21/09/2026

Programação destaca luta pela memória e manipulação da verdade

Atlas do Desaparecimento

A herança trágica da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) perdura ainda hoje pelo peso que os milhares de desaparecimentos, causados pela Falange franquista, provocam ainda hoje nas famílias das vítimas. Ainda mais porque os desaparecidos foram duplamente apagados. Em meados da década de 1950, a ditadura franquista decidiu exumar milhares de despojos, muitos não identificados, jogados em valas clandestinas, levando-os para o Vale dos Caídos - um monumento construído por Franco para abrigar todos os mortos da Guerra Civil, tantos os republicanos, quanto os falangistas, numa forçada equivalência para sufocar as diferenças notórias. Ali mesmo Franco foi sepultado, assim como o líder falangista Primo de Rivera.

Esse translado, feito sem anuência das famílias das vítimas - afinal, a maioria delas não havia sido identificada - foi sempre um grande trauma na história da Espanha que, em anos recentes, no governo Pedro Sánchez, decidiu atender à reivindicação das famílias, promovendo as exumações dos mortos e devolver os restos mortais às suas famílias.

O documentário Atlas do Desaparecimento, de Manuel Correa, detalha o tamanho hercúleo dessa tarefa. Até porque os traslados foram feitos sem qualquer cuidado. Os ossos retirados das valas foram jogados em caixas, as quais foram identificadas pelos locais de onde provinham e números no Vale dos Caídos. Além do mais, neste local, há contínua infiltração de umidade, o que compromete a conservação das caixas ali depositadas - e que ali deveriam permanecer para sempre, segundo as intenções de seus construtores.

A tarefa de reparação desta memória prossegue, no entanto, com notável dedicação de diversos profissionais - arquitetos, geólogos, técnicos forenses, historiadores e outros -, suprindo com dedicação e tecnologia a dificuldade de acesso ao Vale dos Caídos - ao qual o cineasta não teve acesso, por falta de permissão dos beneditinos, responsáveis pela administração do malfadado mausoléu. (Neusa Barbosa)

São Paulo - IMS Paulista -16/04/2026 às 16:00

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 2 - 16/04/2026 às 14:00

Dezembro

O documentário argentino tem como tema a crise econômica que o país enfrentou em 2001, sob o governo de Fernando de la Rúa e do ministro da economia Domingo Cavallo. O caos social foi tão grande que os dois acabaram renunciando. O filme, dirigido por Lucas Gallo, traz um rico material montado a partir de registros da época.

Tudo começa com a limitação dos saques nos bancos, em dezembro de 2001, um episódio que ficou conhecido como corralito. Como consequência do congelamento do dinheiro, surgiram manifestações em todo o país, além de saques em lojas em mercados. A partir disso, veio a renúncia do presidente e seu ministro, e sucederam-se, então, no poder, vários presidentes em poucos dias.

Porém, mais do que olhar o passado e levar o povo argentino a relembrar dos horrores de mais de duas décadas, Gallo faz um alerta sobre o presente com o governo de Javier Milei. Não é preciso fazer essa ponte explicitamente, a situação econômica da Argentina atualmente fala por si só.

De maneira sutil, mas eficiente, Dezembro retrata as consequências das políticas neoliberais no país dos anos de 1990, que culminaram no pandemônio de duas décadas depois. Como o filme mostra, a classe política se aproveitou da situação em benefício próprio, porém, não esperavam que o povo tomasse as ruas em revolta contra o que o país vivia. Uma situação-limite que não será de se estranhar se acontecer novamente. (Alysson Oliveira)

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 2 - 15/04/2026 às 14:00

Shooting

O documentário encerra em si o duplo sentido de seu título. A palavra em inglês significa tanto tiroteio, quanto filmagem, e são estes os dois cenários centrais ao filme de Netalie Braum, em sua crítica de como Israel usa o audiovisual como um de seus principais soft power para disseminar ideologia dentro e fora de seu território.

A primeira parte do longa mostra como as filmagens de uma obra de ficção nos anos de 1960 obrigou os moradores de uma aldeia na Síria a evacuar suas casas. O governo de Israel usou o filme como propaganda, alegando ser um conflito real. Adam Greenberg, diretor de fotografia israelense que trabalhou na equipe, antes de ir para os EUA, deixa bem claro: não era uma guerra real, mas usaram como propaganda, como se fosse.

No segundo segmento de Shooting, uma família palestina é vítima de um programa de televisão israelense que mostra, de forma heroica, a ação da polícia. Na casa dos palestinos, foi plantada uma arma falsa, muito parecida com as verdadeiras, e o local foi invadido pela polícia, que fez a apreensão do equipamento. A família não foi presa, o que a colocou numa posição ainda mais delicada com seus próprios vizinhos palestinos, pois foi vista como colaboracionista.

A última parte do documentário de Braum tem como centro um homem que foi especialista em armas cênicas, ou seja, equipamentos falsos – elementos que já ecoam na segunda parte do filme, embora ele não tenha nada a ver com o episódio. Em sua casa, ele guarda num cômodo dezenas de armas falsas, porém, o que o incomoda é um trauma do passado, sobre o qual nunca conseguiu falar nada, nem com sua esposa.

Braum equaciona essas três histórias sem correlação direta mas que mostram muito bem como as imagens podem ser ferramentas de manipulação da opinião pública, e como Israel se vale disso em sua máquina de propaganda mundial. No fundo, o filme questiona exatamente o ponto de vista dos narradores, dos detentores do poder de contar as narrativas. Em um mundo cada vez mais marcado pela inteligência artificial, em que podemos acreditar? As respostas não são simples, e Shooting mostra muito bem que devemos desconfiar de tudo o que vemos – até do que se vende como documentário. (Alysson Oliveira)

São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 15/04/2026 às 16:00

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 2 - 18/04/2026 às 18:00