Intensos olhares cruzados sobre o Brasil e a Ucrânia
- Por Alysson Oliveira
- 05/04/2025
- Tempo de leitura 8 minutos
Em seu primeiro final de semana, o Festival É Tudo Verdade destaca visões densas sobre o Brasil, abordando o cinema e a arquietetura, e também a vida na Ucrânia atormentada pela guerra persistente.
Filmes brasileiros
Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky
“A câmera é uma continuação de meu corpo, que deve estar sempre em movimento”, diz Jorge Bodanzky no documentário Olhar Inquieto: O cinema de Jorge Bodanzky, dirigido por ele mesmo e Liliane Maia. E o filme prova exatamente essa ideia. Narrando exclusivamente em primeira pessoa, o cineasta resgata sua trajetória atrás das câmeras, numa filmografia que transita entre documentários (Utopia Distopia, Volkswagen: Operários na Alemanha e no Brasil), ficção (Os Mucker, dirigido com Wolf Gauer), e seu longa mais famoso, que borra a fronteira entre o documental e o ficcional, Iracema - Uma Transa Amazônica, dirigido em parceria com Orlando Senna.
O filme começa com o resgate de antigas imagens feitas no Mato Grosso, nas quais o diretor documentou a construção, para uma TV alemã, da Universidade de Humboldt, em parceria com Karl Brugger. Num sobrevoo, captou imagens de indígenas tentando atingir o avião com flechas. O longo interesse do cineasta pela Amazônia e os povos originários começou aí.
Com sua voz tranquila, Bodanzky narra sua trajetória marcada por viagens e a sua busca pelo tipo de cinema que gostaria de fazer. No Chile, por exemplo, ele e Brugger estiveram filmando pouco antes do golpe contra Salvador Allende, em 1973. As imagens de audiovisual e fotografias são impressionantes, retratando um passado que, como diz o próprio diretor, “o cinema era, também, uma arma poderosa naquele momento”.
Bodanzky revê Iracema - Uma Transa Amazônica, e faz comentários adicionando suas lembranças sobre o filme, as dificuldades dessa filmagem. Não injustificavelmente, o documentário se concentra nesse longa, no qual o cineasta descobriu o tipo de cinema que lhe interessava fazer.
Filmes como Terceiro Milênio (1981) e Amazônia, A Nova Minamata? (2022) são frutos desse interesse audiovisual mas também social e político do cineasta, cuja carreira é marcada por um cinema curioso e profundamente ligado ao Brasil e seu povo.
São Paulo – CineSesc - 5/4/2025 às 20h30
São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 6/4/2025 às 17h00
Rio de Janeiro - Estação NET Botafogo - 8/4/2025 às 20h30
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - 9/4/2025 às 21h00
Quando o Brasil era Moderno
As discussões sobre modernidade e atraso no Brasil são bastante presentes na academia. Diversos pesquisadores já se debruçaram sobre o assunto, com conclusões bem interessantes. Uma das proposições, que parece ser unanimidade, é de que todo avanço, com o tempo, acaba repondo o atraso, dada a formação sociohistórica do país em sua base escravagista.
Quando o Brasil Era Moderno, de Fabiano Maciel, parte da observação e discussão da arquitetura no país para investigar nosso processo de modernização, que parece sempre se dar truncado, aos trancos e barrancos. Se, num primeiro momento, o filme aparenta estar refém de sua forma partindo de entrevistas, com o tempo justifica-se a sua didática por discutir um tema tão complexo e relevante.
Por meio de conversas com especialistas e riqueza de imagens, em especial, é óbvio, de construções relevantes, o longa se aprofunda em seu tema. Inspirado no livro Moderno e Brasileiro, do arquiteto e sociólogo Lauro Cavalcanti, o documentário se vale da arquitetura e arquitetos brasileiros para se aprofundar na história do país. As disputas estéticas e de estilos são reflexos da construção, por exemplo, de uma identidade nacional própria, afastando-se da herança colonial.
Maciel também assina a montagem com Vitor Alves Lopes e Daniel Gomes, e o roteiro com Guilherme Vasconcelos e o próprio Lauro Cavalcanti, conseguindo transformar debates profundos em um filme acessível -
e essa é uma das grandes virtudes desse documentário. As escolhas estéticas que vencem a disputa de narrativas arquitetônicas são o reflexo das disputas de poder, chegando até a discussões de tipos de educação que deveriam ser aplicados no Brasil: um embate entre uma linha conservadora e cristã e outra mais libertária e crítica.
Ou seja, estão em cena conflitos ideológicos que perduram até hoje, talvez de maneira ainda mais incisiva. Dessa forma, Quando o Brasil Era Moderno olha o passado nacional para entender como chegamos até aqui, e, nesse sentido, joga uma luz incisiva no nosso presente.
Rio de Janeiro - Estação NET Botafogo - 5/4/2025 às 20h30
Rio de Janeiro - Estação NET Rio- 6/4/2025 às 21h00
São Paulo – CineSesc - 7/4/2025 às 20h30
Filme estrangeiro
A Invasão
O novo documentário do ucraniano Sergei Loznitsa poderia se chamar Um Casamento E Diversos Funerais, mas não há, certamente, espaço para esse tipo de jogo de palavras em seu belo e melancólico longa A Invasão, que investiga a vida social de pessoas comuns na Ucrânia há alguns anos invadida por soldados russos.
De forma respeitosa e muito sincera, com uma câmera observacional, o cineasta olha o cotidiano das pessoas para quem a vida não pode estagnar apesar da ameaça e destruição constantes. As imagens são impressionantes, e destacam a solidariedade diante do apocalipse que se tornou a Ucrânia desde 2020. É um cinéma vérité no qual as imagens, literalmente, falam por si mesmas. Não há narração, não há letreiros no meio do filme, apenas a montagem inteligente, assinada pelo próprio Loznitisa e Danielius Kokanauskis.
O filme abre solenemente com um funeral, e alguns outros virão ao longo dos seus 140 minutos, que são tão bem organizados numa narrativa tão bem conduzida que não se sente o peso do tempo. Ao mesmo tempo, não se dá espaço a figuras institucionais, como o presidente Volodymyr Zelensky, que é apenas mencionado, mas nunca mostrado, pois não é esse tipo de discussão que interessa ao diretor.
Longe dos extremismos de 20 Dias em Mariupol, por exemplo, Loznitsa não aparece em cena, e se coloca no filme por meio de suas escolhas. Todas as cenas são admiráveis. Na porta de uma livraria, por exemplo, pessoas deixam pilhas e mais pilhas de livros amarradas por barbante. Alguma espécie de doação para aqueles que perderam suas bibliotecas? Não é bem isso. Como se percebe, são livros em russo que serão destinados à reciclagem. Todo o trajeto desses livros será mostrado sem pressa.
Nessa mesma livraria, as pessoas são obrigadas a sair e procurar abrigos, quando soam as sirenes de ataques. Esse mesmo aviso pega de surpresa crianças pequenas que estão na escola, e são obrigadas a abandonar suas salas de aula e refugiar-se num abrigo subterrâneo.
Mas nem tudo é destruição. No meio do filme há um delicado casamento de um par de jovens, que acontece em um pequeno salão com poucos convidados, a noiva de branco num vestido sem muitos adornos mas bastante bonito, e o noivo em uma roupa camuflada. Depois, sem direito à festa ou grandes comemorações, eles dançam numa praça.
As cenas na maternidade, de outro jovem casal que acaba de ter um bebê, são ainda mais comoventes. Que país essas crianças irão encontrar conforme crescem? Um pai, também em roupa camuflada, conhece seu filho que nasceu há pouco. Em outro lugar, uma mulher e um homem, ambos militares, ela vestida como um gato cor-de-rosa e ele, de Papai Noel, estão numa aldeia entregando pequenos presentes de Natal e medicamentos às crianças, que são avisadas que não ganharão nada se não sorrirem. Elas sorriem. Em todos os rostos, adultos ou crianças, um olhar de tristeza e trauma, enquanto os soldados e soldadas trazem no semblante um cansaço gigantesco. Já os funerais, em especial um mais longo, perto do final, são dolorosos de se ver.
Como em Maïdan: Protestos na Ucrânia, de 2014, Loznitsa constrói em A Invasão um vasto painel observacional e muito revelador sobre o estado de seu país no momento. A quantidade de material que ele deve ter captado, ao longo desses cinco anos, provavelmente, é enorme, e as escolhas não devem ter sido fáceis. Mas condução do filme tem algo de majestoso em destacar a resiliência e a solidariedade (também tocante) do povo ucraniano entre si. Vítimas de uma guerra que não é delas.
São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 0/04/2025 às 21h30
São Paulo - IMS Paulista - 12/4/2025 às 20h30
