Perfis de musas e instituições dinamizam o fim de semana no ETV
- Por Alysson Oliveira
- 10/04/2026
- Tempo de leitura 9 minutos
"Apopcalipse Segundo Baby": "“Eu sou peregrina, eu estou na estrada"
Perfis de musas, de Brigitte Bardot a Baby Consuelo, um retrato de escola pública em São Paulo e a busca de pais poloneses pelo filho desaparecido estão na ordem do dia nos documentários apresentados no primeiro final de semana da programação do É Tudo Verdade, Confira os detalhes:
Apopcalipse Segundo Baby
Bernadete Dinorah, Baby Consuelo, Baby do Brasil são os nomes pelos quais é conhecida a cantora e pastora brasileira, cuja trajetória peculiar é retratada em Apopcalipse Segundo Baby, de Rafael Saar, que capta a vibe da artista e religiosa de forma plural e caótica – como ela.
A ideia de apocalipse, do final, da transformação, serve bem a um filme sobre ela, não apenas pela referência bíblica, mas também pelo constante movimento de reinvenção da artista e pastora. “Eu sou peregrina, eu estou na estrada. Como diz JC [Jesus Cristo], o mundo foi feito para o homem, e não o homem para o mundo. Então peregrinos somos todos nós”, diz ela logo no início do filme. A isso, une-se a ideia do pop da música dela.
A peregrina sempre teve esse lado místico. Em vários momentos, em imagens de arquivo, fala da sua espiritualidade, uma busca constante que a fez se envolver, por exemplo, com Thomaz Green Morton, conhecido como o Homem do Rá, por conta de sua interjeição quando realizava fenômenos paranormais com as mãos. É uma trajetória de buscas até fundar o Ministério do Espírito Santo de Deus, em Nome do Senhor Jesus Cristo, em 2000, do qual é pastora.
A excentricidade de Baby domina o filme, e não poderia ser diferente. De sua voz marcante aos cabelos sempre coloridos, de seu começo com os Novos Baianos à carreira solo, está tudo ali, e o longa privilegia seu trabalho como artista, abordando pouco de sua polêmica função como pastora. É uma opção que, certamente, agradará aos fãs pela riqueza de detalhes, material e músicas – mas pode frustrar quem esperasse saber um pouco mais sobre sua conversão.
Esse detalhe não chega exatamente a ser um problema, é só uma ausência que é contornada pelos excelentes depoimentos dela e histórias divertidas e marcantes – como quando o grupo ganhou o nome de Novos Baianos, a vida em comunidade e sua viagem pelo Caminho de Santiago de Compostela.
Entre o sacro e o profano, Baby se reinventa, mantém um público fiel, nas duas vertentes, e solta o vozeirão em músicas mundanas ou religiosas. O documentário capta isso com graça e leveza, celebra uma artista que no passado foi transgressora, e hoje diz estar mais conectada com o céu por conta de seu Ministério.
São Paulo – CineSesc - 12/04/2026 às 20:30
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 5 - 13/04/2026 às 20:00
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 13/04/2026 às 20:30
São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 13/04/2026 às 18:00
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 14/04/2026 às 16:00
Sagrado
Depois de filmar dinâmicas entre jovens estudantes em Eleições (2018), a documentarista Alice Riff coloca os profissionais e as profissionais de uma escola na frente das câmeras. São professoras e professores, funcionários e funcionárias administrativas e da cozinha que têm o protagonismo em Sagrado.
Filmado dentro da escola pública Sagrado Coração, em Diadema, o longa documenta os desafios enfrentados em sala de aula, no pátio e na diretoria. O filme começa com uma professora com dificuldades de ajustar o projetor, um pequeno problema diante de tantos outros que ela enfrenta no cotidiano do seu trabalho.
Reuniões, discussões sobre alunos e alunas, e seus baixos índices de alfabetização, funcionários administrativos que precisam falar com os pais de crianças com pequenos ou grandes problemas, agentes sociais explicando como professores devem lidar com alunos que possam estar sofrendo abusos em casa. A realidade aparece na câmera de Riff sem adornos.
Ao mostrar só um lado, a dialética truncada do filme nos dá subsídio para imaginar e compreender a realidade da vida na periferia. A materialização das crianças se dá no filme por meio das histórias que ouvimos dos professores, seja quando discutem as redações de seus alunos ou quando conversam sobre o futuro desses estudantes.
O sucateamento do ensino público no Brasil é uma pauta mais do que conhecida, e Sagrado mostra como isso acontece na prática. Feito de forma sistemática, ele impede que professores e professoras possam exercer suas funções de maneira plena, dificultando que a educação forneça um futuro melhor.
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 5 - 11/04/2026 às 20:00
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 11/04/2026 às 20:30
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 12/04/2026 às 16:00
São Paulo – CineSesc - 15/04/2026 às 20:30
São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 16/04/2026 às 18:00
Desfecho
O documentário do polonês Michal Marczak parte de um pesadelo real: o desaparecimento de um adolescente que fugiu de casa na madrugada de 27 de maio de 2023. Krzysztof Dymi?sk pega um trem para Varsóvia, e a última imagem registrada do rapaz de 16 anos é na ponte do Rio Vístula. Uma câmera de segurança, que se movimenta, capta-o na Ponte de Gda?sk mas, quando a câmera volta a filmar o mesmo ponto, ele não está mais lá.
A questão é que ninguém sabe se Krzysztof pulou no rio, ou foi embora. Um mistério que se tornou uma busca nacional, e que recai sobre seus pais até hoje. Com mais de mil quilômetros de comprimento, o Vístula é longo e largo, o que dificulta a busca, embora o pai do rapaz, Daniel, continue fazendo-a por conta própria quando as autoridades deixaram de procurar seu filho.
Ele já encontrou corpos de outras pessoas, animais, restos de embarcações, entre outras coisas. Seu trabalho, mesmo que ainda não o tenha ajudado propriamente, trouxe desfecho a histórias de diversas famílias que passaram situações como a dele.
Marczak retrata de forma sóbria a jornada desse homem e de sua mulher. Ao contrário da televisão que sensacionaliza o fato, o documentário acompanha Daniel em seu périplo em busca de uma conclusão para essa história. Ele recebe supostas pistas de pessoas que dizem ter visto Krzysztof na Polônia ou outros países, mandam fotos de rapazes que, realmente, podem ser o garoto, mas nada é concreto.
Com a montadora Anna Garncarczyk, o documentarista constrói um filme de suspense da vida real, o true crime definitivo, que em última instância medita sobre o papel e as possibilidades do cinema enquanto ferramenta social. O resultado é um filme de profundo impacto humano.
São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 10/04/2026 às 16:00
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 2 - 11/04/2026 às 18:00
São Paulo - IMS Paulista - 14/04/2026 às 16:00
Bardot
Brigitte Bardot, como bem diz uma entrevistada do documentário, “era uma figura complicada”. E todo mundo sabe disso. A atriz, que morreu em dezembro de 2025, foi controversa de diversas maneiras, de seu comportamento libertário e transgressor, nos anos de 1960, à sua xenofobia e homofobia ao final da vida, e a proteção quase obsessiva aos animais. O longa dirigido por Alain Berliner e Elora Thevenet é tímido em sua ambição, mas, em sompensação, traz o último depoimento da biografada, rodado no começo de 2025.
Berliner e Thevenet contam, em entrevista ao Cineweb, que cada um fez uma longa entrevista com Bardot que se tornam complementares, e cujos trechos estão espalhados ao longo do filme. “Ela nos deu total liberdade para fazer perguntas, tocar nos temas que quiséssemos. Mas nós preferimos deixar que ela falasse sobre o que quisesse”, explica Thevenet.
Berliner, mais conhecido por seu filme Minha Vida em Cor-de-Rosa (1997), vê Bardot como uma figura misteriosa, uma mulher que era conhecida no mundo todo e resolveu abandonar tudo. “O nível de fama dela era impressionante, mas ela preferiu se dedicar à causa animal. Ela morreu lutando pelos animais.”
Sobre as polêmicas de Bardot, a dupla de diretores defende a opção de não abordar em profundidade no longa, dando ênfase ao trabalho de ativista da atriz. “Ela foi a primeira celebridade a ter uma causa social de verdade”, pondera Thevenet. “Hoje todas as pessoas famosas precisam ter uma causa com a qual se envolver. Com os animais, ela encontrou um propósito para sua vida”.
O longa, que estreou na França, em dezembro passado, pouco antes da morte da atriz, aborda de forma bastante cronológica a vida e carreira da biografada, trazendo histórias como o casamento com o diretor Roger Vadim, entre 1952 e 1957. Foi ele quem a dirigiu em E Deus Criou a Mulher (1956), que a transformou numa sex symbol mundial, e deu ao resort de St Tropez um status que o local ainda não tinha.
A ausência de outros filmes, no entanto, é sentida no documentário, como O Desprezo, obra-prima de Jean-Luc Godard, de 1963, da qual ela é protagonista com Michel Piccoli. O longa é citado de passagem apenas. “Gostaríamos muito de ter mais cenas, mas os direitos eram caros demais, e não tivemos verba para isso”, justifica Thevenet. Outra coisa que aparece apenas de passagem no documentário é a famosa estátua dourada da atriz na cidade de Búzios (RJ), onde ela morou em 1964.
Para provar a importância e a influência de Bardot, o documentário conta com depoimentos de outras celebridades, como a estilista Stella McCartney e a artista sérvia Marina Abramovic. “Bardot inventou muita coisa, seja no cinema ou mesmo na moda. Por isso, foi importante trazer a participação de pessoas diversas mostrando como Bardot é marcante até hoje.”
São Paulo - IMS Paulista - 11/04/2026 às 18:00
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 12/04/2026 às 14:00
São Paulo – CineSesc - 12/04/2026 às 17:30
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 5 - 19/04/2026 às 20:00
Relacionadas
Entre Proust e uma ligação entre pai e filho
- 13/04/2026
