06/06/2026

Berlim para maiores: filmes revelam bastidores do imaginário sexual norte-americano

"Sex is a tool"
James Franco em Interior. Leather Bar

Nos arredores de Potsdamer Platz, não muito longe do Berlinale Palast, vários complexos multiplex exibem os filmes das mostras paralelas do Festival. Como se não bastasse, outros cinemas Berlim afora são requisitados e apresentam uma programação de dar água na boca de qualquer cinéfilo. Filmes para todos os gostos e faixas etárias. São tantas as opções, que o mais provável é que não será possível ver tudo que se gostaria.

Mas vale (muito) a pena o esforço de garimpar os catálogos de cada uma das seções presentes na Berlinale. A maior parte dos filmes não vai ser premiada, o que não tira em nada o mérito de cada um deles.

Neste ano, por exemplo, a mostra Panorama trouxe vários filmes que esquentaram a programação durante os invernais dias nos quais transcorre o festival. Filmes que falam de maneira franca sobre sexo, pornografia e seus bastidores. Ambientados nos Estados Unidos, eles retratam essas questões ao longo de mais de 30 anos.

O burburinho ao redor do filme Interior. Leather Bar é muito anterior ao festival de Berlim. A partir dos rumores de que há 40 minutos de filmagens de Parceiros da Noite (filme de William Friedkin, que traz Al Pacino na pele do policial Steve Burns que se infiltra na cena sadomasoquista gay de Nova York) que foram extraídos para evitar problemas com a censura, James Franco e Travis Mathews resolveram mostrar a sua leitura de qual seria o conteúdo destes 40 minutos - que não se sabe até hoje se existem, se foram destruídos, visto que até William Friedkin nunca se pronunciou a respeito.

Isto bastou para que parte da imprensa começasse a referir-se a este trabalho como um filme pornográfico com James Franco (que já está mais do que acostumado com a abordagem tendenciosa que tem sido feita a partir de seus projetos com teor homoerótico, como o curta-metragem The Feast of Stephen, dirigido por ele e que levou o Teddy Award da categoria em 2010). Quanto a Travis Mathews, sua carreira como cineasta afirmou-se a partir de projetos que buscam abordar a intimidade dos gays a partir de um viés inovador, como a série de documentários In Their Room.

Voltando a Interior. Leather Bar, rumores à parte, o que é realmente o filme
? Antes de tudo, um ensaio sobre o que existe no imaginário das pessoas acerca destes supostos 40 minutos. Mais do que nas cenas de sexo, a estrutura do filme é construída ao redor do processo de execução, fazendo que o making-of seja parte essencial e indissociável do seu resultado final.

Ao escalarem tanto atores gays quanto heterossexuais para o projeto, James e Travis abriram caminho para uma interessante discussão acerca do imaginário de cada lado. Nos bastidores, os gays revelam a motivação principal para participarem do projeto: a fantasia de contracenarem com James Franco em cenas ousadas, ao passo que os heterossexuais revelam preocupações de outro patamar através das perguntas que fazem uns aos outros, como «
você já beijou outro homem
? Se precisar beijar, você o fará
?
» E assim por diante.
Val Lauren, o ator que encarna o papel vivido por Al Pacino, faz parte do segundo grupo. Ao longo do filme, é evidente seu desconforto com algumas perspectivas que se anunciam no decorrer das filmagens. Se ele segurou a onda até o fim do projeto foi somente em nome da amizade que o une a James Franco. É nesta ambiguidade vivida pelo protagonista que o projeto revela sua força. Mais do que responder a perguntas, Interior. Leather Bar existe para nos questionar acerca dos tabus que habitam nosso imaginário.


Se James Franco optou por não comparecer à sessão e ao debate ocorrido após o filme, ele esteve na coletiva de um outro filme que apresentava em Berlim, desta vez apenas como ator coadjuvante. Trata-se de Lovelace, projeto codirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman (que já haviam trabalhado com James Franco em Howl). Conta a história de Linda Lovelace, atriz que se transformou em ícone após sua participação no lendário Garganta Profunda, de 1972. Amanda Seyfried, de Mamma Mia
!
, é quem interpreta o papel-título.

A trajetória de Linda é narrada em dois tempos: primeiramente mostra de maneira superficial
sua ascensão de pós-adolescente criada por uma família extremamente católica ao topo da fama para, em seguida, abordar esta mesma trajetória incluindo as entrelinhas nem um pouco glamourosas, sobretudo a violência de Chuck, seu marido e mentor de sua carreira (vivido por Peter Sarsgaard, muito convincente no papel como manipulador e sem escrúpulos). E é neste segundo momento que o filme diz a que veio, ao humanizar os personagens, percorrendo-os em todas as suas fragilidades e incoerências.

Sharon Stone está irreconhecível na pele de Dorothy Boreman, a mãe carola de Linda, personagem secundária na trama mas presente em todas as etapas na vida da filha. Linda tornou-se uma ativista para denunciar os abusos cometidos pela indústria pornográfica e morreu prematuramente em 2002, em um acidente de carro.

Deixando de lado este mergulho do passado, Exposed percorreu a cena burlesca contemporânea de Nova York. O ator e diretor francês Mathieu Amalric já havia descortinado um pouco deste universo para o grande público em Turnê (filme de 2010 apresentado em Cannes) – há até duas personagens do filme de Amalric que fazem parte de Exposed, dirigido por Beth B., cineasta da cena alternativa nova-iorquina nos anos 80 e 90 que, após um período no qual trabalhou para a televisão, em projetos mais convencionais, volta agora em grande forma ao que sabe fazer melhor: percorrer com desenvoltura e sensibilidade o mundo underground.

Exposed é permeado de personagens que portam nomes tão criativos quanto peculiares: Bambi the mermaid, Bunny Love, Dirty Martini, Rose Wood, World Famous *Bob*, mas cuja grande qualidade é adotarem um estilo de vida que apresenta uma coerência irrepreensível entre aquilo que acreditam e aquilo que fazem, dentro e fora dos palcos.

Aos que acham que a cena teatral nova-iorquina foi tragada pelas produções pré-moldadas apresentadas na Broadway, o filme é um verdadeiro alento. Percorrem-se palcos de diversos bares e casas do espetáculos que constituem o verdadeiro circuito alternativo da cidade. Mas entra-se também na casa destas pessoas, na rotina de suas vidas a partir do momento em que as cortinas se fecham, e também no caminho trilhado até afirmarem sua identidade artística. Ao assistirmos ao filme, o grande risco é ficarmos com a sensação de que bizarro de verdade não são as pessoas e situações retratados em Exposed, mas sim aquilo que está fora dele.

Para saber mais:

Interior. Leather Bar