Pelos documentários apresentados, Berlim confirma o engajamento de sua seleção
- Por Plínio Ribeiro Jr., de Berlim
- 26/02/2012
- Tempo de leitura 5 minutos
Dentre os grandes festivais internacionais, é em Berlim que os documentários encontram um amplo terreno de divulgação, assim como um público fiel. A mostra Panorama, por exemplo, apresenta uma seção dedicada exclusivamente a eles
: Panorama Dokumente.
: Panorama Dokumente.
Em 2012, aos 20 documentários apresentados pela Panorama Dokumente, havia 9 outros incluídos na seção Berlinale Special (mostra paralela que apresenta filmes selecionados pelo diretor do festival, Dieter Kosslick). A Berlinale Special possui como objetivo homenagear grandes personalidades do cinema e, ao mesmo tempo, possibilitar ao grande público o acesso a filmes clássicos, mas também mostrar filmes em conexão com a realidade. É nesta categoria que se pode incluir os documentários apresentados neste ano.
Havia por exemplo o documentário The Story of film: an odyssey. Apresentados em duas partes, os quatro episódios deste projeto do diretor irlandês Mark Cousins duram nada menos que 15 horas, Através de entrevistas com personalidades como Martin Scorsese, Gus Van Sant, entre muitos outros, Mark nos conduz nesta jornada através da evolução do cinema, que inclui também análises sobre as influências trazidas pela Ásia, pela África e pelo Oriente Médio.
Já o alemão Werner Herzog, depois do lirismo trazido a Berlim em 2011 com Caverna dos sonhos esquecidos, nos fez percorrer em 2012 os bastidores dos corredores da morte das prisões americanas em Death Row. Contrário à pena de morte, Herzog buscou através do retrato de cinco condenados percorrer outros corredores, tanto do sistema que condenou e formatou muitos aspectos do percurso de vida desses indivíduos, mas também de aspectos mais sutis desta questão, que a sensibilidade do diretor traz à tona sem apelar para a visão sensacionalista com que o tema costuma ser abordado.
Não foi o único documentário a apresentar o(s) indivíduo(s) retratado(s) em contraponto à sociedade onde ele(s) encontra(m)-se inserido(s). Em Ai Weiwei
: never sorry, a americana Alison Klayman traça um perfil intimista deste crítico ferrenho do sistema político chinês. A convivência entre ambos deu-se na época em que o artista preparava a instalação Sunflower Seeds, apresentada no Tate Modern em Londres, e o conjunto de esculturas Círculo de Animais, que foram instaladas junto à entrada da última Bienal de São Paulo. Ambos projetos datam de 2010, período que antecedeu sua prisão, ocorrida em abril de 2011.
: never sorry, a americana Alison Klayman traça um perfil intimista deste crítico ferrenho do sistema político chinês. A convivência entre ambos deu-se na época em que o artista preparava a instalação Sunflower Seeds, apresentada no Tate Modern em Londres, e o conjunto de esculturas Círculo de Animais, que foram instaladas junto à entrada da última Bienal de São Paulo. Ambos projetos datam de 2010, período que antecedeu sua prisão, ocorrida em abril de 2011.
Filho do poeta e intelectual chinês Ai Qing, denunciado como «
inimigo do povo
» durante a Revolução Cultural, Ai Weiwei colocou-se frontalmente contra o governo chinês quando abandonou sua colaboração no projeto de construção do estádio olímpico de Pequim, em função de seu desacordo acerca da política de desapropriações feitas pelo governo. A partir de então, sua arte tornou-se um dinâmico agente de difusão internacional dos abusos e mentiras sustentados pels autoridades chinesas . Sem abrir mão do humor que tangencia muito seu questionamento sobre a arte e sobre o mundo em si, o engajamento de Weiwei supreende pela ousadia e pelo destemor que caracterizam suas ações.
inimigo do povo
» durante a Revolução Cultural, Ai Weiwei colocou-se frontalmente contra o governo chinês quando abandonou sua colaboração no projeto de construção do estádio olímpico de Pequim, em função de seu desacordo acerca da política de desapropriações feitas pelo governo. A partir de então, sua arte tornou-se um dinâmico agente de difusão internacional dos abusos e mentiras sustentados pels autoridades chinesas . Sem abrir mão do humor que tangencia muito seu questionamento sobre a arte e sobre o mundo em si, o engajamento de Weiwei supreende pela ousadia e pelo destemor que caracterizam suas ações.
Intrepidez e engajamento são também a ação do documentário Call me Kuchu, apresentado na mostra Panorama Dokumente, e igualmente rodado em 2010. Dirigido por Katherine Fairfaix Wright e Malika Zouhali-Worral, o filme percorre o calvário vivido pela comunidade homossexual de Uganda, tendo como fio condutor a figura carismática do líder de movimentos LGBT David Kato Kisule. Vítimas da perseguição do poder político, religioso e da mídia local, os homossexuais ugandenses vêem sua vida, não apenas afetiva, condenada a uma clandestinidade que os obriga a arriscarem suas vidas a cada dia. Ao silêncio que a sociedade quer lhes impor eles opõem ações que visam mostrar o quão absurdo são os critérios a partir dos quais eles são denegridos.
Além de vencer o Teddy Award de melhor documentário, Call me Kuchu ganhou igualmente o prêmio Cinema Fairbindet Prize, destinado aos filmes que, ultrapassando os limites das telas, levam o espectador a um questionamento acerca de questões como: o que isto tem a ver comigo? O que eu posso fazer
? Assim como o filme sobre Ai Weiwei, é um filme que nos arranca da zona de conforto, que retira as barreiras entre a nossa vida e a vida daqueles retratados nos documentários em questão.
? Assim como o filme sobre Ai Weiwei, é um filme que nos arranca da zona de conforto, que retira as barreiras entre a nossa vida e a vida daqueles retratados nos documentários em questão.
Hoje, neste começo de 2012, sabemos que David Kato foi assassinado há mais de um ano e que Ai Weiwei encontra-se num silêncio que sublinha sua atual condição de refém do poder político chinês. Mas nós estamos aqui, do lado «
de fora
». Que esses filmes, que retratam um engajamento que em muito ultrapassam causas pessoais, sirvam de estímulo para que nós, não apenas espectadores, mas cidadãos, não esqueçamos que temos em cada gesto a possibilidade de uma ação efetiva, a começar pela conscientização da importância social de documentários como estes.
de fora
». Que esses filmes, que retratam um engajamento que em muito ultrapassam causas pessoais, sirvam de estímulo para que nós, não apenas espectadores, mas cidadãos, não esqueçamos que temos em cada gesto a possibilidade de uma ação efetiva, a começar pela conscientização da importância social de documentários como estes.
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