04/06/2026

Grito de socorro em Gaza comove Veneza, na voz de uma criança

Veneza - Já entrando na reta final da competição, The Voice of Hind Rajab (fotos ao lado e abaixo), da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania, calou fundo nas salas de projeção, desde esta manhã de quarta (3). Embora se trate de uma ficção, ouvem-se no filme os áudios da conversa aflitiva real de uma garotinha de apenas 6 anos, escondida num automóvel, cercada pelos cadáveres de seus tios e primos, falando com os atendentes do centro de socorro do Crescente Vermelho, depois de um ataque do exército israelense em Gaza.

Minimalista, o novo filme da diretora conhecida por O Homem que Vendeu Sua Pele (2020) e As 4 Filhas de Olfa (2024) reproduz, com intensidade claustrofóbica, sem sair do centro de socorro, o drama da menina e o esforço de seus interlocutores para negociar uma rota segura para a ambulância que pode resgatá-la. Como se sabe, os socorristas palestinos também têm sido alvos de ataques das tropas israelenses.

Acompanhando as tentativas desesperadas dos atendentes - Omar (Motaz Malhees), Rana (Saja Kilani), a psicóloga Nisreen (Clara Khoury) e o coordenador Mahdi (Amer Klehel) - para manter a conversa com a garotinha e, ao mesmo tempo, negociar a rota segura para a ambulância, o filme se mostra o mais eloquente manifesto para que alguma solução seja encontrada o quanto antes para este que é provavelmente o maior drama dos dias atuais, a crise humanitária em Gaza. E não faltou quem chorasse na sessão de imprensa, nem quem deixasse de observar o quanto seria apropriado um Leão de Ouro para esse filme.

A musa e o vate
Duse (foto abaixo), do diretor italiano Pietro Marcello, é uma cinebiografia bastante criativa da musa teatral Eleonora Duse, interpretada pela atriz Valeria Bruni Tedeschi - saindo, felizmente, da série de papeizinhos de neurótica que têm deixado de mostrar o quanto sua atuação pode ser mais qualificada.

La Duse (1858-1924), uma diva do teatro do começo do século XX, é retratada com várias camadas e nuances, no final de sua vida. Afastada dos palcos há 10 anos, ela vê uma chance de voltar, num momento em que o fascismo estava escalando na Itália.

Tem um papel importante nessa história o ex-amante de Duse, o escritor Gabriele D’Annunzio (Fausto Russo Alesi), cujo nacionalismo exacerbado serviu de inspiração para Benito Mussolini (Vincenzo Pirrota).

O filme de Pietro Marcello (diretor de Martin Eden), roteirizado por ele, Letizia Russo e Guido Silei, é primoroso na reconstituição de época, no uso de imagens de arquivo e também na definição desse contexto histórico, em que a atriz e o escritor desempenharam um papel importante. Por sua fama, Duse foi cortejada pelo governo Mussolini, que pagou suas dívidas e lhe concedeu uma pensão vitalícia no final da vida, quando sua saúde já estava bem prejudicada.

Dois outros papéis femininos são importantes: o primeiro, o de Enrichetta Checchi, filha de Duse, com quem a atriz manteve sempre uma relação problemática, vivida pela atriz francesa Noémie Merlant, falando um bom italiano; e Desirée, a inseparável assistente de Duse, interpretada pela jovem atriz húngara Fanni Wrochna.

Enfim, dois filmes para dar trabalho ao júri, dirigido pelo cineasta Alexander Payne e integrado por nossa Fernanda Torres.