protocolar as motivações de quem renunciou à eternidade. No elenco, Gabriela Correa, Wellington Abreu, Chico Sant’Anna e Roustang Carrilho.

Em Nós Somos o Amanhã, ficção de São Paulo, Lufe Steffen, referência do cinema LGBTQIA+, mergulha numa viagem no tempo que leva uma professora de música de volta aos anos 1980, para ensinar as pessoas a lutarem contra o bullying, a perseguição e a intolerância racial, de gênero e de sexualidade na sociedade da época. No elenco, Claudia Ohana, Silvero Pereira, Rico Dalasam, Érica Ribeiro e Alicia Anjos.

Competição de curtas

São doze os curtas da seleção competitiva. Dois curtas do Distrito Federal documentam comunidades autóctones. A Fumaça e o Diamante, de Bruno Villela, Fábio Bardella e Juliana Almeida é uma coprodução entre Amazonas e DF que acompanha o reencontro de uma família Yanomami. Vão de Almas, de Edileuza Penha e Santiago Dellape, mergulha no imaginário do Quilombo Kalunga na região de Cavalcante (GO).

Do Espírito Santo, vem o já multipremiado Remendo, de Roger Ghil (GG Fák??làdé), que evoca a espiritualidade anticolonial; de Alagoas, a ficção Queima Minha Pele, de Leonardo Amorim, aborda a estética queer ambientada no litoral do estado; e do Rio Grande do Sul, Pastrana, de Gabriel Motta e da skatista Melissa Brogni, documenta uma homenagem ao amigo e parceiro de rampas que dá nome ao filme, revivendo suas memórias a partir de amigos e familiares.

A temática da espiritualidade aparece em outros dois curtas: Axé Meu Amor, produção paraibana dirigida por Thiago Costa, ficção sobre uma mãe de santo em busca do sagrado, e Dona Beatriz Ñsîmba Vita, dirigido pelo artista mineiro Catapreta, em que uma mulher singular tenta cumprir uma missão divina, inspirada no legado da heroína congolesa Kimpa Vita.

Três produções mergulham na vida urbana para contar ficções distintas. Erguida, dirigido e estrelado pela atriz e diretora Jhonnã Bao, do Coletivo Contraplano, acompanha a resistência de uma jovem poeta da periferia de São Paulo; enquanto Cidade By Motoboy, outra produção paulista, mostra as atribulações de um motoboy do interior do estado. Cáustico, curta brasiliense de Wesley Gondim, por sua vez, divide-se entre realidade e fantasia para narrar a história de mãe e filha em busca de cura para uma misteriosa doença.

Completam a lista os curtas cariocas O Nada, do poeta e dramaturgo André Ladeia, do Rio de Janeiro, que adapta um conto do autor russo Leonid Andreiev; e Helena de Guaratiba, de Karen Black, estrelado pela diretora, produtora e atriz Helena Ignez, no papel-título de uma senhora que encontra o amor em um bairro pesqueiro do Rio.

Coproduções

Entre as mostras paralelas - que incluem a Mostra Brasília e a Outros Olhares -, uma novidade está na Coproduções, que inclui quatro títulos que já circularam em festivais nacionais e internacionais: O Livro dos Prazeres, de Marcela Lordy, adaptando livro de Clarice Lispector, protagonizado por Simone Spoladore; Puan, de Maria Alché e Benjamín Naishtat, filmado na Argentina e acompanhando os dilemas de um professor universitário (Marcelo Subiotto); Levante, de Lillah Halla, sobre uma adolescente jogadora de vôlei (Ayomi Domenica) que se vê diante dos dilemas de um aborto; e Sem Coração, de Nara Normande e Tião, em torno de um grupo de adolescentes de uma cidade praiana de Alagoas em meados dos anos 1990.

SERVIÇO

56º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

Data: 9 a 16 de dezembro de 2023
Locais: Cine Brasília (106/107 Sul), Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul), Complexo Cultural de Planaltina, Complexo Cultural Samambaia, Hotel Vision Plus e Auditório II do Museu Nacional da República.

Ingressos da Mostra Competitiva Nacional a R$ 20,00 e R$ 10,00, à venda na bilheteria do Cine Brasília a partir de duas horas antes de cada sessão. Demais exibições com entrada franca.

Programação completa no site do festival.