06/06/2026

Três filmes muito distintos encerram a corrida para o Urso de Ouro 2012

Encerrada a apresentação de todos os filmes concorrentes, na véspera da premiação (neste sábado, 18), na reta final do festival, três filmes realçam o ecletismo presente à seleção de Berlim em 2012.

Postcards from the zoo, filme escrito e dirigido pelo indonésio Edwin, que faz sua estreia em grandes festivais. O filme retrata o cotidiano de Lana (Ladya Cheryl), abandonada pelos pais ainda criança no zoológico de Jacarta. Sem entrar na razão deste abandono, o filme privilegia a relação de empatia criada entre Lana e os animais, sem falar nos funcionários e outras pessoas que elegeram o zoológico como residência. Como uma fábula, o filme nos leva às sutilezas da maneira como Lana construiu a si mesma. O fio condutor é justamente o seu olhar, a maneira como ela vê os animais, como se reconhece entre eles . É um filme simples, despretensioso mas que conseguiu desenrolar-se satisfatoriamente.

Já o dinamarquês A royal affair, dirigido por Nikolaj Arcel, apostou alto ao propor um filme esteticamente muito bem trabalhado e que aborda um episódio histórico desconhecido mas capaz de colocar a Dinamarca como um dos precursores de ideais iluministas.
O enredo tem início em 1766, ano em que a princesa de Gales Caroline Mathilde (Alicia Vikander) casa-se com o rei dinamarquês Christian VII (interpretado por Mikkel Boe Følsgaard). Nesta época, a Dinamarca era governada sob preceitos rígidos, com o povo sujeito a valores religiosos e políticos altamente controladores.

Sem falar que Christian VII praticamente não governava em função da sua saúde mental extremamente frágil, obrigando a corte a contratar um médico para atender às inúmeras crises do monarca. Contrário a esta ideia, o rei acaba por ceder ao carisma do Dr. Johann Friedrich Struensee (Mads Mikkelsen, de Depois do Casamento), partidário de ideais revolucionários para a época. Conforme ganha a confiança do rei e descobre uma aliada na figura da rainha, Struensee percebe que pode ser um instrumento para a concretização de seus ideais políticos. E o improvável acontece
: a Dinamarca, vinte anos antes da França, torna-se símbolo na defesa de direitos humanos de seus cidadãos, como o fim da censura e de castigos corporais e o acesso à universidade ao alcance de todos os cidadãos.

Assim como em O discurso do rei, A royal affair traz à tona um personagem a princípio fora do circuito de influências, mas cuja ação vai ter consequências que ultrapassam as fronteiras do seu país.

Apesar de todas as qualidades deste filme, Rebelle, o último filme apresentado à imprensa, é o que merece mais destaque. Esta produção canadense, dirigida por Kim Nguyen, que dedicou mais de dez anos a este projeto, conta a história de Komona (Rachel Mwanza, arrebatadora no papel, fazendo dela uma potencial candidata ao prêmio de melhor atriz), a partir do momento em que é sequestrada do vilarejo e é obrigada a entrar na selvageria que define a atuação desta milícia. Com uma arma na mão, que os líderes incitam a ser tratada como se fosse a mãe e o pai, crianças são obrigadas, após muitas vezes terem presenciado o assassinato de toda a família, a atravessarem regiões onde o conflito entre os rebeldes e o governo as transforma em verdadeiros escudos humanos.

Vendo sua vida reduzida a esse horror, Komoma tem seu status redefinido quando o líder da milícia a elege a feiticeira do grupo. Aquela que, após a ingestão de de uma substância alucinógena, dada a todos, tem o poder de adivinhar onde estarão as tropas do governo.

Desde o momento em que se dedicava à escrita do roteiro, Kim Nguyen sabia que queria
que sua câmera tivesse a capacidade de se transformar no olhar de uma criança de 14 anos, sem entrar nos meandros políticos e sociais. Isto confere uma autenticidade que possibilita ao espectador sempre encontrar um fio de sensibilidade para entrar nesta realidade tão abominável desprendido de imagens preconcebidas.

Eventual azarão desta competição, Rebelle (War witch em inglês) já antecipa em seu título aquilo que resume a essência de Komona, mas também a de Rachel Mwanza. Durante a coletiva, a atriz falou longamente sobre seu próprio percurso de vida que, apesar de não ter tido desdobramentos tão drásticos quanto o de Komona, foi repleto de adversidades inimagináveis, o que lhe permitiu encarnar na tela a capacidade quase sobrenatural de sobrevivência de sua personagem, ao transformar aquilo que de mais atroz a vida proporciona em força de vida, em combustível para que uma maturidade quase inconsequente se instale e torne suportável o insuportável.