24/09/2026

Documentários sobre Alceu Valença e Gaddafi são destaques na quinta

"Vivo 76" é um filme de profunda brasilidade, declarando seu amor pela cultura brasileira

No primeiro dia da programação normal do festival, alguns destaques são
Vivo 76, que focaliza o cantor e compositor Alceu Valença, Meu Pai e Gaddafi, em que uma mulher resgata a figura de seu pai, desaparecido no regime autoritário do ex-ditador líbio, Túmulo de Gelo, sobre uma trágica expedição de balão no Polo Norte no século XIX e um resgate da obra do cineasta brasileiro Fernando Coni Campos. Confira os detalhes.

Vivo 76

É raro, mas quando acontece, é grandioso. Vivo 76, documentário de Lírio Ferreira, capta Alceu Valença não apenas no conteúdo, mas é capaz de transpor em forma cinematográfica a arte do cantor, compositor e ator bissexto. É um filme de profunda brasilidade, declarando seu amor, junto com Alceu, pela cultura brasileira – em especial a popular. O longa abre a edição carioca do 31o É Tudo Verdade nessa quinta (09), e depois terá sessões abertas ao público em SP e RJ.

Numa longa entrevista espalhada pelo filme, o artista resgata sua trajetória, momentos marcantes e divertidos de sua carreira, como quando foi adotado pelo movimento hippie, quando participava de um programa de verão na Universidade de Harvard. Ou sua incursão como ator de cinema – em especial no incrível A Noite do Espantalho, dirigido pelo também músico Sérgio Ricardo, e lançado em 1973, um filme marcado por um tom lisérgico e político e abordado com destaque no documentário.

Alceu conta que sonhava em ser palhaço – chegou a cogitar, quando criança, fugir com o circo que parou em sua cidade, São Bento da Una (PE). O mundo circense, então, toma conta do filme de Ferreira, trazendo um universo lúdico que vai encontro ao do biografado que, quando criança, ganhou um concurso de música. O prêmio, lembra-se divertido, foi uma caixa de sabonete.

Entre as músicas e parcerias, uma especial é com Geraldo Azevedo, com quem compôs Talismã, que, originalmente, evocava o nome Joana, mas a ditadura proibiu, pois, segundo os censores, remetia a marijuana, maconha. Então os compositores mudaram para Diana. São histórias como essa, narradas em primeira pessoa, que enriquecem o filme. Alceu é um narrador nato, conta esses episódios de forma rica, em detalhes e um colorido vibrante.

O filme faz um resgate marcante de imagens de arquivo, trazendo entrevistas, apresentações e participações em festivais, além, é claro, da entrevista inédita que guia a montagem do longa. Com seus cabelos sempre longos, um humor e sagacidade marcantes, Alceu é uma figura única para a cultura nacional e querido pelo público no passado e no presente – como bem mostra a cena final do documentário. (Alysson Oliveira)

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 5 - 11/04/2026 às 17:30

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 11/04/2026 às 18:30

São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 17/04/2026 às 20:00

São Paulo - IMS Paulista - 18/04/2026 às 16:00

Fernando Coni Campos: Cada um Vive como Sonha

“O cinema, pra se realizar, a primeira condição é que apaguem as luzes. É na escuridão que o cinema acontece, porque o cinema é a única arte noturna”, diz a voz do cineasta Fernando Coni Campos no começo do documentário. E é nesse pensamento, da arte noturna, das luzes apagadas, que se dará o filme dirigido por Luis Abramo, filho do cineasta e diretor de fotografia, e Pedro Rossi.

Pelas falas e imagens dos filmes de Coni Campos, o cinema é a arte da intertextualidade em forma de sonho. O onírico toma conta, mas acaba sendo invadido pelo social. E juntos transformam tanto “quem ouve, como quem conta”.
O seu filme mais famoso é Ladrões de Cinema, de 1977, sobre uma equipe estadunidense que vem ao Brasil filmar o carnaval, e cujos equipamentos são roubados por um grupo de moradores de uma favela, que realizam então seu próprio sonho de fazer um filme.

O documentário resgata a trajetória de Coni Campos por meio de seus filmes, como Viagem ao Fim do Mundo (1964), premiado em Locarno, Um Homem em Sua Jaula (1969) e O Mágico e o Delegado (1983), ganhador de diversos prêmios em Brasília. Apesar da curta carreira – o diretor morreu aos 55 anos –, sua obra é marcante, e o documentário exerce bem a função desse resgate e de apresentar a novas gerações que talvez conheçam pouco ou nada do cinema dele. É uma pena, aliás, que seus filmes não estejam disponíveis em cópias boas e acessíveis.

Destacam-se depoimentos de pessoas que trabalharam com ele, em especial Antonio Pitanga, que atuou em Ladrões de Cinema, que traz histórias curiosas sobre o set e a relação com Coni Campos. Há, também, um resgate de entrevistas muito ricas com o diretor, que fala sobre seu processo de criação e sua paixão pelo cinema. Uma das melhores entrevistas acontece na comunidade onde o diretor filmou cenas de Ladrões de Cinema. Numa entrevista produzida pela Embrafilme e conduzida pelo ator Lutero Luiz (que também atuou no longa), Coni Campos conta, numa história divertida, como a chamada arte pobre influenciou seu longa. Uma verdadeira lição de como fazer cinema. (Alysson Oliveira)

São Paulo – CineSesc - 09/04/2026 às 20:30

São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 10/04/2026 às 18:00

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 16/04/2026 às 20:30

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 5- 16/04/2026 às 20:00

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 17/04/2026 às 16:00

Túmulo de Gelo

A sorte dos exploradores suecos Salomon August Andrée, Nils Strindberg e Knut Fraenkel, que partiram num balão de hidrogênio no Polo Norte em 1897 e desapareceram foi por muito tempo desconhecida. Embora com a passagem dos anos se pudesse especular com certeza sua morte, seus despojos não foram encontrados até 1930, por uma outra expedição científica.

O documentário dirigido pelo francês Robin Hunzinger dedica-se à tarefa de reunir uma quantidade admirável de vestígios que permitem reconstituir boa parte da saga trágica dos três pioneiros - especialmente os diários escritos por Andrée e Strindberg que, como fotógrafo da expedição, deixou também dezenas de imagens que puderam ser recuperadas.

Num tom sóbrio, o filme também abre espaço a uma dimensão humana, detendo-se nos sentimentos revelados pelos diários e também pelas cartas escritas por Strindberg à sua noiva, Anna Charlier - que, anos depois da descoberta das cartas, teve uma atitude memorável por ocasião de sua própria morte, um episódio digno dos melhores romances de ficção. (Neusa Barbosa)

São Paulo - IMS Paulista - 09/04/2026 às 20:00

São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo- 10/04/2026 às 20:00

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 2- 15/04/2026 às 18:00

"Meu Pai e Gaddafi" mostra o desaparecimento de Mansur Kikhia, pai da diretora

Meu Pai e Gaddafi

Em 1993, quando a diretora, Jihan, tinha 6 anos, seu pai, Mansur Kikhia, desapareceu. Membro destacado do governo de Muammar Gaddafi, Kikhia tinha sido ministro das relações exteriores e embaixador da Líbia na ONU. Afastando-se de Gaddafi ao identificar o desvio autoritário de seu governo, Kikhia aproximou-se da oposição pacífica ao regime. Em 1993, viajou ao Cairo e desapareceu de seu hotel, sem deixar traços.

Por anos, sua mulher, a artista sírio-americana Baha Al Omary, fez tudo ao seu alcance para descobrir o paradeiro do marido, em vão. Radicando-se nos EUA, criou seus filhos - dois deles, filhos de Mansur. Ela é uma das entrevistadas no filme, em que a filha procura retraçar a figura do pai, seu legado e as trágicas circunstâncias de seu desaparecimento, que só teria explicações em 2012 - um ano depois que o próprio Gaddafi fosse morto no bojo de uma guerra civil sangrenta e que levou o país a tornar-se um dos lugares mais instáveis da terra.

O filme é, então, um álbum de família que é atravessado pela geopolítica, em que são entrevistados diversos políticos e familiares do personagem retratado. (Neusa Barbosa)


São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 09/04/2026 às 16:00

Rio de Janeiro- Estação NET Rio - Sala 2- 12/04/2026 às 14:00

São Paulo - IMS Paulista - 16/04/2026 às 20:00