05/06/2026

Mulheres trans do Nepal e Che Guevara na Bolívia

Cannes - Marcando uma pequena participação do Brasil na produção, o drama nepalês Elefantes na Névoa, de Abinash Bikram Shah, causou um bom impacto na mostra Un Certain Regard. O filme é uma coprodução também com o Nepal, Alemanha, França e Noruega.

Retratando uma comunidade kinnar, que habita um pequeno vilarejo no interior do Nepal, o filme retrata com muita vibração e colorido as tradições dessas mulheres trans, que vivem juntas em casas, como uma família qualquer, sendo reconhecidas como parte de um chamado “terceiro gênero”. Elas desempenham várias tarefas, convivendo com os demais aldeões, ficando muito nítidos o carisma e a liderança de Pirati (PushpaThing Lama). As kinnar são chamadas sempre para cantar e dançar em festas, como casamentos e nascimentos e também para dar bênçãos, especialmente Pirati.

Há um componente religioso ligando as kinnar, que fazem votos de castidade e devem dedicar sua vida a servir, sob a liderança de uma matriarca (Umesha Pandey). Mas a madura Pirati vive um conflito, quando se apaixona por um músico (Aashant Sharma) e deseja largar tudo para viver com ele em Nova Délhi.

O surgimento deste desejo em Pirati abala a tranquilidade de seu lar, provocando a fuga de uma de suas filhas, Apsara (Aliz Ghimire), numa região de florestas abalada por ataques de elefantes selvagens. No desenvolvimento da busca desesperada de Pirati pela filha, o enredo coloca à tona o frágil equilíbrio da aceitação das mulheres trans na comunidade, que despertam um misto de desejo e repulsa e cuja tolerância é posta à prova pela insistência de Pirati na busca de Apsara por
policiais que não estão nada empenhados nisto.

O diretor mostra eficiência em criar empatia por suas personagens, especialmente a magnética Pirati, que não se detém diante de nenhum obstáculo para saber a sorte de Apsara. E o final do filme conjura uma catarse belíssima, em que se evoca o poder ancestral e a força da natureza contra o obscurantismo e a violência.

Che na Bolívia

Em sessão especial, o documentário Che Guevara: Os Últimos Companheiros, de Christophe Dimitri Réveille, levou 22 anos para ser feito, reunindo um rico material sobre os seis companheiros do Che em sua desastrosa incursão na Bolívia, que causou a sua morte.

Os seis homens, três cubanos e três bolivianos, conseguiram escapar ao cerco de centenas de soldados bolivianos, com apoio da CIA e militares americanos, empreendendo uma fuga aventurosa e difícil por cinco meses.

Vários personagens fizeram parte desta epopéia, como o presidente francês, o general De Gaulle, e Salvador Allende, então presidente do Senado chileno, compondo um filme que se assiste com muita emoção e descobertas inéditas sobre o rumo destes homens.

Nos tempos da AIDS

O diretor norte-americano Ira Sachs volta aos anos 1980 para ambientar The Man I Love, drama em que resgata memórias da epidemia da AIDS. O protagonista é o ator e dançarino Jimmy George (Rami Malek) que acaba de recuperar-se de um longo período no hospital. Ele ganha uma sobrevida com o extremo cuidado de seu companheiro, Dennis (Tom Sturridge), e também com a perspectiva de atuar numa nova peça musical em Nova York.

A história se equilibra nessa espiral de altos e baixos da energia de Jimmy, entre a euforia destes dias, em que surge a paixão pelo novo vizinho, Vincent (o novato Luther Ford), e a incontornável consciência de que seus dias estão contados - naquela época, o HIV não era controlável por medicamentos, como hoje. Receber o diagnóstico de soropositividade era, então, uma condenação à morte, tornando a vida cotidiana uma espécie de réquiem em câmera lenta.