06/06/2026

"Xingu", de Cao Hamburger, revela meandros desconhecidos da realidade indígena

"Porque não tem lugar que branco nunca chegou; chegar antes foi tudo que pudemos fazer"

Claudio Villas Boas


Se excluirmos uma exibição que foi feita no Amazonas, fora do circuito comercial, foi aqui em Berlim que ocorreu a estreia mundial do filme Xingu, dirigido por Cao Hamburger (O ano em que meus pais saíram de férias), como parte da programação da seção Panorama. Cao, cujo pais e respectivos avós nasceram em Berlim, iniciou o trabalho de pesquisa 4 anos antes de começar as filmagens.

O filme retrata o percurso de vida dos irmãos Villas Boas desde o momento em que eles, em 1943, decidiram largar tudo para fazerem parte do projeto Marcha para o Oeste, criado pelo governo federal para consolidar a expansão nesta região. A surpresa no início do filme é saber que foram 3 os irmãos Villas Boas a mergulharem nesta verdadeira jornada de vida. Aos já conhecidos Claudio (João Miguel) e Orlando (Felipe Camargo), junta-se Leonardo (Caio Blat).

Apesar de ser "livremente baseado em histórias reais", e não um documentário no sentido estrito do termo, o filme de Cao apresenta aos espectadores de maneira magnífica o caminho que levou os irmãos Villas Boas a terem a iniciativa da criação do Parque Nacional do Xingu, em 1961.

A primeira viagem, a expedição Roncador, resultou num encontro pacífico e numa interação amigável com uma tribo até então desconhecida. Um ano depois, porém, o encontro com o homem branco provocou uma epidemia de gripe entre os índios que dizimou mais da metade da aldeia em questão. É neste acontecimento que se encontra aquilo que, como mencionou Caio Blat na coletiva de imprensa, foi o grande insight de Claudio Villas Boas: a necessidade de criar uma reserva de grandes proporções onde os índios pudessem sobretudo viver "protegidos" do contato com a civilização ("Eles nunca tiveram fronteira, mas, agora, fronteira era a melhor coisa que eles podiam ter").

Num mundo onde povos indígenas são invariavelmente vistos como "primitivos", este projeto altamente visionário foi somente possível através da aquisição desta consciência ampla, sensível por parte dos Villas Boas, que os levou a atritos entre si, bem como a um questionamento profundo num plano pessoal e social/antropológico. Sem falar que foi preciso uma mobilização ímpar para conciliar esses ideais com as exigências e os interesses do governo para esta região.

Quase a totalidade dos índios que se vê no filme são habitantes do Parque do Xingu. Tanto Caio Blat quanto João Miguel tiveram um período de imersão nesta realidade antes do início das filmagens. Para Caio, um dos aspectos mais surpreendentes desta convivência foi ver como num espaço de poucos segundos a realidade de vida destes índios atravessa séculos: quando se liga o gerador de luz é possível ter um contato com o mundo de maneira similar a qualquer cidade brasileira no século XXI, ao passo que, quando o gerador é desligado, é como fazer uma viagem para trás no tempo.

Já João Miguel destacou o desafio maravilhoso que é fazer personagens que já existiram – vale lembrar que o projeto iniciou-se quando o filho e a viúva de Orlando procuraram o diretor do filme e, na sequência, lhe deram liberdade total e acesso a todo o acervo existente. E como é primordial apreender o Brasil não através de uma abordagem empírica, mas vivendo-o.

Ao fazer-se uma analogia com o momento atual vivido pelo Brasil, de uma expansão econômica reconhecida internacionalmente coexistindo com muitas lacunas sociais, Xingu apresenta-se como um filme obrigatório, que urge ser visto por todos, para que o Brasil abra espaço para mergulhar na própria história de maneira a assimilar, por exemplo, tudo o que temos que aprender com os povos indígenas.

Para Cao, cujo próximo projeto é aprofundar-se mais nesta questão indígena, é essencial ter humildade de reconhecer que eles (os índios) têm muita coisa a nos oferecer, que possuem valores muito mais sofisticados do que imaginamos. Além de que, o fato que somos o único país a possuir uma reserva do tamanho do Parque Nacional do Xingu faz com que tenhamos uma chance ímpar de pensar acerca dos paradigmas que envolvem a questão do progresso. Ou seja, é preciso desarmar-se de imagens preconcebidas e redutoras para, assim como os irmãos Villas Boas, começarmos a "andar por terras onde ninguém andou".