25/09/2026

Último fim-de-semana do ETV destaca produções cearenses e a premiação do festival

Neste último final de semana do festival, dois filmes do Ceará, O Cio da Terra e Caldeirão daSanta Cruz do Deserto, são atrações em destaque. No sábado (18), serão divulgados os vencedores da 31ª edição. Confira abaixo:

O Cio da Terra

O documentário se coloca num lugar particular entre a tradição e o questionamento. A Festa do Pau da Bandeira, tradição anual centenária no município de Barbalha (CE), região do Cariri, está ao centro da obra, mas, mais do que documentar sua preparação e realização, o filme de Rivelino Mourão, estreante na direção de longas, a repensa com possibilidades de torná-la menos machista e mais inclusiva.

No ritual, fieis carregam um tronco de árvore de 20m por um longo percurso, que termina com o hasteamento da bandeira de Santo Antônio, o casamenteiro e protetor dos pobres. De festa popular a atração turística, a festa se reinventa, transita entre o sacro e o profano, entre o legado e a modernidade, atraindo milhares de pessoas a fim de exercer a sua fé, procurar um marido (pois geralmente são mulheres cis e heterossexuais) e se divertir.

Mourão, a princípio, resgata a história do evento, mas permite uma reviravolta ao perguntar até que ponto a tradição deve manter-se fechada às transformações sociais e culturais. A presença de Tica, Mestra Melyssa Giselly e Luís Santana busca compreender se é possível uma reconfiguração. São três figuras carismáticas que, em seus depoimentos, falam sobre a violência real e simbólica que sofrem por não se enquadrar nos padrões do patriarcado numa região marcada pelo conservadorismo.

Como bem lembra a professora e cordelista Fanka Santos, a festa originalmente, e isso se perpetua, tem a ver com a necessidade de uma mulher se casar com um homem, e o medo de ficar solteira para sempre. “Uma festa
heterossexual, que educa, e isso também traz violência, pois na hora que você não quer participar desse processo, você é excluído pois é gay, lésbica. E isso já cria mais violências.”

Esteticamente, O Cio da Terra é impressionante. A fotografia de Petrus Cariry evidencia as paisagens naturais, compondo, também, belos quadros humanos dos entrevistados e entrevistadas. Há imagens que se aproximam de pinturas tamanha sua beleza e complexidade visual. Nada disso, no entanto, aparece de forma gratuita ou artificial. A beleza do filme concretiza uma espécie de dialética que organiza a própria narrativa documental construída na montagem, assinada por Magno Guimarães, Mourão e Petrus.

Rosemberg Cariry, figura pioneira do cinema cearense, é responsável pelo roteiro, ao lado de sua filha Bárbara Cariry. Ele também é um dos entrevistados aqui, mas sua presença é mais sentida pela relação que O Cio da Terra estabelece com seu documentário O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto (leia mais sobre o filme abaixo), que também lida com história e tradição. Juntos, os dois compõem um painel que atravessa o tempo e investiga as mudanças socioculturais – mostrando aquilo que fica e aquilo que é esquecido.

São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo- 17/04/2026 às 18:00

Rio de Janeiro- Estação NET Rio - Sala 3 - 18/04/2026 às 18:30

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 5 - 18/04/2026 às 17:30

São Paulo - IMS Paulista - 19/04/2026 às 14:00

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 19/04/2026 às 20:30

Caldeirão da Santa Cruz do Deserto

Quatro décadas depois de seu lançamento original, O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, de Rosemberg Cariry, chega ao É Tudo Verdade em cópia restaurada em 4K, que, além de sublinhar sua força cinematográfica, destaca uma relevância que permanece intacta. Resgatar a história do movimento messiânico, que ocorreu no Crato (CE), entre as décadas de 1920 e 1930, é colocar o Brasil sob uma lupa e ver como o passado reflete o presente.

Com vasta pesquisa de imagens e da história, além de uma bela trilha sonora de Cleivan Paiva, o longa historiciza o movimento e sua importância para o recolocar na trajetória do país. Menos conhecido do que Canudos, com o qual é comumente comparado, Caldeirão de Santa Cruz do Deserto foi liderado pelo beato José Lourenço, marcado por uma sociedade igualitária, sob a proteção de Padre Cícero. Mas, após sua morte, em 1934, no entanto, foi acusada de comunismo, invadida e destruída por militares sob as ordens de Getúlio Vargas.

Cariry, experiente também como poeta, constrói uma narrativa que transita entre a informação e a poesia, entre o fato e as possibilidades de um país melhor. Assinando o roteiro com Firmino Holanda, o diretor realiza um documentário de profunda conexão com sua terra, o que o coloca numa posição universal ao retratar a luta do povo contra sua opressão.

Jogar essa luz sobre o passado é observar os avanços e contenções do Brasil. As misérias e riquezas culturais estão todas aqui. Com notório carinho por Padre Cícero e a “irmandade popular que ousou construir uma sociedade mais justa”, O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto é uma experiência cinematográfica ímpar, que tem muito a ganhar com a beleza da cópia remasterizada, que evidencia sua potência.

São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 17/04/2026 às 16:00

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 18/04/2026 às 16:00

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 5 - 18/04/2026 às 15:00