Um drama espanhol, com Javier Bardem, com cara de Palma de Ouro
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 17/05/2026
- Tempo de leitura 2 minutos
Cannes - Finalmente, apareceu um filme com toda cara de Palma de Ouro: o concorrente espanhol El Ser Querido, em que o diretor Rodrigo Sorogoyen expande as fronteiras entre melodrama familiar e filme sobre cinema, aliando também um alto rigor estético em sua fotografia, assinada por Alejandro de Pablo, que usa o preto-e-branco em sequências especiais.
Diretor do excepcional As Bestas (2022), Sorogoyen também assina aqui o roteiro desta história do reencontro entre um pai cineasta, Esteban (Javier Bardem, esplêndido), e sua filha, Emilia (Victoria Luengo), atriz, depois de um afastamento de vários anos. Esteban foi viver em Nova York e convida esta filha, que cresceu longe dele e que mal conhece, para atuar em seu novo filme, nada por acaso chamado Deserto.
É um reencontro com potencial para acordar rancores adormecidos por parte da filha, e as culpas do pai, um ex-alcoólatra que deixou de lado experiências violentas. Tudo o que Esteban tem em mente é suavizar as marcas deste abandono da filha, que não está, no entanto, disposta a facilitar-lhe a vida.
Estas emoções adormecidas renascem sob o sol do deserto onde se filma uma história de época, que remete a outras culpas, ao passado colonial espanhol, no Saara Ocidental, e permeiam as filmagens de uma forma que também explicita os desafios do próprio cinema, um artesanato duro e extenuante. Por isso, o filme se torna cada vez mais rico em suas camadas, desenvolvendo em paralelo esse estranhamento entre pai e filha e o processo intrinsecamente coletivo do fazer cinematográfico.
Javier Bardem mostra-se no auge de sua forma, na melhor interpretação masculina do festival até aqui, encarnando um personagem contraditório com tantas nuances que o tornam terrivelmente humano - um primor de atuação.
Jovem e alcoólatra
Adèle Exarchopoulos, que protagonizou Azul é a Cor Mais Quente, Palma de Ouro em 2013, encabeça o elenco de Garance, o drama da diretora francesa Jeanne Henry que focaliza a peculiaridade de uma jovem atriz às voltas com o alcoolismo.
Se o tema não é novo, é evidente a intenção da diretora e roteirista de conduzir sua personagem de modo diferente de outros filmes sobre o tema. E isto lhe concede algum frescor ao apresentar a trajetória desta Garance que se lança à vida com muita garra, procurando atuar, ao mesmo tempo que não consegue dissociar-se de um alto consumo de álcool, que lhe permite desafogar uma energia enorme, mas numa rota com um traço de autodestruição.
Uma qualidade do filme é nunca procurar julgar sua personagem, nem ser moralista, sem deixar de assinalar o risco das escolhas de Garance que, num determinado momento, encontra uma parceira na cenógrafa Pauline (Sara Giraudeau). Esta paixão e também a ligação de Garance com sua família, além dos amigos de balada, humanizam a moça, que Adèle conduz numa interpretação nuançada, nada caricatural.
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