04/06/2026

Filme de Sorrentino abre o festival com história de amor e política

Veneza - La Grazia, de Paolo Sorrentino, abriu o festival e a competição com uma história em que o experiente diretor italiano mostra querer voltar às origens.

Este novo filme se parece bem mais com o premiado e ambicioso A Grande Beleza (2013) do que com outras produções mais recentes e menos bem-sucedidas - caso de Parthenope, que participou de Cannes no ano passado, um filme belo mas bastante vazio.

É um Sorrentino mais reflexivo que retorna neste novo filme, com um roteiro assinado por ele mesmo, em que retoma a parceria com seu ator-fetiche, Toni Servillo - e que está muito à vontade na pele de um presidente da República, Mariano de Santis, em seus últimos seis meses de governo. Um personagem político, mas bem diferente do que o mesmo ator viveu em Il Divo (2008), em que interpretava o corrupto ex-primeiro ministro Giulio Andreotti.

Aqui, o protagonista encarna uma problemática sensível ao próprio diretor, a da maturidade, com um olhar para o passado, debruçando-se sobre as perdas e os arrependimentos sem encontrar consolo, já que que não compreende nem aceita inteiramente tudo que se passou.

Amor perdido

A história de amor, que foi até agora a única descrição do filme, é a paixão de Mariano por Aurora, sua mulher que morreu há oito anos. É portanto um amor in absentia, em que Mariano se relaciona com uma lembrança e também com uma obsessão - a traição de Aurora com alguém que ele não sabe quem é mas procura sempre descobrir.

Não deixa de ser curiosa, ou talvez reflexo de uma natureza masculina tradicional - afinal, Mariano é um homem idoso - essa paixão por uma mulher ausente, idealizada talvez, mas mesmo assim, remetendo a uma lembrança contaminada de raiva. Culpa também, quem sabe.

Servillo entrega uma interpretação compassada e segura, como um presidente que contempla a própria aposentadoria - foi juiz e jurista antes - e parece amado por seu povo, mas está cansado de todos os rituais e burocracias do poder. Ao mesmo tempo, é confrontado não só pelas próprias culpas e obsessões como pela própria filha, Dorotea (Anna Ferzetii), sua assessora e uma espécie de consciência viva e sempre questionadora.

Duas decisões assombram seu final de mandato - decidir a quem conceder uma anistia, entre dois criminosos, e se assina ou não uma lei de eutanásia que há muito parte da sociedade e a filha lhe cobram - ao passo que o papa (Rufin Doh Zeyenouin), seu amigo, pressiona evidentemente num sentido contrário.

Toda essa problemática é filmada com muitas nuances e riqueza de detalhes, que permitem penetrar na psicologia algo saudosista de Mariano - que tem como maiores amigos ainda dois ex-colegas de escola, Ugo Romani (Massimo Venturiello), ministro da Justiça, e Coco Valori (Milvia Marigliano), uma crítica de arte de língua ferina.

A relação de Mariano com os filhos - há um outro, músico, Riccardo (Francesco Martino), que vive no Canadá -, com o assistente direto, seu fiel escudeiro, e os demais membros do governo enfatiza sua grande solidão, que é a solidão do poder mas também de um homem com dificuldade de tomar decisões - e que denota também uma certa falta de coragem para encarar a vida e seus próprios dilemas, como a traição dessa mulher, que ocorreu há 40 anos.

Enfim, La Grazia é um filme com muitas camadas, mas que faz justiça ao talento de seu protagonista e do diretor e não é, felizmente, desprovido de humor - a começar pelo peculiar gosto musical do presidente. Veremos se a boa impressão sobreviverá à exibição dos demais competidores ao Leão de Ouro.

Apresentação dos júris

Na coletiva de apresentação dos júris do festival nesta tarde de quarta (27), foi inevitável que ressurgisse a questão do protesto pelo drama de Gaza, marcada para sábado (30). O presidente do júri principal, do qual faz parte a atriz brasileira Fernanda Torres, o cineasta norte-americano Alexander Payne, esquivou-se, dizendo que se sentia “despreparado para dar uma resposta mais ampla”. Já o diretor do festival, Alberto Barbera, reiterou que não poderia restar “nenhuma dúvida sobre a posição da Bienal diante do enorme sofrimento com a morte de civis, especialmente crianças, em Gaza”. Entretanto, afirmou que “não exerceremos nenhuma censura”, referindo-se a impor restrições à vinda de artistas. Na véspera, como se recorda, o movimento Venice 4 Palestine havia se manifestado no sentido de desconvidar atores como Gerard Butler e Gal Gadot por seu apoio a Israel, o que o festival não fará.