22/09/2026

Retratos mostram várias faces da condição feminina no Brasil

"A Fabulosa Máquina do Tempo": amadurecimento, expectativas e sonhos

Do foco em meninas pré-adolescentes no Piauí, retratadas em
A Fabulosa Máquina do Tempo, a dois diagnósticos da violência em torno das mulheres vista em Carcereiras e Patrulha Maria da Penha, a sexta-feira (10) oferece um poderoso material de reflexão. Confira os detalhes:

A Fabulosa Máquina do Tempo

Ganhadora do É Tudo Verdade, em 2023, com Incompatível com a Vida, a cineasta Eliza Capai volta à competição de longas nacionais com o delicado A Fabulosa Máquina do Tempo, um filme sobre amadurecimento, expectativas e sonhos de meninas do interior do Piauí.

A cidade de Guaribas (PI) se torna um microcosmos do Brasil, num filme de uma bela fotografia solar, assinada por Carol Quintanilha, captando a vida de um grupo de garotas pré-adolescentes de forma carinhosa e curiosa, acompanhando-as em seu processo de descobertas sobre si mesmas e o mundo que as cerca – além da dura realidade de ser mulher num país tão marcado pelo machismo e o patriarcado como o Brasil.

O mais interessante do filme é como Capai coloca sua câmera à altura das garotas, deixando que elas vivam suas vidas com alegrias, desafios e brincadeiras sem que o filme interfira diretamente. É um universo lúdico que permite o trânsito entre a fantasia – em especial uma máquina do tempo imaginária – e a realidade, como a escola e o convívio com os pais.

A montagem, feita pela diretora e Daniel Grinspum, permite que o filme encontre a complexidade em sua aparente leveza, mas, que, no fundo, revela de maneira profunda estruturas sociais do Brasil. As brincadeiras, por exemplo, materializam a vida social delas e do que as cerca. Já o cinema introduz uma camada de fantasia, de possibilidades que vão além do realismo e da realidade.

Nessa dialética entre o real e possível e a fantasia e o imaginário, A Fabulosa Máquina do Tempo descortina um Brasil repleto de possibilidades e avanços que só programas sociais e investimentos em educação e cultura poderão trazer. Guaribas, em 2003, se tornou cidade-piloto do Bolsa Família, um investimento que transformou radicalmente a cidade, que ostentava um dos menores índices de desenvolvimento humano do país e uma taxa de analfabetismo de quase 60%.

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 5 - 10/04/2026 às 20:00

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 10/04/2026 às 20:30

São Paulo – CineSesc - 11/04/2026 às 20:30

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 11/04/2026 às 16:00

São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 12/04/2026 às 18:00

Patrulha Maria da Penha

Na competição de longas e médias nacionais deste ano, Patrulha Maria da Penha, de André Bomfim, é o filme de maior urgência do momento. Assuntos em pauta no país atualmente, feminicídio e misoginia estão no centro do longa, que acompanha o trabalho de policiais mulheres e homens que integram o grupamento especializado da Guarda Civil Municipal (GCM) e Polícia Militar em Maceió (AL) que fiscaliza o cumprimento de Medidas Protetivas de Urgência (MPU).

Bomfim acompanha de perto a ação de policiais em sua luta pela defesa da vida de mulheres em Maceió. Os momentos mais marcantes do filme são quando os profissionais e as profissionais estão na rua cumprindo seu trabalho e se deparando com histórias de violência e abusos psicológicos e físicos.

A figura central do filme, como não poderia deixar de ser, é uma mulher: Márcia Danielli Assunção, tenente-coronel e comandante da Patrulha Maria da Penha, da PM de Alagoas. Ela realiza seu trabalho com afinco e generosidade e também sororidade. Ela tem a percepção e o acolhimento às vítimas que um policial homem certamente não teria, por mais competente que ele seja – como bem mostra o filme.

Além de atuar nas ruas, Assunção também trabalha na conscientização de seus colegas. Uma função árdua numa instituição marcada pelo machismo e códigos de conduta masculinos. E é bonita a cena em que ela reúne outras policiais femininas e demonstra sua preocupação com suas colegas.

O maior problema que a Patrulha Maria da Penha enfrenta em Maceió, no entanto, é o desmantelamento, conforme registra o filme, com a diminuição progressiva de policiais. Assunção é ciente disso, e é uma preocupação evidente dela ao longo do filme. Assim, ela se torna uma figura marcante e que, de certa maneira, vai contra o sistema, num ato de coragem pessoal em nome da justiça e da proteção de outras mulheres.

Enquanto esteve sob seu comando, o grupo acompanhou 5 mil mulheres e nenhuma foi vítima de feminicídio. São números que comprovam a eficiência desse programa e a necessidade de sua manutenção e investimentos. O filme é eficiente em seu retrato do trabalho e da importância da Patrulha.

São Paulo – CineSesc - 10/04/2026 às 20:30

São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 11/04/2026 às 20:00

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 14/04/2026 às 20:30

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 5 - 14/04/2026 às 20:00

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 15/04/2026 às 16:00

Carcereiras

O sistema prisional brasileiro não é novidade para a cineasta Julia Hannud. Seus curtas Amor, Só de Mãe (2018) e Saudade Mundão (2020) abordam a realidade de mulheres em presídios. Em seu primeiro longa, no entanto, ela volta a câmera para o outro lado dentro dessas instituições. Em Carcereiras, ela retrata um trabalho que ela mesma classifica como insalubre, e o que se vê no documentário corrobora essa constatação.

Hannud trabalhava na produção de um filme sérvio no Brasil, quando conheceu a Penitenciária Feminina Sandra Aparecida Lário Vianna, em Pirajuí, interior de São Paulo. Conversando com uma assistente social, por acaso, a mulher lhe contou que passava mais tempo com as presas do que com sua família. Uma realidade que impressionou a cineasta e despertou o interesse sobre as profissionais daquele lugar.

“Essas mulheres enfrentam um isolamento social e familiar muito forte. Não é um emprego como outro, é insalubre tudo o que enfrentam, em especial a violência institucional. A gente tem a imagem da violência entre presos e carcereiros, mas não é só isso. Falta assistência a quem está preso, e também a elas que trabalham nos presídios.”

O longa acompanha o cotidiano de duas policiais penais, Ana Paula e Mariana. A primeira, há tempo no trabalho e torcendo para uma transferência para São Paulo, enquanto a outra acaba de chegar à cidade e começar nessa profissão. O filme mostra as duas dentro do presídio, atuando em sua profissão, e fora dele, em suas vidas pessoais.

“Eu queria mostrar os dois lados para que pudéssemos compreender o que essas mulheres estão perdendo quando estão lá dentro trabalhando. A Ana Paula é muito próxima de sua família, apaixonada pelo sobrinho pequeno, pela mãe. Já a Marina se sentia muito solitária, morando sozinha pela primeira vez, distante de sua mãe. Essas mulheres vão trabalhar em cidades que não são as suas, deixam para trás as pessoas que amam.”

Hannud fez um longo processo de preparação para rodar o documentário. Começando com todas as autorizações necessárias para filmar dentro de um presídio. Ela explica que, como já havia feito filmes com esse tema, era conhecida da Secretaria de Administração Penitenciária, e também conhecia a diretora do presídio. “O projeto já havia sido aprovado quando houve a mudança de governo [do Estado de São Paulo], e o filme foi negado. Mas muita gente, dentro da SAP, queria que esse documentário fosse feito, sabia que era importante, e acabamos conseguindo autorização.”

Além das entrevistas prévias feitas sem câmera para conhecer melhor as carcereiras, a diretora contou com a preparadora de elenco e diretora de teatro Chia Rodriguez. “Eu a trouxe não para que as profissionais do presídio atuassem no filme, mas para ajudar na preparação delas para a câmera, para que pudéssemos conhecer melhor umas às outras. Como carcereiras, seus corpos estão sempre muito tensos e elas muito vigilantes, eu queria que se soltassem mais”.

E o resultado foi tão positivo que a diretora do presídio também quis participar das aulas. “Ela me contou depois que o clima no lugar mudou. Mesmo sendo um trabalho duro, exigente, elas ficaram mais leves, menos tensas o tempo todo, com mais conforto para seus corpos.”

A partir do filme, e de seus curtas, a documentarista explica compreender que “o sistema prisional é construído para não funcionar, desde a prisão de mulheres pobres e pretas, com uma pena gigantesca pelo porte de pouca droga”. Nessa equação, há também o atravessamento de classe: são mulheres pobres cuidando de mulheres pobres.

“O filme fala da profundidade do Brasil, das diferenças de classe, raça e gênero. Eu percebi que uma mulher só é percebida no trabalho quando é um trabalho que só mulher pode fazer,” conclui.

São Paulo – CineSesc- 10/04/2026 às 17:30

São Paulo - IMS Paulista - 12/04/2026 às 20:00

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 17/04/2026 às 18:30-O

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 5 - 17/04/2026 às 17:30

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 19/04/2026 às 18:30