05/06/2026

A grande volta de Andrei Zvyagintsev em "Minotaur"

Cannes - Concorrendo à Palma de Ouro, Minotaur marca a volta do diretor russo Andrei Zvyagintsev ao circuito dos grandes festivais. Vencedor do Leão de Ouro 2003 por O Retorno e de melhor roteiro em Cannes 2014 por Leviatã, o cineasta passou um ano internado num hospital alemão, com 90% dos pulmões comprometidos, por conta da covid-19 e teve que reaprender a andar, falar e segurar talheres. Felizmente, sobreviveu e conseguiu voltar à ativa, realizando um filme forte e marcante, filmado e patrocinado fora da Rússia, já que Zvyagintsev é um forte opositor do militarismo do governo Vladimir Putin. O diretor vive em Paris há 4 anos.

Minotaur, aliás, tem inspiração inicial num filme do francês Claude Chabrol, A Mulher Infiel (1969), mas transporta a história aos dias atuais, implantando-a num cenário russo ficcional - as filmagens ocorreram na Letônia, pela semelhança arquitetônica. O protagonista é um CEO controlador, Gleb (Dimitri Mazurov), que se torna um típico exemplar da masculinidade tóxica, não só como marido indiferente de Galina (Iris Lebedeva) como colaborador de autoridades que requerem a entrega de listas de nomes de seus empregados para serem convocados para as muitas guerras em que seu país se engaja - e os cartazes espalhados pela cidade são um sinistro sinal dessa mentalidade pretensamente patriótica, mas apoiada no sacrifício de uma população que tenta continuamente deixar o país.

Zvyagintsev mostra que continua apurada sua perícia em conjugar dramas familiares e contextos sócio-políticos, nutrindo-se de seu amplo conhecimento da realidade russa e das contradições do fenômeno do poder, que ele explorou tão habilmente em títulos como o citado Leviatã. No tom da história, está toda a densidade do cinema russo, com uma narrativa impregnada de elementos criminais e de significados simbólicos. Bem-vindo de volta, Zvyagintsev!

A má consciência de Vichy

Outro concorrente francês, Notre Salut, de Emmanuel Marre, mergulhou num dos assuntos mais incômodos da história da França, o colaboracionismo durante a II Guerra Mundial. O mais curioso é que a história de Marre baseia-se nas cartas trocadas entre seus bisavós, da qual emerge o protagonista Henri Marre (Swann Arlaud). O filme dialoga fortemente com Moulin, de Laszlo Nemes, que abordava o outro lado desta história, ou seja, a atuação da Resistência, que combatia os nazistas que dominavam a França.

Henri, bem ao contrário, é um funcionário dedicado do governo colaboracionista do marechal Pétain, empenhado em manter a própria posição e ter sucesso financeiro. Tanto como a França, ele vem de uma grande derrota: consumiu a herança de sua mulher (Sandrine Blancke), lançando sua família na ruína, entre outras coisas, patrocinando a edição de um livro, “Notre Salut”, por seus próprios meios, reunindo suas ideias políticas conservadoras.

O filme o retrata como um desses funcionários que moviam a máquina governamental, sem questionar o que acontecia sob seus olhos - como quando os ocupantes alemães requisitam caminhões e combustível para transportar judeus para fora da França, rumo aos campos de concentração onde seriam eliminados. Essa investigação moral dos burocratas que moviam essa máquina de genocídio sem dúvida é extremamente útil para reflexão nos tempos atuais.