A potência de Bellocchio e Lucrecia Martel e a delicadeza de Jim Jarmusch
- 01/09/2025
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Veneza - Correndo por fora da competição com a exibição dos dois primeiros episódios da série Portobello (foto ao lado), o veterano Marco Bellocchio, 85 anos, mostra mais uma vez estar em plena forma.
Resgatando um caso de lawfare dos anos 1980, Bellocchio desenvolve a história de Enzo Tortora (Fabrizio Gifuni, como sempre, excelente), o mais famoso apresentador de televisão dos anos 1970 e 1980, à frente do popular programa Portobello - em que o mascote era, aliás, um papagaio de verdade.
Tendo atingido 28 milhões de espectadores com o programa, em 1983, Tortora esperava renovar seu contrato com a RAI, emissora estatal italiana, com um generoso aumento salarial. Ele era uma celebridade tão grande que havia há pouco recebido o título de comendador por parte do presidente da república, Sandro Pertini.
No entanto, em junho de 1983, Tortora viu-se no centro de uma verdadeira conspiração, preso sob a acusação de pertencer à Camorra e participar do tráfico de drogas dentro da organização mafiosa napolitana - que, naquela época, era objeto de uma imensa investigação, que atingiu mais de 800 pessoas e mobilizou procuradores e juízes vaidosos, eventualmente inescrupulosos, como visto no Brasil na operação Lava-Jato.
Por razões inusitadas e muito pessoais, um ex-camorrista, Giovanni Pandico (Lino Musella), acusou Tortora na investigação, desencadeando o pesadelo judicial que acabou com sua carreira e muito possivelmente prejudicou sua saúde e encurtou sua vida - ele morreu em 1988, antes de completar 60 anos.
Bellocchio se aprofunda no retrato deste homem, que não desfrutava da proteção de partidos políticos - era eleitor do pequeno Partido Liberal e não dos maiores, a Democracia Cristã e o Partido Comunista -, nem de intelectuais, nem da Igreja Católica, ou seja, cuja independência mesmo o tornava vulnerável, além de ser alvo de uma grande inveja. Os dois primeiros capítulos deram uma pequena amostra do que vem por aí na série, cuja estreia na Itália, na emissora HBO Max, está marcada para março de 2026.
Documentário argentino
A diretora argentina Lucrecia Martel compõe um documentário impactante em Nuestra Tierra (foto ao lado), em que acompanha o julgamento de três homens, dois deles ex-policiais, acusados de assassinar um indígena e ferir outros três, na comunidade Chuschagasta, na província nortista de Tucumán, num incidente de disputa pela terra, que se arrastava há nove anos.
Lucrecia entra no assunto de maneira quase cirúrgica, acompanhando com sua câmera os dois lados chegando ao tribunal, desdobrando, aos poucos, os detalhes do enfrentamento. Nesse estudo do caso, a cineasta analisa a história da expropriação das terras dos Chuschagasta ao longo dos séculos, num episódio que nós, brasileiros, temos condições de entender muito bem, pela semelhança de casos envolvendo territórios indígenas.
O filme de Lucrecia é uma denúncia e uma oportunidade de dar voz a esses excluídos históricos, vítimas de violência, racismo e de uma aliança sinistra entre vários integrantes do aparato de governo - o acusado do assassinato é funcionário do Departamento de Patrimônio e há outra comissária envolvida. Tudo isso para privar os indígenas de sua terra. Mas eles resistem.
Três momentos da competição
Desde o princípio, Father Mother Sister Brother (foto ao lado),
o novo filme do norte-americano Jim Jarmusch, parece uma produção que pode agradar ao presidente do júri deste ano, seu compatriota cineasta, Alexander Payne.
Jarmusch exerce seu estilo sutil para desenvolver três histórias de família bastante inusuais - pelo menos, as figuras que as protagonizam não cabem no figurino tradicional. Na primeira, é um pai (Tom Waits), que nunca na vida foi muito confiável e recebe a visita dos dois filhos (Adam Driver e Mayim Bialik). Na segunda, é uma mãe distante e fria (Charlotte Rampling), também recebendo a visita anual (!) das duas filhas (Cate Blanchett e Vicky Krieps). Na terceira, um par de irmãos gêmeos (Luka Sabbat e Indya Moore) se reencontram para decidir o que fazer com as coisas e as lembranças dos pais que acabam de morrer.
Father Mother Sister Brother é repleto de pequenos detalhes e muito do que ele quer dizer se define a partir do que não se diz, ou não se faz. Aí está a sua complexidade e a sua dificuldade. É o tipo de filme que, se você piscar, pode perder alguma coisa importante - mas na vida também é assim.
Numa outra chave, os dois outros concorrentes ao Leão foram um tanto decepcionantes. The Testament of Ann Lee, dirigido pela norueguesa Mona Fastvold - mulher de Brady Corbett (O Brutalista), seu corroteirista aqui -, resgata a história de uma mística inglesa do século XVIII, interpretada por Amanda Seyfried, sob forma de um musical. Tudo se pode permitir, em termos criativos, mas o fato é que o filme não funciona. Os números musicais e de dança são muito repetitivos e o enredo se perde sem dar o devido contexto à história de Ann Lee, muito menos conseguir destacar o suficiente como uma mulher conseguiu, em sua época, ter esse lugar de proeminência.
The Smashing Machine, de Ben Safdie, por sua vez, conta a história real de um lutador de MMA, Mark Kerr (Dwayne Johnson), sua ascensão e queda e a relação turbulenta com a mulher, Dawn Staples (Emily Blunt). Como seria de se esperar, há muitas sequências de lutas, bastante ferozes e capazes de atrair os fãs desse tipo de, digamos, esporte. Mas o filme não tem maior brilho. E fica difícil entender porque uma atriz como Emily Blunt quis fazer um papelzinho tão medíocre.
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