23/07/2026

Um toque latino e ousado em três candidatos ao Urso de Ouro

Berlim - Três filmes latinos marcaram a competição do festival com ousadias que, como sempre, causaram polêmicas, mas demonstraram a procura de novos caminhos.
Um deles é a produção italiana Another End (foto ao lado), uma ficção científica assinada por Piero Messina onde é possível ouvir muito espanhol, a partir das conversas dos irmãos Sal (o mexicano Gael García Bernal) e Ebe (a argentina Bérénice Bejo). Ebe trabalha numa empresa que dominou a tecnologia de extrair as memórias dos mortos e a possibilidade de inseri-las em hospedeiros voluntários, que podem, assim, desempenhar o papel desses falecidos para que seus entes queridos possam despedir-se deles mais longamente.
Sal está obcecado por sua mulher morta, Zoe (Renate Reinsve, a protagonista do cult A Pior Pessoa do Mundo), e se empenha em sucessivas tentativas dessa forma de despedida. Mas é visível que a coisa está saindo de controle e há outra surpresa mais perto do fim. É um filme não inteiramente satisfatório, mas não lhe falta coragem e tem em Bernal e Reinsve uma dupla que se esforça ao máximo para manter a energia desta história de amor que procura sobreviver à morte.

Música fora de época
Já a coprodução Itália/Suíça Gloria! (foto ao lado), que marca a estreia na direção da atriz e cantora Margherita Vicario, provocou especialmente por, em se tratando de uma história de época, ambientada no Vêneto dos anos 1800, permitir-se imaginar que uma jovem mulher (Galatea Belluggi), empregada num instituto religioso, seja um talento musical autodidata, capaz de tocar no recém-chegado pianoforte composições que remetem a séculos futuros,
num toque pop que se torna uma metáfora para a liberdade que a música significa no contexto da história.
O centro do enredo está numa iminente visita do papa ao instituto, colocando numa fria o padre (Paolo Rossi) que chefia a instituição - já que ele deveria compor uma melodia original para o pontífice e não tem o menor talento para isso, ao contrário de algumas das suas alunas, órfãs que ali vivem, como Lucia (Carlotta Gamba).

Independente de qualquer coisa, é realmente libertador acompanhar estas garotas, em suas incursões secretas noturnas ao depósito onde está escondido o pianoforte, situação em que demonstram não só seu talento como a capacidade de sororidade. Isto é provavelmente o melhor do filme.

Hipopótamo falante
Mais ousado ainda foi o dominicano Nelson Carlos de los Santos, que escreveu e dirigiu Pepe, uma coprodução entre seu país, a Alemanha, Namíbia e a França, para imaginar a história de um dos hipopótamos, trazido à Colômbia pelo traficante Pablo Escobar. Em parte, a história é contada do ponto de vista do animal, ouvido falando três línguas (espanhol, africâner e mbukushu). E, para retratar esta história, incrivelmente baseada em fatos reais, o diretor vale-se de tudo: trechos documentais, animação, filme 16mm e muito mais, criando uma crônica acelerada e cínica de histórias de realismo mágico que muitas vezes ocorreram no continente latino-americano.

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