Uma jornada de cinema fantástico
- Por Neusa Barbosa
- 15/12/2023
- Tempo de leitura 3 minutos
Brasília - Para quem gosta de cinema fantástico, a noite de quinta (14) no festival foi um prato cheio. Ambientado numa época indeterminada em que a vida eterna se tornou tecnicamente possível, o filme Cartório das Almas, do diretor Leo Bello (DF), acompanha Laura (Gabriela Corrêa), uma mulher que, apesar da aparência jovem, tem 126 anos. Ela comanda uma estranha repartição em que pessoas que se cansaram de viver podem procurar uma peculiar forma de extinção. Como é habitual em filmes de gênero, a direção de arte (assinada por Maíra Carvalho) e a fotografia (de Pedro Maffei) são as chaves para instaurar o clima deste mundo estranhamento sombrio, de cores descoradas, que em alguns momentos tem um toque de faroeste - com a chegada a cavalo do supervisor do cartório, que vem recolher regularmente os dados das pessoas que optaram por deixar de existir. A chave para esta desesperança em continuar vivendo está num efeito colateral desta eternidade - para não envelhecer, as pessoas devem submeter-se regularmente a banhos de uma substância branca, semelhante ao leite, mas que tem o efeito colateral de apagar suas memórias do passado. Continuar vivendo eternamente significa, portanto, não se lembrar de onde se veio, quem são seus familiares e amigos, o que se viveu - uma existência sem identidade, planos nem esperanças, que inquieta também Laura.
O roteiro, assinado por Leo Bello, não oferece muitas explicações, preferindo investir na criação de uma atmosfera inquietante, baseada na fotografia, nos efeitos sonoros e na onipresença de pássaros - que têm a ver com o método da extinção humana. Mostra, assim, influências de um cinema como o de Yorgos Lanthimos, também no despojamento emocional, que não chega tão longe quanto nos filmes do cineasta grego. Por tudo isso, parece um filme com bastante potencial de disputar premiações técnicas.
Morte e horror
No curta mineiro O Nada, o diretor estreante André Ladeia procurou inspiração num conto do autor russo Leonid Andreiev para imaginar o encontro entre um homem moribundo (Pedro Paulo Rangel) com o diabo (Larissa Maciel), que o pressiona a optar entre duas impossíveis escolhas - a eliminação total ou uma existência eterna de sofrimento. A sessão teve também uma homenagem do diretor ao ator carioca, falecido há cerca de um ano.
Maíra Carvalho, diretora de arte, e Léo Bello, diretor do longa "Cartório das almas" | Crédito: Neusa Barbosa
Já o curta-metragem brasiliense Cáustico, de Wesley Gondim, mergulhou de cabeça no cinema de horror, acompanhando a história de uma mãe (Ana Luiza Rios) e uma filha (Bianca Terraza) isoladas num sítio, onde se dedicam a estranhos rituais de sangue. A fotografia de Joanna Ramos, a direção de arte de Carmen San Thiago e a montagem de Daniel Bandeira (diretor de Amigos de Risco e Propriedade, que estreará em breve) formam a moldura sólida para que a história funcione com potência visual, embora o gore assumido possa desagradar.
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