Berlim abre 76ª edição com drama feminista afegão “No Good Men”
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 12/02/2026
- Tempo de leitura 4 minutos
Berlim - Diretora de filmes premiados como O Orfanato (2019) e Lobo e Ovelha (2016), a afegã Shahrbanoo Sadat (foto) exibe nesta noite de quinta (12) seu terceiro longa,
No Good Men, como atração de abertura do Festival de Berlim, no Berlinale Palast.
O filme é a terceira parte de uma pentalogia baseada nos diários não publicados de Anwar Hashimi, que protagoniza a obra ao lado da diretora, também atriz.
Na história, que a diretora definiu na coletiva de imprensa de hoje, como uma “comédia política romântica”, Naru (Sadat), única operadora de câmera mulher da TV Kabul, vive uma série de dilemas pessoais e profissionais. Separada do marido, está convencida de que não restaram bons homens no Afeganistão. Mas quando o repórter Quodrat (Hashimi) começa a trabalhar em parceria com ela, pouco antes da volta do Talibã ao poder, em 2021, ela sente sua crença abalada, desencadeando uma série de consequências.
Filmado na Alemanha, onde a diretora está exilada desde 2021, a obra é uma coprodução entre Alemanha, França, Noruega, Dinamarca e Afeganistão.
Na coletiva, a diretora, super-articulada e fluente em inglês, declarou que sua intenção era fazer um filme “sobre uma mulher que eu reconhecesse e entendesse”. Ela mesma, como a protagonista, trabalhou na TV afegã - “num programa de culinária que eu odiava” - e foi na emissora de TV também que ela conheceu Hashimi, seu parceiro, que ela define como “o meu primeiro bom homem”.
Se há um toque romântico na história, não é menos verdade que a política impregna tudo, como diz a diretora, “até porque não se pode ignorar o que está acontecendo ali”. Ela esteve em Cabul em 2021, meses antes da queda do governo e da volta do Talibã, tendo acesso irrestrito a bastidores tanto do jornalismo como da política então - o que serviu para a escrita do roteiro. Mesmo assim, ela ressalta que “o processo artístico foi desafiador, porque tive também que lidar com as expectativas sobre tudo aquilo de que eu queria falar”.
Longe de enfatizar qualquer vitimização, Sadat destacou também que todas as dificuldades que sua personagem enfrenta, resultantes do patriarcado, "se por um lado colocam obstáculos sem conta na vida das mulheres afegãs também as fortalecem”. A diretora afirma que as diversas personagens que coloca no filme “realmente existem”.
Júri
Coletivas de júri costumam ser protocolares, com todos os integrantes agradecendo por estarem onde estão e dizendo esperar filmes incríveis para discutir. Mas a coletiva do júri em Berlim este ano foi bem mais interessante, até porque protagonizada por Wim Wenders, o presidente do júri da 76ª edição.
Prata da casa como é, Wenders brilhou mas não por conta de nenhuma “chapa-branquice”. Aos 80 anos, o diretor de Paris, Texas, Asas do Desejo, Pina e tantas outras obras fundamentais para todo cinéfilo que se preze marcou a coletiva com declarações inteligentes até para as habituais perguntas protocolares.Falando sobre filmes serem políticos, ele discorreu sobre o lugar peculiar que o cinema ocupa neste espectro: “Filmes podem ser políticos mas eles não são a política. Você pode assistir a um noticiário e não saber nada, porque eles não são empáticos, assim como a política não é. O cinema é. Nele você vê a pessoa na situação dela e pode compreendê-la”.
Outra presença marcante na coletiva foi a produtora polonesa Ewa Ewa Puszczynska, produtora de filmes como Zona de Interesse e Quo Vadis, Aida. Respondendo a uma pergunta cobrando posicionamento sobre situações como a de Gaza, ela considerou que “não é justa” essa cobrança isolada, já que, para ela, “há outros genocídios no mundo sobre os quais ninguém fala”.
Finalizando, Wenders disse que não pretende fazer um documentário sobre o Festival de Berlim, como um jornalista lhe perguntou: “Vocês já estão fazendo isso”. E finalmente fez uma declaração amorosa pelo festival de sua terra, dizendo que “em nenhum outro se vê tanta diversidade”. O que é a mais pura verdade. Basta observar a composição do júri e os países representados em todas as seções. É esse o lugar que Berlim ocupa entre os maiores festivais do mundo, deixando a maior dose de glamour para outros.
Foto 1 - Shahrbanoo Sadat, diretora de "No Good Men" | Reprodução
Foto 2 - Integrantes do júri: Shivendra Singh Dungarpur, Ewa Puszczynska, Bae Doona, Wim Wenders, Min Bahadur Bham, HIKARI e Marcus Green | Reprodução
Foto 3 - Wim Wenders, presidente do júri | Reprodução
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