"Caesar must die", "Metéora" e « "Tabu" são os mais inovadores
- Por Plínio Ribeiro Jr., de Berlim
- 17/02/2012
- Tempo de leitura 7 minutos
A princípio pode parecer um paradoxo, ou uma ironia. O fato é que, de todos os filmes da competição, os três que reuniram ao mesmo tempo um roteiro excepcional, um tratamento de imagem sublime, atores em simbiose com tudo isto e, como se não bastasse, altamente inovadores, são provenientes dos três países mais atingidos pela crise do euro que atingiu a Europa em 2011: Itália, Grécia e Portugal.
O estopim para o filme Caesar must die, dos irmãos (ambos octagenários) Paolo e Vittorio Taviani – homenageados com um Leão de Ouro pelo conjunto de suas carreiras em 1986 -
deu-se quando uma amiga deles relatou uma experiência que havia vivido recentemente no teatro: como há muito tempo não ocorria, o espetáculo levou-a às lágrimas. Tratava-se de um espetáculo realizado em Roma no teatro da prisão de segurança máxima de Rebibbia. Após assistirem à peça, uma versão da Divina Comédia de Dante Alighieri, os irmãos Taviani foram procurar Fabio Cavalli, responsável pelo projeto, que trabalha há mais de dez anos com os prisioneiros de Ribibbia e, juntamente com ele, iniciaram outro projeto que resultou no filme apresentado em Berlim.
deu-se quando uma amiga deles relatou uma experiência que havia vivido recentemente no teatro: como há muito tempo não ocorria, o espetáculo levou-a às lágrimas. Tratava-se de um espetáculo realizado em Roma no teatro da prisão de segurança máxima de Rebibbia. Após assistirem à peça, uma versão da Divina Comédia de Dante Alighieri, os irmãos Taviani foram procurar Fabio Cavalli, responsável pelo projeto, que trabalha há mais de dez anos com os prisioneiros de Ribibbia e, juntamente com ele, iniciaram outro projeto que resultou no filme apresentado em Berlim.
A partir de uma audição feita junto a prisioneiros, definiu-se o elenco que iria montar uma versão de Julius Caesar, de Shakespeare. Desde então, o dia-a-dia dos detentos passa a ser ritmado pelos ensaios e o entusiasmo pelo projeto faz com que aquilo que fora concebido como teatro adquira ares de realidade. O texto de Shakespeare, muito além de provar uma vez mais sua atualidade, ecoa com verdades profundas da vida daquelas pessoas, com um sofrimento real. Eles não estão interpretando e sim vivendo na pele daqueles personagens, plenamente submersos num processo de comunicação emocional.
Muito além de apresentar-se como um testemunho de um projeto social, o filme é uma prova de como a arte pode servir de catarse, de elemento de integração para aqueles que se encontram à margem da sociedade, e não só. Afinal, tanto a plateia dos espetáculos apresentados no teatro de Ribibbia quanto do filme dos irmãos Taviani vão se encontrar na mesma espiral de emoção criada por aqueles que se encontram-se no palco (ou na tela). Como não é raro o festival de Berlim conceder prêmios coletivos aos atores de um mesmo filme (tal como aconteceu o ano passado com os atores e as atrizes do drama iraniano A separação), os prisioneiros do filme são fortes candidatos ao Urso de Prata de interpretação masculina.
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Como se não bastasse ter dirigido e ser o diretor de fotografia de Metéora, o jovem grego Spiros Stathoupoulos (PVC-1, de 2007) trabalhou também como câmera deste belíssimo filme que se passa na região central da Grécia onde, suspensos sobre dois rochedos, encontram-se os mosteiros de Metéora, dentro dos quais, suspensos entre o céu e a terra e sustentados pela fé que possuem, vivem o monge Theodoros (Theo Alexander) e a irmã Urania(Tamila Koulieva). Metéora, aliás, em grego, significa "em suspensão".
Theodoros e Urania vêem a dedicação através da qual consagram suas vidas a Deus posta em jogo a partir do momento em que passam a sentir uma atração um pelo outro. É um filme sobre um amor impossível, sobre o amor absoluto, um verdadeiro poema visual, muito mais complexo do que possa parecer, apesar de extremamente simples. Uma verdadeira caixa de Pandora, onde encontram-se guardadas todas as metáforas, todos os potenciais, todas as possibilidades, assim como as impossibilidades.
E como se não bastassem as imagens sublimes captadas pela câmera de Stathoupoulos, o espectador ainda é presenteado com um trabalho de animação gráfica que, baseando-se na iconografia sagrada ortodoxa, funciona de vetor para melhor ilustrar melhor o encontro dessas duas pessoas numa realidade paralela, visto que no mundo real eles estão sujeitos às limitações exigidas pelas escolhas de vida que fizeram. Independente de ser premiado ou não pelo juri presidido por Mike Leigh, é um filme que coloca Spiros Stathoupoulos como um dos cineastas a não se perder de vista
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E não deve ser sem orgulho que nós, brasileiros, devemos comemorar o fato de Tabu, filme dirigido pelo português Miguel Gomes (que apresentou Nosso querido mês de agosto na Quinzaine des réalisateurs de 2008) ter sido incluído na competição da Berlinale, já que o o filme foi coproduzido pelos brasileiros Fabiano e Caio Gullane, e ainda conta com o ator brasileiro Ivo Müller no seu elenco.
Pilar, vivida pela atriz Teresa Madruga, é uma lisboeta, católica praticante que, em meio às suas tentativas de ocupar, vê-se envolvida com sua vizinha Aurora (Laura Soveral), uma octagenária de temperamento excêntrico que vive uma relação um tanto quanto simbiótica com sua empregada Santa (Isabel Cardoso). É curioso pensar que cada um desses nomes já é uma metáfora em si, já nos remete a um universo paralelo. Mas Tabu nos leva muito além, numa viagem no tempo que nos colocará diante da vida de Aurora (desta vez interpretada por Ana Moreira) há cinquenta anos quando, juntamente com seu marido ela foi morar numa fazenda ao pé do Monte Tabu, localizado numa ex-colônia portuguesa em alguma parte da África. Foi lá que ela conheceu aquele que, de alguma maneira, marcou sua vida, o jovem Gian Luca Ventura (Carloto Cotta).
O tempo neste filme revela-se como uma linha orgânica que encontra seus ecos na maneira como ela é retratada esteticamente. O filme é todo em preto e branco, sendo que na segunda parte não se ouve a voz dos personagens, apenas a do narrador, o que nos leva a uma questão que ultrapassa o Festival de Berlim, já que é impossível não pensar nos paralelos com o filme O artista, que vive uma consagração galopante desde a apresentação no Festival de Cannes em 2011, que rendeu ao ator Jean Dujardin o prêmio de melhor ator, até hoje, à beira do Oscar, com nada menos do que dez indicações.
Depois de febre acerca produções 3D – só na Berlinale 2011 foram 3 os filmes na seleção oficial a apresentarem este recurso (ler artigo na cobertura 2011 do Cineweb) – parece que se abriu uma brecha para uma outra forma de fazer cinema, um resgate de outros valores, não apenas estéticos. Em Berlim este ano, por exemplo, apenas o filme Flying swords of dragongate, dirigido pelo chinês Tsui Hark e apresentado fora da competição, é em 3D.
Eis, então, que surge Tabu entre os concorrentes ao Urso de Ouro, filme onde o espectador é convidado especial no diálogo que o diretor Miguel Gomes quis fazer com a memória do cinema clássico americano, do cinema mudo, sem falar nos filmes do cineasta alemão Friedrich Wilhelm Murnau, de onde Miguel trouxe o nome de seu filme, assim como sua estruturação.
Mais do que separar, a divisão do filme ressalta as pontes infinitas que podem ser feitas entre aspectos a princípio antagônicos, como a velhice e a juventude, a solidão e a possibilidade de amar, o passado e o futuro. Vale destacar também, além da maestria no tratamento da imagem, a importância da trilha sonora para pontuar os estados de alma vividos pelos personagens.
