05/06/2026

O labirinto metalinguístico de Almodóvar em "Natal Amargo"

Cannes - De Pedro Almodóvar sempre se tem altas expectativas. E elas se cumprem em Natal Amargo, filme em que o respeitado diretor espanhol assina uma obra labiríntica e metalinguística, que espelha o próprio cinema.

Na história, o ator argentino Leonardo Sbaraglia interpreta, como um verdadeiro alter-ego de Almodóvar, Raúl, um roteirista e diretor em crise de criatividade que acha inspiração vampirizando as vidas de pessoas à sua volta. Na tela, veremos este jogo de realidades paralelas, com os personagens do filme dentro do filme ganhando vida com atores como Bárbara Lennie e Rossy de Palma, entre outros. Com o habitual apuro visual, Almodóvar se dá ao luxo da auto-ironia. O filme estreia no Brasil dia 28.

O diretor espanhol realiza melhor aqui a tarefa a que se propôs o iraniano Asghar Farhadi em Contos Paralelos. Mas se trata, certamente, de um filme mais intelectualizado, mais rigoroso esteticamente, com valores como a esplêndida fotografia (de Pau Esteve Birba) e a incontornável trilha sonora de Alberto Iglesias. A intercalação das histórias do roteiro de Raúl com as pessoas de sua própria vida, como a assistente Monica (Aitana Sánchez-Gijón), que inspira a trajetória da personagem Elsa (Bárbara Lennie), gera conflitos na “vida real” de Raúl - que, como alter ego de Almodóvar, dispara frases irônicas sobre o próprio trabalho de diretor, ironizando os dilemas da maturidade desse profissional, como fazer um filme para a TV ou esperar um convite da Netflix, citada nominalmente. Ou seja, há muitas camadas a explorar neste Natal Amargo, que não dispensa sua dose de melodrama infiltrada nas tramas e confirma a intenção do cineasta espanhol de figurar entre os grandes da história do cinema.