05/06/2026

Dilemas do pós-guerra e histórias entrelaçadas acendem a competição

Cannes - O segundo dia da competição pela Palma de Ouro em Cannes esquentou com a passagem de dois candidatos de alto quilate: o drama polonês Fatherland (A Terra do Meu Pai) [foto ao lado], de Pawel Pawlikowski, e o francês Histoires Paralléles (Contos Paralelos), do iraniano Asghar Farhadi.

Repleto de referências, Contos Paralelos (foto abaixo) - título que terá no Brasil - é labiríntico e hitckcockiano na costura de suas tramas internas, envolvendo diversos personagens, moradores de dois prédios contíguos, com um elenco estelar francês dos sonhos de qualquer diretor. Há um toque de Janela Indiscreta, de Hitchcock, na observação obsessiva de uma escritora reclusa, Sylvie (Isabelle Huppert) de um apartamento defronte ao seu em que três pessoas trabalham como técnicos de som de cinema: Nita (Virginie Efira), Theo (Pierre Niney) e Nicolas (Vincent Cassel).

Há um momento em que, pela construção astuta da história, em que se pode até duvidar da existência real desses três personagens, que assumem papeis numa intricada trama de paixão e ciúme no texto produzido por Sylvie. Mas a observação ganha um novo elemento pela entrada em cena de Adam (Adam Bessa), um jovem desempregado trazido pela sobrinha de Sylvie (India Hair), para ajudar a tia.

Entrando na trama dessas vidas, esse jovem desenraizado se toma de paixão por Nita, disparando na narrativa alguns elementos de suspense, sem descuidar do apuro formal típico dos filmes de Farhadi, conhecido especialmente por A Separação (vencedor do Oscar de filme estrangeiro 2012) e também O Apartamento (2016).

Filmando em francês, fora de seu país - onde artistas encontram frequentes restrições do regime -, Farhadi compõe um filme de construção estética sofisticada, que guarda uma inspiração também no polonês Krzysztof Kieslowski (1941-1996). Afinal, este projeto nasceu inicialmente como uma inspiração no Decálogo, série de filmes do premiado diretor polonês, e que ganha uma discreta homenagem na trilha sonora, assinada pelo colaborador habitual dele, Zbigniew Preisner.

Clã Thomas Mann

Filmando mais uma vez uma história de época em preto-e-branco, como Ida e Guerra Fria, o diretor polonês Pawel Pawlikowski retrata em Fatherland (no Brasil, A Terra do Meu Pai), um episódio na vida do escritor Thomas Mann (Hanns Zischier). Em 1949, depois de 16 anos fora da Alemanha, exilado nos EUA, ele volta, acompanhado por sua filha, Erika (Sandra Huller), para receber homenagens em duas cidades diferentes, que hoje pertencem, cada uma, a uma parte do país, dividido depois da derrota na II Guerra.

Os dois lados, o Ocidental e o Oriental, disputam este escritor consagrado, vencedor de um Prêmio Nobel, e cuja volta sinaliza a procura do país de reencontrar uma espécie de normalidade depois do nazismo. Que, como logo se vê, não é mesmo possível.

Na Alemanha Ocidental, ocupada por norte-americanos e britânicos, Thomas e Erika defrontam-se com antigos colaboradores do regime nazista, como o ex-marido de Erika, normalizados no convívio social - e ela tem com este homem, um ator que inspirou Mephisto, livro do irmão de Erika, Klaus Mann (August Diehl), como um protótipo do oportunista sem escrúpulos, uma cena catártica inesquecível.

Na Alemanha Oriental, comandada pelos soviéticos, Thomas é igualmente homenageado e disputado para voltar, para tornar-se um vetor de propaganda. Mas Thomas é independente demais para qualquer destas tentativas de sedução. Ao mesmo tempo, enfrenta dificuldades profundas na esfera familiar, particularmente com o filho Klaus, apesar dos esforços de mediação de Erika.

Unindo controle e intensidade, Pawlikowski compõe com muito acerto esta história sobre amor e ética, contando com um elenco primoroso - Sandra Hüller, mais uma vez, ilumina cada cena de que participa. E que o tom menor destas emoções contidas do clã Mann não engane ninguém. Está aqui uma história de alta voltagem e grande potencial para prêmios.

Imigração mexicana

Fora da competição, em sessão especial, um destaque na programação foi o drama mexicano Ceniza en la Boca (foto ao lado), quinto filme ccmo diretor do também ator Diego Luna. Partindo de livro de Brenda Navarro, Luna constrói com habilidade o dilema de uma pequena família mexicana, que busca melhores condições de vida na Espanha, apenas para entalar-se num grande dilema.

Somente aos poucos se revelará por inteiro a impossibilidade de escolhas de Isabel (Adriana Paz), a mãe que partiu há 8 anos, e dos filhos que vêm juntar-se a ela, Lucila (Anna Diaz) e Diego (Sergio Bautista). Presos numa engrenagem de discriminação e exclusão, eles nem conseguem integrar-se plenamente na Espanha, nem viver no México, assolado pela violência do crime organizado.

O filme é muito sensível com estes dramas, mostrando-se conectado ao coração destes personagens, habilmente desenhados por um elenco afinado de atores.