Personagens femininas em busca da liberdade
- Por Plínio Ribeiro Jr., de Berlim
- 12/02/2013
- Tempo de leitura 7 minutos
"Você veio até aqui para se esconder ou por mim, Flo?"
Victoria, em Vic + Flo ont vu un ours
Apesar das diferenças flagrantes entre as personagens femininas retratadas em três filmes apresentados num mesmo dia em Berlim, a busca de liberdade as une de maneira inquestionável.
A primeira golfada chega através do carisma irresistível de Gloria
(foto ao lado), nome do filme, mas também do personagem principal do filme dirigido pelo chileno Sebastián Lelio (El Año del Tigre, integrante da competição do Festival de Locarno de 2011). Sua protagonista, Paulina Garcia, já é uma das sérias candidatas ao prêmio de melhor atriz pela majestosa interpretação desta mulher de 58 anos, divorciada, mãe de dois filhos e que preenche suas noites com idas regulares a bailes. É lá que ela encontra Rodolfo (Sergio Hernández), igualmente separado e pai de duas filhas, com quem inicia um romance.
Apesar de perdidamente apaixonado, Rodolfo sustenta uma relação de dependência psicológica e financeira com suas filhas e sua ex-mulher. Gloria, por sua vez, é uma mulher que se reinventa constantemente e que, sem deixar de mergulhar profundamente nos meandros que a vida lhe apresenta, não deixa de aventurar-se por searas desconhecidas. E faz isto com maestria, sem nunca cair no ridículo. Aliás, ao longo do filme, o expectador vê, um a um, serem derrubados todos os clichês que ele possa ter acerca da vida após os 50.
Sebastián Lelio, também roteirista do filme (juntamente com Gonzalo Maza), disse na coletiva que a inspiração para esta história lhe veio quando ele se deu conta que um filme pode estar muito mais perto do que parece. Assim sendo, Gloria é uma somatória de experiências e comportamentos que ele observou em pessoas próximas. Seu objetivo era retratar o universo das mulheres que pertencem à geração de sua mãe. Ao reinvindicar este filme, ele reivindica também os direitos desta geração.
Quando perguntado quais foram outras inspirações para o filme, ele disse que um fio condutor na sua narrativa foi sua admiração pela bossa nova, já que, segundo ele, ela retrata de maneira ideal um cotidiano «
docemente doloroso e com alguma ternura
» e era esse o tom que ele queria dar ao seu filme. Num dos jantares entre amigos, Gloria faz parte do coro que entoa «
Águas de março
». A trilha sonora do filme encontra-se profundamente atrelada ao seu universo afetivo.
Antes de ser finalizado, o filme recebeu o prêmio Ciné en Construcción na última edição do Festival de San Sebastián. A montagem do filme ocorreu em Berlim, aspecto que o diretor realça como importante para dar-lhe o dinamismo exalado ao longo dos 105 minutos de duração.
Deixando de lado o tom dionisíaco emanado por Gloria, será preciso ainda uma viagem no tempo para que possamos percorrer os corredores de um convento francês em pleno século XVIII. Trata-se do cenário de La Religieuse, filme francês baseado no livro de mesmo nome escrito por Denis Diderot (romance escrito em plena turbulência da Revolução Francesa, foi iniciado em 1760, mas apenas editado em 1796). Tanto o livro quanto o filme constroem-se a partir do relato em primeira pessoa feito por Suzanne Simonin, a filha caçula de uma família burguesa interpretada pela atriz belga Pauline Étienne (já premiada em diversos festivais de menor porte ao longo de sua carreira). Apesar da legitimidade de sua fé católica, ela não compartilha a visão de sua família que aposta numa eventual vocação religiosa.
Como ressaltou o diretor Guillaume Nicloux (Holiday), seu objetivo não foi enfocar a obra a partir da visão anticlerical de Diderot, mas sim através do viés da ode à liberdade que, segundo ele, é algo universal e atemporal. Assim sendo, Suzanne não entra necessariamente em conflito com sua fé, mas sim com a rigidez que lhe é imposta dentro do convento. Principalmente após a morte de Madame de Moni, a Madre Superiora do Convento Sainte Marie (interpretada por Françoise Lebrun). Como é de se esperar, é um filme de personagens femininas, contando inclusive com a participação de Isabelle Huppert, no papel de Madre Superiora do convento Saint Eutrope, numa atuação que nos mostra uma faceta diferente da atriz.
Isabelle ainda cooperou dando sugestões no roteiro escrito por Guillaume juntamente com Jérôme Beaujour com o intuito de conferir mais fluidez ao fraseado e eliminar eventuais preciosismos. O resultado final é uma obra acessível que não se limita a abordar o ambiente monástico, mas sobretudo retrata a estrutura social da época e a falta de autonomia das mulheres da época.
No caso do terceiro filme, Vic + Flo ont vu un ours (dirigido pelo canadense Denis Côté, cujo trabalho anterior foi Bestiaire), a privação de liberdade em questão não é metafórica, visto que Victoria (Pierrette Robitaille) e Florence (Romane Bohringer, cuja atuação em Noites Felinas, em 1992, lhe valeu o prêmio de Promessa Feminina no César) conheceram-se na prisão, onde apaixonaram-se. A história começa no momento em que Victoria/Vic recebe liberdade condicional. Não chegaremos a saber qual o crime que ela cometeu, apenas que foi condenada à prisão perpétua. Desta maneira, sua liberdade depende dos relatórios fornecidos por Guillaume (Marc-André Grondin, ator canadense que ficou conhecido pelo papel principal no filme C.R.A.Z.Y. , de Jean-Marc Vallée), que é o oficial responsável pelo acompanhamento dos libertos em regime condicional.
Após quase dez anos na cadeia, Vic desembarca na casa onde mora seu tio inválido, Émile (Georges Molnar). A imobilidade deste serve como uma extensão presente nas noções de liberdade e prisão. Pouco tempo depois, quem se instala na casa é Florence/Flo. Desde o princípio é evidente que, apesar de se amarem, ambas não compartilham os mesmos anseios, afinal para Flo estar ali naquela casa longe de tudo e de todos não é o que ela almejou para a sua vida.
É nesta transição entre vida em prisão e vida em liberdade que o filme desenrola-se. Visto a princípio como um intruso, Guillaume aos poucos ganha a empatia de ambas e passa a ser um referencial afetivo e confidente. A eles junta-se a figura de Marina, interpretada por Marie Brassard, que se apresenta a Vic como uma funcionária que faz inspeção da qualidade da água.
Numa breve passagem, vemos imagens da prisão onde elas se conheceram, mas esta imagem é como um espelho que reflete as limitações inerentes aos outros lugares onde a ação se passa: a casa onde emoram, o único bar situado no vilarejo, o carro de golfe (único meio de transporte que elas possuem). Um dos pontos fortes do filme encontra-se nos diálogos entre os personagens, que apresentam um bom equilíbrio entre humor e drama. Apesar disto, o desejo do diretor de adicionar reviravoltas ao longo da trama enfraquece um pouco o seu conteúdo.
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