Produções alemãs primam pela seriedade e boas atuações
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 21/02/2024
- Tempo de leitura 4 minutos
Berlim- Sempre uma seleção em destaque, ainda mais em se tratando de um festival germânico, os filmes alemães da competição demonstraram a habitual seriedade e peso do cinema desta parte do mundo - nos concorrentes
Dying (Sterben), de Matthias Glasner, no documentário franco-alemão Architecton, de Victor Kossakovsky, e na produção austro-alemã The Devil’s Bath (Des Teufels Bad), de Veronika Franz e Severin Fiala.
Em Dying (foto ao lado), a solidez do drama familiar sustenta três densas horas de filme, em torno do velho casal Lissy (Corinna Harfouch) e Gerd (Hans Uwe Bauer), e seus filhos adultos, o maestro Tom (Lars Erdinger) e sua irmã Ellen (Lilith Stangenberg). Lissy e Gerd estão mergulhando rapidamente na fragilização física e na demência, expondo mais drasticamente o distanciamento emocional de seus filhos, cada um deles envolvido em relacionamentos complicados e insatisfatórios.
O foco fica mais centrado em Tom, que, bem ou mal, ainda atende aos telefonemas da mãe e mantém algum contato com a família, enquanto a irmã Ellen, uma assistente dentária, afunda no alcoolismo e nos romances fugazes. É nas participações dela, no entanto, que o enredo extrai algum humor, num relato que, no geral, se afigura pesado, mas mantém inúmeras conexões com as complexidades afetivas dos relacionamentos nos dias atuais.
Por conta da consistência do roteiro e também das atuações, este é um filme que se acompanha com interesse - e, por isso, não seria surpresa se chamasse a atenção do júri internacional, presidido pela atriz Lupita N’yongo, para premiações em várias modalidades.
Dogmas em vertigem
Da mesma forma, em The Devil’s Bath (foto ao lado), um drama de época ambientado no século 18, as atuações, particularmente da protagonista Anja Plaschg, são um ponto alto para dar corpo a esta história chocante, inspirada em fatos reais. Agnes (Anja Plaschg) é uma jovem camponesa que se casa com um rapaz de uma aldeia longe da sua, Wolf (David Scheid). Profundamente religiosa, seu sonho é tornar-se mãe. No entanto, seu casamento é distante e o sonho permanece impossível.
Mais e mais, Agnes sente-se uma estranha na comunidade do marido, envolvida com pesca. Tudo o que se exige dela é o cumprimento de uma infinidade de tarefas exaustivas. Essa atmosfera, mais o deserto afetivo e sexual de seu casamento, concorrem para um estado psicológico em que Agnes mergulha em depressão - e se afigura uma decisão drástica para sair desta verdadeira prisão invisível, como foi definido na coletiva do filme.
Os diretores comentaram também que a idéia inicial para esta história veio de um podcast de uma historiadora norte-americana sobre pessoas, em geral, mulheres, que cometiam um assassinato - em geral, as vítimas sendo crianças - para serem executadas, já que o suicídio, em seu tempo, era um dogma incontornável. Segundo a diretora Veronika Franz, estima-se que houve pelo menos 400 casos como estes nos países de língua alemã entre os séculos 17 e 18. Ela, porém, acredita que o filme ressoa ainda nos dias de hoje, “porque há muitos dogmas em vigor, ainda que tenham mudado”. E a interpretação de Anja Plaschg é nunca menos do que dilacerante.
Arquitetura para repensar o mundo
Já no documentário Architecton (foto ao lado), o diretor russo Victor Kossakovsky compõe uma notável reflexão em torno da construção e destruição dos ambientes no mundo, num filme muito imagético - que em alguns momentos, lembra Koyaanisqatsi (1982).
Vemos, por longo tempo sem legendas ou explicações, imagens de cidades devastadas pela guerra da Ucrânia e terremotos na Turquia, montanhas sendo destruídas pela mineração e também monumentos milenares, de pé, no Líbano e na Itália - numa clara intenção de deixar para o espectador pensar sobre o que está vendo.
Depois, entra a participação do arquiteto italiano Michele De Lucchi, que abre um caminho para precisas reflexões sobre a duração e a fragilidade de prédios e dos materiais - chamando a atenção para a possibilidade da beleza. A música original, de Evgueni Galperine, e o desenho de som de Alexander Dudarev são essenciais para que o filme complete o seu sentido, já que o apelo é extremamente sensorial.
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