21/07/2026

A hora do musical queer e de Helena de Tróia

Brasília - Um toque de diversidade e também de estranhamento ocupou a tela do Cine Brasília em sua terceira noite competitiva com a passagem do musical queer Nós Somos o Amanhã (foto ao lado), do cineasta paulista Lufe Steffen.
Diretor de dois documentários na temática LGBTQIA+ (A Volta da Paulicéia Desvairada e São Paulo em Hi-Fi), Steffen arrisca-se na ficção, atuando ele mesmo como intérprete de Rodriguinho, um garoto nos anos 1980 que sofre bullying na escola por ser considerado gay e se debate com sua própria incompreensão de si mesmo.

É uma escolha no mínimo arriscada ter adultos interpretando crianças, como acontece aqui, já que exige de saída uma suspensão da descrença para estabelecer um pacto de identificação com o público. A assumida busca de falar de discriminação e assédio dentro do ambiente escolar, tendo alvos escolhidos por identidade sexual (a menina trans), etnia (a menina negra), aparência física (a menina gordinha), e mesmo temperamento (o solitário nerd) também pesa sobre o fluxo da narrativa, que não é tão orgânica quanto poderia ser.

Certamente pesou a falta de experiência do diretor com a ficção, ainda mais com toda a complexidade inerente a um gênero como o musical, falhando ao não injetar uma dose maior auto-ironia que poderia compensar a dramaticidade inegável de muitas situações.

Nem por isso deixa de haver bons momentos, como a impagável aparição da Fada Boa do Oeste (referência assumida a O Mágico de Oz), interpretada por um Silvero Pereira de peruca loura e cantando à la Maria Bethânia. Cláudia Ohana também é uma presença cativante na pele da professora Clara Celeste, uma rara figura progressista que ilumina por algum tempo a vida destas crianças sofrendo com suas diferenças.

A trilha anos 1980 deve ser um atrativo à parte para uma parcela do público, que pode se embalar com sucessos de Xuxa, Turma do Balão Mágico, Trem da Alegria e Rita Lee.

O filme, aliás, é dedicado ao cineasta Djalma Limongi Batista (1950-2023), autor de um pioneiro curta de temática gay na ECA/USP, Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora (1968).

Helenas
Entre os curtas da noite, a cineasta Karen Black faz uma releitura empenhada do mito grego de Helena de Tróia em Helena de Guaratiba - em que essa sempre mítica Helena Ignez interpreta a protagonista, uma mulher de 80 anos que vive um romance com um homem muito mais jovem (Cauã Reymond), o que causa escândalo na pequena comunidade de pescadores. Com muita habilidade, a diretora combina uma atmosfera com toque mágico, com participações como da deusa Afrodite (Djin Sganzerla), com a inserção de um grupo de bailarinos funk, que substituem o bom e velho coro grego, assinalando a modernidade deste relato.

O outro curta da noite foi o capixaba Remendo, de Roger Ghill/GG Fákoládé, um título que vem percorrendo festivais e colhendo prêmios desde Tiradentes, em janeiro, passando por Gramado, Vitória, Mix Brasil e outros. A história gira em torno de um homem, Zé (Elídio Netto), que sofreu uma grande perda e vive obcecado por consertar coisas.