Um dia para mergulhar nas muitas faces da vida de artistas
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 12/04/2026
- Tempo de leitura 8 minutos
"Retiro - A Casa dos Artistas": um olhar carinhoso sobre os moradores
A segunda-feira reserva filmes que exploram as múltiplas facetas da vida de artistas, como no brasileiro
Retiro - A Casa dos Artistas e
o norte-americano Benita. Mas há também produções dedicadas a investigar aspectos de experiências malfadadas na Amazônia brasileiras, em Fordlândia Panacea e uma discussão sobre família e doença mental em Entre Irmãos.
Retiro - A Casa dos Artistas
O Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, é um lugar do qual se ouve falar bastante, mas desconhecido do público em geral. Retiro - A Casa dos Artistas, documentário de Pedro Bronz e Roberto Berliner, entra nesse conjunto residencial e mostra como é a vida nessas casas habitadas por homens e mulheres, famosos ou não, que fizeram da arte seu ofício.
Esse é um documentário mais de impressões, um olhar carinhoso sobre essas pessoas, cujos nomes e ofícios estão todos no site do Retiro dos Artistas. Os documentaristas deixam a câmera solta, captando depoimentos e memórias, sob um olhar livre que não está muito preocupado em organizar uma narrativa.
Das falas surgem comentários sobre o que é envelhecer no Brasil – especialmente quando se foi um ou uma artista, uma profissão muitas vezes marcada por trabalhos esporádicos. Mostrar essas pessoas hoje é salientar como, no capitalismo, um artista só é bom enquanto trabalha, depois será esquecido e, se não conseguiu guardar um dinheiro, enfrentará dificuldades nesse momento da vida.
O Retiro oferece não apenas moradia, como segurança e proteção, além de cuidados. Há ainda o respeito à individualidade, pois cada pessoa tem sua própria casa. Ainda assim, existe um forte senso de comunidade, como se demonstra pela biblioteca ambulante e ressalta-se, assim, a importância de estar com os pares. Ao contrário do que se pensa, o lugar não é exatamente o fim de carreira, mas apenas uma nova fase – afinal, vários moradores ainda atuam em suas profissões. (Alysson Oliveira)
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 13/04/2026 às 16:00
São Paulo – CineSesc - 13/04/2026 às 20:30
São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 14/04/2026 às 18:00
Benita
O cineasta norte-americano Alan Berliner traça aqui um retrato intimista e multifacetado da amiga Benita Raphan (1962-2021), uma artista novaiorquina com quem ele manteve várias parcerias e trocas intelectuais ao longo da vida.
O suicídio da amiga durante a pandemia da covid 19 é um dos gatilhos do filme, mas não o único. Como amigo próximo da artista, Berliner teve permissão de sua família para ter acesso aos diversos materiais deixados por ela, entre fotos, textos e diversos arquivos fílmicos. Com uma trajetória que se iniciou nas artes e no design, Benita encontrou no cinema, praticado com um estilo muito livre, mesclando documentário e experimentalismo, a sua mais completa tradução - especialmente em biografias muito inusuais de figuras como Helen Keller e Emily Dickinson.
Com extrema sensibilidade, Berliner se aproxima da mundo interior de Benita, fazendo uso de seus arquivos e textos, mesclando-os com trechos de entrevistas de seus familiares, amigos e colaboradores, permitindo mesmo a quem não tenha tido qualquer contato anterior com a artista e sua obra - meu caso - aproximar-se de sua apaixonante singularidade, empatizando com sua empatia pelo humano, sua fragilidade e seu imenso amor pelos animais, notadamente os cães. É o tipo de filme em que se aprende muito, além de ter uma experiência sensorial rica e marcante. (Neusa Barbosa)
São Paulo -Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 13/04/2026 às 20:00
São Paulo - IMS Paulista - 14/04/2026 às 20:00
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 2 - 16/04/2026 às 18:00
Fordlândia Panacea
Fordlândia, como se sabe, foi um projeto do estadunidense Henry Ford, em Aveiro (PA), criado em 1928. A cidade utópica visava produzir látex para os pneus da Ford, promovendo assim independência do monopólio britânico. Um projeto faraônico, de grande investimento, que fracassou e se tornou uma cidade fantasma no coração da Amazônia.
A portuguesa Susana de Sousa Dias retoma o tema em Fordlândia Panacea, documentário que faz um díptico com seu curta Fordlandia Malaise, de 2019. A ideia da cidade como uma panaceia já aponta as grandes ambições e o tamanho do fracasso. O filme, de forma impressionista, tenta mostrar que o lugar não se tornou uma cidade fantasma, embora o senso comum diga o contrário.
Depoimentos dão a dimensão dos horrores do projeto, que seguia diretrizes estadunidenses e não brasileiras, como na alimentação dos trabalhadores. Já num outro segmento do longa, há a tentativa de refutação da ideia de cidade fantasma. “Não é fácil ser de Fordlândia, ser considerado fantasma”, diz um homem.
Fordlândia Panacea é um filme exigente em seu ritmo lento e sua tentativa de provar uma tese – que Sousa Dias até consegue, ao mostrar a vida das pessoas naquele lugar com imagens captadas desde 2018. Mostrando desde moradores atuais até histórias míticas. (Alysson Oliveira)
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 2 - 13/04/2026 às 18:00
São Paulo - IMS Paulista - 15/04/2026 às 16:00
Entre Irmãos
Uma questão assombra o longa do holandês Tom Fassaert: qual o limite ético de se filmar sua própria família? Os irmãos do título do documentário são Rob (72), pai do cineasta, e René (75), tio do diretor – o primeiro, um psicólogo aposentado, e seu irmão, um paciente psiquiátrico.
A relação de afeto é marcada pela proximidade, mas também pelas divergências. Eles não conseguem viver um sem o outro, mas quando estão juntos, brigam. É uma dinâmica que o longa observa com certa graça e carinho. Mas um tema mais forte os une. Quando crianças, o pai deles desapareceu. É uma história comovente que, não surpreendentemente, poderia virar um filme dramático – com grandes possibilidades de sucesso de público.
Fassaert toca em questões muito íntimas de sua família, que, talvez, nem sempre se comportam bem num cinema documental. Ele observa o pai e tio de forma aparentemente distante, mas até que ponto os dois homens agem sem a existência da câmera ali ? “Ei, Tommy! Lá está meu filho de novo, que eu só vejo com uma câmera na frente do rosto. Acho que é mais uma espécie de… fetiche?”, diz Rob quando está entrando na casa do irmão e se depara com a câmera e o filho.
Nunca fica claro, por exemplo, como René, com suas condições psicológicas, lida com ser objeto de escrutínio em um documentário. O diretor explica que o tio não gosta que ninguém entre em sua casa, exceto seu irmão, Rob. O quanto esse homem tão fragilizado emocionalmente foi exposto a gatilhos com uma câmera dentro de seu pequeno apartamento entulhado de caixas, papeis e livros?
Quando Rob diz a René que gostaria de escrever um romance sobre ele, o caçula responde que “se você escrever uma história sobre alguém, deve ter cuidado para não inventar coisas. Não se pode inventar a história de alguém. Senão, você pode acabar se distanciando muito da verdade. E não dá para brincar com isso. Depois que você documenta algo e outras pessoas leem, não tem mais como corrigir. Você não pode adulterar isso, nem contar meias-verdades. Ou sugerir coisas que não são verdadeiras, que você não pode provar. Você não pode fazer isso.”
O que ele pensa sobre estar num documentário sobre sua vida e seu grande trauma da perda do pai, jamais saberemos. O longa não lhe dá essa oportunidade. Fassaert aponta a certa altura que o filme é, também, sobre ele mesmo, Tom Fassaert, mas, então, ele deveria se colocar mais como objeto documental do que apenas como observador e editor. (Alysson Oliveira)
São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 13/04/2026 às 16:00
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 2 - 14/04/2026 às 14:00
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