25/09/2026

Largada reforça engajamento social do festival

Após a apresentação do filme mais recente de Wong Kar Wai, The Grandmaster
(foto ao lado), na abertura da 63ª edição, a corrida ao Urso de Ouro começou

pelo filme polonês In the name of, dirigido pela cineasta Malgoska Szumowska, que já é uma habituée do Festival (seu filme anterior, Elles, estrelado por Juliette Binoche, foi apresentado ano passado na mostra Panorama, assim como Stranger, em 2005).

In the name of
(foto abaixo) retrata a rotina num vilarejo polonês, sobretudo a atuação do padre Adam (interpretado por Andrzej Chyra, renomado ator polonês, que participou dos dois filmes mencionados da diretora) num projeto social de reinserção de jovens delinquentes. A este microcosmo, junta-se o jovem Humpty (Mateusz Kosciukiewicz) que, apesar de viver com a mãe e dois irmãos, passa o dia junto com os outros jovens, participando das atividades. Pouco a pouco uma empatia se estabelece entre Humpty e o padre, mas as limitações impostas pela sua escolha religiosa trazem à tona fantasmas do passado na vida de Adam.

Seria muito redutor classificar a obra apenas como um filme sobre um padre gay, ou entrar em debates sobre a posição oficial da igreja católica acerca desta questão. Como a própria diretora salientou na coletiva, seria muito óbvio entrar numa controvérsia simplista sobre a Igreja. Ao mesmo tempo, ela não é indiferente ao debate que ocorre atualmente na Polônia sobre a adoção de um pacto civil para os casais homossexuais, assim como debates sobre o papel da Igreja na sociedade atual.

A amplitude do ponto de vista proposto por Malgoska é sublinhado pela maneira como ela construiu o personagem de Michal (Lukasz Simlat). Michal é quem, juntamente com o padre Adam, coordena o projeto junto aos jovens. Ex-seminarista, ele abandonou a vida religiosa por ter se apaixonado por aquela que é sua mulher, Ewa (Maja Ostaszewska), ou seja, sua vida atual passa-se, literalmente, entre Adão e Eva.

Não se deve deixar de mencionar a extrema habilidade com que o elenco de jovens delinquentes foi preparado para este filme. As filmagens ocorreram numa região onde a diretora costuma passar férias há mais de 20 anos, assim sendo, os meandros comportamentais de seus habitantes já faziam parte de seu imaginário. Ela e seu parceiro na escrita do roteiro, Michal Englert, optaram por diálogos enxutos, deixando frestas de improvisação à disposição do elenco. Esta simplicidade encontra um eco nas imagens que igualmente abrem espaço a metáforas, como nas cenas em que Adam sai para correr floresta adentro para lidar melhor com as questões que o atormentam.

Numa Europa abalada pelas recentes manifestações na França contra o projeto de abertura do casamento civil aos homossexuais, e até pela renúncia repentina do papa Bento XVI, é de se admirar a pertinência do início da competição da Berlinale dar-se com um filme como In the name of, que amplia o debate para um horizonte mais universal. É como se o comitê de seleção de filmes resgatasse ums dos principais papéis da arte, que é o de abrir novas frentes de discussão, abordar questões marginalizadas, identificar os hiatos ou a urgência de alguns debates sociais.

O mesmo ocorre no segundo filme apresentado na competição, Promised Land (foto ao lado), de Gus Van Sant. O enredo acompanha a chegada de Steve Butler (Matt Damon) e Sue Thomason(Frances McDormand) à cidade rural de McKinley. Funcionários da Global Crosspower Solutions, empresa especializada na extração de gás natural, sua missão é convencer os proprietários locais a cederem os direitos de perfuração do terreno. A princípio, eles crêem que não terão grande dificuldade, afinal a situação econômica da região é um tanto quanto precária, sem falar na lábia de Steve, que se aproveita do fato de ter crescido junto à fazenda do seu avô, o que lhe confere legitimidade para falar com os locais de igual para igual.

A situação vai se complicar quando surge em meio aos habitantes um grande especialista da questão, consciente do todos os contras que este tipo de energia traz às regiões de extração do gás - Jeff Demons (Scott McNairy). Mas o pior está por vir, já que desembarca na cidade um ativista ecológico, Dustin Noble (John Krasinski), que além de possuir um dinamismo surpreendente para convencer a população dos malefícios do projeto proposto por Sue e Steven, ainda se mostra disposto a conquistar Alice (Rosemarie deWitt), uma professora primária pela qual Steven sentiu-se atraído desde seu primeiro dia na cidade.

Se é na antítese entre os personagens de Steven e Dustin que a trama vai ganhar sua dinâmica, vale dizer que é graças à associação de seus intérpretes que o filme existe, já que os dois são os roteiristas do filme. De acordo com John Krasinski, o filme «
é uma história emocional sobre o que acontece quando pessoas de verdade e dinheiro de verdade colidem
».

A atuação de Frances McDormand adiciona ao filme um humor refinado e muito sutil, além de render momentos impagáveis, como sua participação no karaokê do bar local apenas para ganhar a simpatia dos frequentadores.

Independente do fato de algum destes filmes sair premiado de Berlim, eles deveriam ser obrigatórios para os líderes mundiais quando se encontram para debater a situação mundial, já que, como mencionou o produtor de Promised Land, Chris Moore, "o filme também debate grandes assuntos com que estamos todos lidando atualmente
: quais são nossos valores, o que é importante para nós, e como lidar com os conflitos genuínos em nossas comunidades
?"