Dia do Brasil na Berlinale
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 18/02/2024
- Tempo de leitura 5 minutos
Berlim - Foi realizando uma série documental que o cineasta paulista Marcelo Botta (foto abaixo)descobriu a beleza e a riqueza cultural dos Lençóis Maranhenses, o cenário de seu longa de estreia Betânia, que faz sua première mundial na seção Panorama do Festival de Berlim. O filme terá seis sessões no festival a partir deste domingo (18/2).
Uma personagem da série documental, a parteira e líder comunitária Maria dos Céus, foi também a inspiração para que Botta conhecesse diversas outras mulheres fortes da região, cujas entrevistas contribuíram na criação da protagonista de seu filme, Betânia (Diana Mattos), uma veterana parteira que enviúva e é pressionada pelas filhas a deixar sua casa, mas ela resiste em sua procura de se reinventar.
Em entrevista pelo zoom ao Cineweb, o diretor observa: “As famílias se unem ao redor destas mulheres, é uma sociedade bem matriarcal. Muitas vezes, naquela região e no Nordeste brasileiro como um todo, os pais estão ausentes, então estas avós representam uma segunda mãe”.
As entrevistas fizeram parte de um processo de pré-produção do filme, que teve início em outubro de 2022, mas que acabou se estendendo, porque o diretor queria que o roteiro fosse escrito lá mesmo - o que lhe confere um caráter muito orgânico, já que se consolidou a partir de diversas contribuições dos moradores locais, muitos integrando também o elenco.
Botta destaca que se preocupou em “manter-se aberto o tempo todo para ter essa escuta e o filme soar o mais real possível”. Assim, houve não só a sugestão de cenas que acabaram entrando no roteiro como as toadas locais que pontuam o filme - muitas das quais desconhecidas até de pesquisadores de São Luís, como observa o diretor.
Música e originalidade
Com cerca de 60 momentos musicais, o filme extrai desse aspecto não apenas uma moldura, mas sim um recurso narrativo, que ajuda a contar a história daquela comunidade. Botta destaca a parceria com o músico maranhense Tião Carvalho - que atua no filme como o personagem Ribamar - , um pioneiro na introdução do bumba-meu-boi em São Paulo, que trouxe para o filme não só composições suas como de diversos outros artistas da região. Além disso, Botta inseriu músicas que ouviam lá durante as filmagens.
Um outro aspecto nítido emBetânia é retratar com riqueza de detalhes um pedaço do Brasil que não é tão conhecido, inclusive fora do País. Botta reflete: “Quem é de fora do Brasil tem algumas imagens como o sertão, a floresta amazônica e as grandes cidades, como Rio e São Paulo, que são bastante retratadas. Pouca gente entende que existe um lugar assim, feito de dunas de areia, que não é tão longe da floresta amazônica e onde se toca reggae mix e bumba-meu-boi, que mistura as culturas africana e indígena. O Maranhão tem muita originalidade, uma cultura com muita personalidade e a gente fica muito feliz de mostrar essa potência dentro do filme”.
Entra pelo meio da história a questão ambiental, quando se menciona que correntes marítimas trazem lixo à região dos Lençóis, o que encontra um enfrentamento no trabalho de Ribamar (Tião Carvalho), um pescador que coleta esse lixo e eventualmente até tira um som de objetos que encontra, como as garrafas. Botta afirma que quis entrar nessa questão de uma forma sutil: “Betânia e outros povoados são um lugar muito isolado, mas também refletem um problema que a gente vive na pele no mundo todo - a questão climática, o lixo. Através do personagem Ribamar, a gente consegue contar essa história de uma forma lúdica, sem pesar a mão na panfletagem. A denúncia ambiental eu achava que tinha que ser feita da forma mais poética possível para não afastar as pessoas com uma linguagem muito didática e panfletária”.
Humor e europeus
Uma outra costura dentro do filme é o humor, que pontua diversas situações envolvendo não só a protagonista, assim como suas filhas, genro, netos e outros moradores. “Tentei criar uma alternância entre cenas mais profundas, filosóficas, e cenas mais divertidas - tem a comédia sempre pontuando a música. Também procurei contrastar cenas diurnas e cenas noturnas, para o filme poder se sustentar nas duas horas sem pesar. É sempre um desafio prender a atenção”.
Um desses momentos de humor é quando se dá a participação de dois turistas franceses, que vão fazer um trekking nas dunas. Anouk Mulard e Tim Vidal, aliás, são realmente franceses mas vivem no Brasil e falam português e puderam contribuir para compor um retrato desses forasteiros que eventualmente têm atitudes preconceituosas ou esnobes com os moradores locais. Botta observa que “a gente não queria
cair num estereótipo fácil, nem numa caricatura. A linguagem que a gente achou foi de um humor fora do estereótipo e do ofensivo, ficando a ironia da situação”. Ele destaca que os dois franceses inclusive tiveram liberdade de sugerir mudanças nos diálogos, que ele havia escrito em português.
Quanto à expectativa da estreia do filme em Berlim, o diretor afirma: “Ali o filme vai nascer e acontecer e a gente acredita que vai bater muito forte nas pessoas. Ele traz um sentimento muito contemporâneo na questão ambiental batendo na porta de todo mundo, não dá mais para negar. Mas vamos tentar achar um sentimento na família, na comunidade, na cultura, na música, para continuar firme, forte e junto”.
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