Dentro e fora da competição, documentários brilham em Veneza
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 30/08/2025
- Tempo de leitura 7 minutos
Veneza - Vencedor de um Leão de Ouro em 2013 com o documentário Sacro Gra, na primeira vez em que um filme do gênero entrou na disputa, Gianfranco Rosi volta à competição com outro documentário, Sotto le Nuvole (fotos ao lado e abaixo), em que surpreende positivamente em mais de um sentido.
Alguns poderiam esperar um filme menor ao saber da fotografia em P&B e do foco único na região de Nápoles. Mas é justamente desse rigor ético e estético que o experiente cineasta extrai uma intensidade que se equilibra a partir de uma gama de personagens admiráveis e de cenários nada turísticos.
Se a cena inicial se ambienta justamente nas nuvens em torno do vulcão Vesúvio, justificando o título do filme, isso também se desdobra como o contexto de diversas chamadas à central de atendimento dos bombeiros locais, pedindo informações ou socorro devido aos constantes tremores de terra. Apesar da gravidade de várias chamadas, essa central proporciona também
alguns momentos de humor, a partir do telefonema diário de um senhor apenas para pedir as horas e da tentativa de trote de uma criança - admoestada paternalmente pelo atendente.
O filme revela também o trabalho de alguns bombeiros para identificar as inúmeras rotas secretas dos ladrões de tumbas, que há décadas devastam o admirável patrimônio histórico da região - parte do qual pode ser vista no imenso Museu Arqueológico de Nápoles, em que uma veterana funcionária, Maria Morisco, revela os subterrâneos repletos de estátuas e objetos não expostos.
Um velho professor, Titti, abre sua casa para acolher crianças e adolescentes fora do período de aulas, ajudando-as nos deveres enquanto seus pais estão no trabalho - suprindo uma carência de espaços onde eles poderiam estar, fora das ruas e outros perigos.
No porto, um navio sírio vai e vem da Ucrânia, trazendo cereais, colocando em risco a vida destes marinheiros que estão habituados a uma outra guerra interminável em seu próprio país.
Tudo isso e muito mais se organiza num filme que conduz seus espectadores numa espécie de viagem por essa região italiana, desdobrando um panorama humano da contemporaneidade, talvez ainda mais revelador do que Sacro Gra. Por essa complexidade, o filme demonstra que não está na competição apenas para cumprir tabela, ostentando dignas qualidades até para premiação.
Elefantes de Herzog
Um dos homenageados com um Leão de Ouro por sua notável carreira, o cineasta alemão Werner Herzog apresentou aqui o documentário Ghost Elephants (foto ao lado), fora de competição.
Exercitando mais uma vez seu refinado faro para assuntos palpitantes e atuais, Herzog acompanha o trabalho de cientistas e rastreadores, numa expedição na África, liderada pelo biólogo Steve Boyes, com um ambicioso objetivo; procurar obter material genético de elefantes de grande porte, numa remota região de Angola, procurando estabelecer seu parentesco com o maior elefante já conhecido, cujo exemplar mumificado está em exibição no museu Smithsonian, em Washington.
O filme entra no clima da expedição, capturando as personalidades destes homens extraordinários, uns pesquisadores de vários países, outros rastreadores da Namíbia - aqueles mesmos vistos no filme Os Deuses Devem Estar Loucos, de Jamie Uys (1980) -, mostrando essa incrível interação entre saberes de várias origens e a paixão que move todos eles. Algo que Herzog sabe sintonizar como poucos cineastas, seja na ficção, seja nos admiráveis documentários de sua obra mais recente.
O diretor também mostra os laboratórios de instituições de pesquisa, como o próprio Smithsonian, onde especialistas em genética e outras áreas esperam ansiosamente por esse material que a expedição deve colher in loco, com todos os cuidados possíveis - uma ação movida por um criterioso cuidado em perturbar o mínimo possível os animais na vida selvagem, num movimento muito distante de um passado não muito distante, quando a caça indiscriminada dizimou inúmeras espécies, inclusive os elefantes. O próprio elefante visto no Smithsonian foi caçado em 1955. Ghost Elephants capta esta procura de uma evolução humana mais sintonizada com a preservação, num momento em que o planeta contempla a própria possibilidade de destruição.
Acobertamentos em série
Vencedora de um Oscar em 2015 pelo documentário Citizenfour e do Leão de Ouro em 2022 pelo filme All the Beauty and the Bloodshed, a diretora norte-americana Laura Poitras entrou na programação, fora de competição, com outro documentário vibrante, Cover Up (foto ao lado).
Perfilando a figura do célebre jornalista investigativo norte-americano Seymour Hersh, a cineasta explora os bastidores de inúmeros escândalos políticos nos EUA, da Guerra do Vietnã à de Gaza, passando por Watergate, a partir do trabalho incansável deste repórter, hoje com 88 anos. Vencedor de um prêmio Pulitzer em 1970 por sua implacável denúncia dos massacres de civis por tropas americanas no Vietnã, Sy Hersh, como é chamado, é o fio condutor deste processo em que o filme expõe a maneira sistemática como governos dos EUA procuraram encobrir os crimes cometidos pela CIA e o Departamento de Estado - e que jornalistas como Sy têm ajudado a desmascarar.
Laura não deixa de incluir no filme alguns conflitos com Sy, um personagem de personalidade aguerrida que, num determinado momento, insatisfeito com o rumo de alguma coisa, decide deixar de participar do filme - o que depois é contornado. A própria vida profissional de Sy, no entanto, é um verdadeiro manual de como os EUA praticaram seu imperialismo sobre nações como o Vietnã, o Iraque e outras - hoje, com seu apoio e também omissão, permitindo o massacre de civis em Gaza por seu aliado, Israel.
Broken English
Dirigido por Iain Forsyth & Jane Pollard, Broken English (foto ao lado) é um documentário bastante não convencional para retratar uma personagem não menos capaz de caber nesta definição - a cantora e compositora britânica Marianne Faithfull (1946-2025).
Tomando emprestado o título de uma canção da própria Marianne, de um álbum de 1979, o filme permite-se várias liberdades de linguagem ao incorporar diversos materiais de arquivo, mostrados à própria Marianne, idosa e com sua saúde comprometida pelos efeitos da Covid, mas ainda sacudida e bem-humorada como sempre.
Ela é, assim, colocada diante de vários momentos de sua longa e aventurosa vida, quando despontou, ainda muito jovem, aos 19 anos, para o mundo da música pop, envolvendo-se com os Rolling Stones e tornando-se companheira de Mick Jagger - o que se transformou num rótulo a que a mídia tentou enquadrá-la, negando-se a reconhecer o talento, a criatividade e a ousadia desta mulher intensa, que se lançou a ser compositora numa época em que isso não era reconhecido às mulheres, sendo invisibilizada por muito tempo. Mas, dotada de uma admirável inteligência e energia, além de um pouco de sorte, Marianne soube sobreviver a tudo, inclusive a episódios de dependência de drogas e tentativas de suicídio, sempre se reinventando.
Recorrendo também a um dispositivo meio futurista, do qual participa a atriz Tilda Swinton - que, na verdade, não tem muita função -, o filme dá voz a esta personagem extraordinária, que revê suas entrevistas, o preconceito de vários de seus entrevistadores e analisa como o tratamento da mídia procurou reduzi-la a uma mulher promíscua, viciada e ex-de Jagger, nada mais. Uma mesa de intelectuais feministas integra uma das partes do filme, dando suporte a uma revisão da imagem desta mulher incrível, que morreu em janeiro deste ano. Mas o filme nos permite deleitar-nos um bocado com suas tiradas espirituosas e suas músicas.
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