"La Bola Negra" dá mais um olé em Cannes
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 22/05/2026
- Tempo de leitura 4 minutos
Cannes - Já na reta final do festival, com 20 dos 22 filmes já exibidos na competição, pode-se dizer que os filmes espanhóis foram um dos pontos altos. Se isso começou com a passagem do apaixonante El Ser Querido, de Rodrigo Sorogoyen, confirmou-se com a acolhida triunfal de La Bola Negra, em que a dupla de diretores e roteiristas Javier Ambrossi e Javier Calvo revisita memórias da Guerra Civil Espanhola num enredo que discute a homofobia como um elemento intrínseco ao fascismo. Ambos os filmes são candidatíssimos a uma Palma de Ouro e outras premiações.
Mesmo apresentando um filme tecnicamente interessante, Natal Amargo, desta vez Pedro Almodóvar não empolgou, como seus dois compatriotas.
A dupla de diretores, conhecida como os Javi e por séries como Veneno e La Mesías, adapta aqui a peça La Piedra Oscura, de Alberto Conejero, também participante do roteiro do filme, que amplia o tema original. Na peça, o foco residia num encontro entre um soldado franquista, Sebastián, e o prisioneiro esquerdista Rafael Rodriguez Rapún, que foi o último companheiro do poeta Federico García Lorca e também seu parceiro na companhia teatral La Barraca.
No filme, este encontro é um dos focos da história, que se passa em três núcleos temporais, em 1932, 1937 e 2017. E, como na peça, um tema essencial é o romance inacabado de García Lorca, justamente chamado La Bola Negra, tendo como protagonista um rapaz de família rica, Carlos, que é rejeitado no elegante clube local por ser homossexual.
Numa produção assinada pelos irmãos Pedro e Agustín Almodóvar, o filme exibe uma notável exuberância formal na fotografia dessas três épocas, de Gris Jordana, que se sobrepõem e entrelaçam através dos destinos dos personagens Sebastián (o músico Guitarricadelafuente), Rafael (Miguel Bernardeau) e Alberto (Carlos González), com participações essenciais de Teresa (Lola Dueñas), da cantora Nena (Penélope Cruz) e de uma pesquisadora estrangeira, Isabelle (Glenn Close).
Com suas 2h35 - este tem sido também um festival de filmes longos -, La Bola Negra desenvolve-se como um painel em que a História acontece com todo seu som e fúria, delineando personagens genuinamente imbuídos de psicologia, carne, sangue e propósito, compondo uma obra que se acompanha com um turbilhão de emoções. Um filme cativante e genuinamente digno de premiações.
Amor na I Guerra
O jovem cineasta belga Lukas Dhont é inegavelmente uma cria de Cannes. Em 2018, venceu o Caméra d’Or e outros prêmios com seu primeiro filme, Girl, na seção Un Certain Regard. Voltou em 2022, agora competindo à Palma de Ouro com o aclamado Close, vencedor do Grande Prêmio do Júri. E retorna mais uma vez à competição com uma temática de gênero neste seu terceiro filme, Coward, que retrata a difícil história de amor entre dois jovens soldados na I Guerra.
Pierre (o estreante Emmanuel Macchia) é um camponês, filho ilegítimo do patrão de sua mãe, que chega ao front belga em 1916. Calado, discreto, é assoberbado pelas tarefas da guerra, recolhendo cadáveres que chegam às dezenas das enlameadas trincheiras.
Neste cenário de drama e horror, uma inusitada diversão é fornecida por uma trupe teatral amadora, formada pelos próprios soldados, vestidos precariamente de mulheres, comandados por Francis (Valentin Campagne).
Entre este jovem de aparência um tanto andrógina e Pierre surge rapidamente uma irmandade e também uma forte atração que terá que permanecer clandestina neste contexto. O filme coloca estas barreiras num tom sutil, num cenário esteticamente bem cuidado e construído, mas em que o realismo nem sempre encontra lugar.
O foco de Dhont é certamente este amor que não pode dizer seu nome, ainda mais num tempo de guerra. E assinala mais um título de uma competição em que a homossexualidade esteve em foco, como La Vie d’Une Femme, de Charline Bourgeois-Tacquet; Soudain/All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi; e The Man I Love, de Ira Sachs.. A Palma Queer, este ano, tem muitos candidatos.
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