05/06/2026

Cannes dá a segunda Palma a Cristian Mungiu, por "Fjord", mas comete injustiças

Cannes - No final, o júri presidido pelo cineasta sul-coreano Park Chan-wook acertou em muitas coisas, mas cometeu uma omissão terrível: deixou de fora de qualquer premiação o esplêndido filme espanhol El Ser Querido, de Rodrigo Sorogoyen, um dos melhores da seleção. No mínimo, teria que ter entregue o prêmio de melhor ator a Javier Bardem, que vive ali um dos melhores papéis de sua carreira. Mas merecia mais: direção, Prêmio do Júri, Grande Prêmio do Júri ou Palma de Ouro.

A Palma ficou para o romeno Cristian Mungiu (foto), por
Fjord, a segunda de sua carreira (a primeira foi em 2007, por Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias). Também venceu o prêmio Fipresci, como melhor filme da competição, e melhor filme para o júri ecumênico. Uma boa obra, sobre os excessos da burocracia estatal da Noruega para supostamente proteger os filhos de uma família de imigrantes romenos, tidos como fanáticos religiosos. Mas a Palma pareceu demais. O filme será distribuído no Brasil pela Diamond, ainda sem data de estreia.

Voltando à cena depois de uma longa ausência, por motivo de saúde, o russo Andrei Zvyagintsev levou o segundo prêmio mais importante, o Grande Prêmio do Júri, por seu potente drama Minotaur - uma investigação profunda dos mecanismos de poder na Rússia, através da figura de um CEO que se torna criminoso. No seu discurso de agradecimento, Zvyagintsev aproveitou para mandar um recado ao seu desafeto, o presidente Vladimir Putin, instando-o a "parar o massacre na Ucrânia, já que ele é o único que pode fazê-lo". O cineasta vive em Paris há 4 anos por sua discordância do governo de seu país.

A Espanha, que mostrou uma cinematografia poderosa, com três filmes na competição, ganhou um importante prêmio de direção, para o drama La Bola Negra, de Javier Calvo e Javier Ambrossi - que, no entanto, o dividiram com o polonês Pawel Pawlikowski, pelo intenso Fatherland. Dois ótimos filmes.

Mas o júri pareceu ter gostado um pouco demais de dividir prêmios, o que fez algum sentido na atuação feminina - para Virginie Efira e Tao Okamoto, no drama japonês Soudain/All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi - e masculina, que ficou para dois jovens atores, Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, do drama de guerra belga Coward, de Lukas Dhont.

O Prêmio do Júri foi concedido a um filme bastante irregular, o drama The Dreamed Adventure, da alemã Valeska Grisebach, que focaliza o estado instável de coisas numa cidade da fronteira entre a Bulgária e a Turquia, visto pelos olhos de Veska (Yana Radeva), uma arqueóloga que serve como uma espécie de guia no inferno.

Um filme francês muito elogiado pela crítica francesa, Notre Salut, de Emmanuel Marre, que retrata o colaboracionismo da era de Vichy, teve que contentar-se apenas com o prêmio de roteiro.

Lista completa de prêmios:

Palma de Ouro

Fjord, de Cristian Mungiu

Grande Prêmio do Júri

Minotaur, de Andrei Zvyagintsev

Prêmio do Júri

The Dreamed Adventure, de Valeska Grisebach

Diretor

Javier Calvo e Javier Ambrossi, por La Bola Negra e Pawel Pawlikowski, por Fatherland

Roteiro

Emmanuel Marre, por Notre Salut

Ator

Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, de Coward


Atriz

Virginie Efira e Tao Okamoto, por Soudain/All of a Sudden

Caméra d’Or

Ben’Imana, de Marie-Clémentine Dusabejambo (Ruanda)

Palma de Ouro curta-metragem

Para los Contrincantes, de Federico Luis (Espanha)