Selton Mello marca presença em Cannes em coprodução chileno-brasileira
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 18/05/2026
- Tempo de leitura 2 minutos
Cannes - Num ano em que o Brasil está fora das principais mostras do festival, a presença de Selton Mello no elenco de La Perra, de Dominga Sotomayor, uma coprodução entre Chile e Brasil, é algo de se notar. O filme faz parte da Quinzena dos Cineastas, outra das mostras competitivas de Cannes.
Adaptando um livro colombiano, a diretora delineia a trajetória da protagonista Silvia (Manuela Oyarzún), uma humilde coletora de algas na praia, que se apega a uma cachorra que aparece por ali, Yuri. O relacionamento entre a mulher e a cachorra espelha toda a dificuldade de Silvia para expressar seus sentimentos, inclusive um trauma por uma tragédia no passado, na qual está envolvido Fonseca (Selton Mello), proprietário de uma casa elegante na montanha.
Filmado na Isla Santa Maria, o filme incorpora suas paisagens um tanto íngremes, frias e algo desoladas como um elemento para integrar essa mulher que não consegue expressar nem os próprios afetos, muito menos os próprios traumas, transferindo para o cuidado com a cachorra muito desse seu mal-estar na própria pele. É um filme cheio de silêncios, muito imagético e que confia ao espectador cobrir algumas lacunas
Renascença no Harlem
Outro filme desta mostra
é o documentário Once Upon a Time in Harlem, em que o diretor David Greaves monta o material colhido por seu pai, William Greaves, em 1972, reunindo depoimentos de diversos artistas, escritores, atores, músicos, jornalistas, historiadores e intelectuais afro-americanos, resgatando o brilho de um período de especial vitalidade no famoso bairro novaiorquino.
A importância deste filme, realizado na casa de Duke Ellington, é juntar os integrantes de algumas gerações de ouro no Harlem. O contexto é que, depois do fim da escravidão, vários afro-americanos de outras regiões migraram para Nova York, encontrando ali um ambiente mais livre e propício ao desenvolvimento de sua criatividade, que teve como um dos centros uma biblioteca local, onde duas bibliotecárias acolhiam escritores em busca de salas tranquilas para escreverem suas obras.
Como observou o diretor David Greaves, numa breve conversa com o público após a primeira exibição do filme, nesta manhã de segunda (18), a ideia do filme é recriar o espírito dos salões culturais que ocorriam décadas atrás e que propiciaram a chamada Renascença do Harlem - um termo emprestado à Renascença europeia, depois da Idade Média.
Um grande valor deste documentário é identificar com clareza os participantes e suas funções, permitindo que seus nomes, muitos pouco conhecidos de boa parte do público internacional, sejam efetivamente lembrados.
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