Relação entre mães e filhos servem como fio condutor a dois filmes da competição em Berlim
- Por Plínio Ribeiro Jr., de Berlim
- 14/02/2013
- Tempo de leitura 4 minutos
"Why don’t you let things happen
(Layla)
?"
(Layla)
?"
Eugene, em Layla Fourie
Esta edição da Berlinale está marcada pela excelência das personagens femininas. Na seleção, há dois filmes que, além de compartilharem este aspecto, apresentam elementos de roteiro que parecem transplantados da realidade brasileira, tamanhos são os paralelos que podem ser traçados entre eles.
O primeiro deles é o filme Child’s Pose, terceiro longa-metragem do diretor romeno Calin Peter Netzer, que retrata a relação entre uma mãe dominadora e seu filho único, já adulto. A mãe em questão é Cornelia, interpretada por Luminita Gheorghiu, atriz presente em quase todas as produções romenas que obtiveram destaque no cenário mundial (ela participa, por exemplo de 4 Meses, 3 semanas e 2 dias, Palma de Ouro em 2007).
Child’s Pose é o primeiro longa-metragem que ela protagoniza, e o faz de maneira absolutamente consistente ao assumir com grande naturalidade o papel de uma mãe que não admite que lhe imponham limites no que se refere sua relação com o filho, Barbu (Bogdan Dumitrache que, em 2011, recebeu o Leopardo de melhor ator em Locarno por sua atuação em Melhores Intenções, de Adrian Sitaru).
Cornelia simplesmente não admite que ele tenha saído de casa e, ainda mais, para viver com «
aquela criatura
», ou seja, sua namorada Carmen (Ilinca Goia). Na impossibilidade de ter acesso livre à casa deles, ela não se intimida de convidar sua empregada para tomar um café, a fim de perguntar aspectos ligados à rotina daquela outra casa, onde ela igualmente trabalha.
aquela criatura
», ou seja, sua namorada Carmen (Ilinca Goia). Na impossibilidade de ter acesso livre à casa deles, ela não se intimida de convidar sua empregada para tomar um café, a fim de perguntar aspectos ligados à rotina daquela outra casa, onde ela igualmente trabalha.
Estas relações familiares vão passar por mudanças a partir do momento que Barbu envolve-se em um acidente de carro. Este contexto faz com que Cornelia sinta-se legitimada para mover montanhas a fim de garantir o bem-estar do filho.
Mas o filme não se limita à questão mãe/filho pois no momento em que Cornelia vai à delegacia a fratura social existente entre as classes sociais é revelada afinal. A outra família envolvida é muito mais pobre do que a família de Barbu. E este, em função da maneira como foi criado, pensa ser natural o fato de quem tem mais recursos possua mais direitos, mais voz, mais mecanismos de defesa (e de ataque também).
Da mesma maneira como Sebastián Lelio, o diretor de Gloria, construiu a estrutura do filme a partir de seu universo mais próximo, Calin Peter Netzer também utilizou elementos da relação com sua própria mãe para escrever o roteiro.
No segundo filme, Layla Fourie, é igualmente um acidente de carro que provoca uma reviravolta no percurso de vida de seu personagem principal. Como ocorre com o concorrente chileno Gloria, o enredo deste trabalho, dirigido pela sul-africana Pia Marais, está tão atrelado ao percurso da personagem principal, que ambos recebem o mesmo nome.
A personagem Layla Fourie, interpretada por Rayna Campbell, está em busca de melhores condições profissionais para poder criar de maneira menos instável seu filho único, Kane (Rapule Sinaye Hendricks). Ela arranja um trabalho numa empresa que utiliza «
detetores da verdade
» com o objetivo de certificar-se da idoneidade dos futuros funcionários. É desta maneira que ela conhece Eugene Pienaar (August Diehl, presente também no elenco de Trem noturno para Lisboa, do diretor Billie August, apresentado fora da competição)
e, na sequência, a madrasta deste, Constanza (Terry Norton).
detetores da verdade
» com o objetivo de certificar-se da idoneidade dos futuros funcionários. É desta maneira que ela conhece Eugene Pienaar (August Diehl, presente também no elenco de Trem noturno para Lisboa, do diretor Billie August, apresentado fora da competição)
e, na sequência, a madrasta deste, Constanza (Terry Norton).
Depois de muitas mudanças ocorridas na África do Sul, o país se vê obrigado a lidar com as cicatrizes deste período tão absurdo de sua realidade, ao mesmo tempo em que o fosso entre os ricos e os pobres aprofunda-se cada dia mais. É esta a visão da diretora do filme que, vivendo agora em Berlim, apreende a realidade do seu país natal com outros olhos.
A grande força desta obra encontra-se em todas as nuances que Pia conseguiu juntar à trama, como as filigranas que percorrem a relação entre as pessoas. Num contexto onde a violência é uma realidade, mecanismos de proteção incorporam-se à vida das pessoas de maneira natural, o «
outro
» é visto com um potencial de perigo. Por exemplo, alguém que se recuse a sujeitar-se ao polígrafo, é encarado com desconfiança.
outro
» é visto com um potencial de perigo. Por exemplo, alguém que se recuse a sujeitar-se ao polígrafo, é encarado com desconfiança.
Deve-se destacar, igualmente, a extrema cumplicidade entre Layla e seu filho, visível em cada movimento, troca de olhares, em cada silêncio. Ao longo do filme, o intérprete de Kane (que tinha 8 anos durante as filmagens) soube imprimir de maneira muito natural e sensível a evolução de sentimentos, algumas vezes contraditórios, em relação à trajetória de sua mãe. Sem esquecer de mencionar que o roteiro escrito por Pia juntamente com Horst Markgraf apresenta uma tal riqueza de sutilezas que faz do filme um verdadeiro caleidoscópio em relação à realidade social, humana e comportamental na África do Sul atual.
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