Iraniano “My Favourite Cake” desafia a censura do Irã
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 16/02/2024
- Tempo de leitura 3 minutos
Berlim - O festival demonstrou, mais uma vez, sua vocação para dar voz a quem sofre tentativas de repressão com a exibição do concorrente iraniano ao Urso de Ouro My Favourite Cake. Os diretores, Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha, como se esperava, foram impedidos de viajar pelo governo iraniano, que confiscou seus passaportes e os submete a uma investigação judicial. Por isso, na coletiva de imprensa, hoje (16), eles foram lembrados com uma foto (imagem ao lado) e representados pelos protagonistas do filme, Lily Farhadpour e Esmail Mehrabi, que leram uma carta escrita pelos cineastas.
Na carta, eles manifestam sua profunda tristeza em não poderem acompanhar a première do filme em Berlim, comparando-a à dor de “pais que fossem impedidos de ao menos olhar para seu filho recém-nascido”. Lembraram que o filme levou três anos para ser produzido e que a liberdade “é um tesouro perdido em nosso país”, aludindo às inúmeras regras restritivas de censura a que os cineastas são submetidos, cuja desobediência leva a “anos de suspensão, proibições e processos judiciais complicados”. Tal como aconteceu, como se lembra, com cineastas premiados como Jafar Panahi e Mohamad Rasoulof, entre outros.
Na coletiva, os atores destacaram como são importantes as cenas que o filme mostra, refletindo a realidade vivida pelos iranianos e iranianas. O enredo acompanha o envolvimento entre uma viúva, Mahin, e um divorciado, Fahramaz, ambos com 70 anos, e que vivem uma noite romântica, na casa dela, bebendo vinho e dançando, ela não usando o hijab (aliás, na coletiva a atriz também não o usava). Tudo isso, segundo eles, parte da realidade iraniana e que as autoridades islâmicas tentam impedir o cinema de mostrar - e, desta vez, não conseguiram.
Nem por retratar uma realidade assim complexa - o que inclui cenas em que polícia da moralidade detém algumas jovens na rua, por não estarem usando o hijab corretamente, causando o protesto da protagonista, em vão -, o filme deixa de ter muito humor. Ele existe sobretudo nas cenas iniciais, que mostram a velha senhora recebendo suas amigas, falando de homens com liberdade, e também no próprio envolvimento de Mahin e Fahramaz. Em suma, é um filme complexo, que desafia abertamente a censura e a perseguição aos artistas vigente numa sociedade autoritária e teocrática.
Longe de “A Bela e a Fera”
Num caminho inteiramente diferente, caminhou outro concorrente ao Urso de Ouro, o norte-americano A Different Man, de Aaron Schimberg, que envereda entre o drama e a fábula ao acompanhar a virada na vida de um homem que sofre de neurofibromatose, Edward (Sebastian Stan). Com o rosto fortemente deformado e vivendo na pele, há anos, toda sorte de discriminação e sofrimento, ele tem uma oportunidade de cura ao submeter-se a um tratamento experimental.
Ao superar o problema, ele se joga em tudo que a vida lhe retirou, assumindo um novo nome e identidade. Mas sofre um revés com decepções a partir da atitude de sua antiga vizinha, Ingrid (Renate Reinsve), que escreveu uma peça de teatro sobre Edward. E aí surge para interpretar o papel o misterioso Oswald (Adam Pearson, ator que realmente sofre de neurofibromatose).
Evidentemente, o filme tem várias camadas, colocando em xeque discussões sobre beleza e sucesso, com um flerte para uma tensão de suspense/terror e até uma comédia de humor negro. Mas não dá conta de sustentar esse arcabouço que tentou construir, que até menciona A Bela e a Fera, com propósito irônico. A personagem feminina, Ingrid, é particularmente desconjuntada, superficial e insatisfatória.
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