06/06/2026

Danis Tanovic e David Gordon Green resgatam despojamento em Berlim

Não foi apenas o filme Closed Courtain que apresentou uma trama onde ficção e realidade apresentam-se de maneira indissociável. Foi esta também a proposta de Danis Tanovic em seu novo trabalho An Episode in the Life of an Iron Picker. No fim de 2011, inconformado com uma notícia relatando um drama vivido por uma família de ciganos, o diretor bósnio resolveu ir até o vilarejo onde eles viviam para entrar em contato com as pessoas envolvidas. Foi assim que ele chegou a Nazif, Senada e às duas filhas do casal, dando início ao projeto de reproduzir cinematograficamente o episódio vivido por eles.

O inverno já está instalado no vilarejo de Poljice. Dentro da casa, a televisão cheia de chuviscos parece sublinhar a falta de perspectivas. Nada é fácil no cotidiano desta família. Se não há mais madeira para manter a casa aquecida, é preciso que Nazif saia, encontre uma árvore, a corte e traga a lenha. Se falta dinheiro, é preciso desmontar um carro a marretadas para vendê-lo em pedaços ao ferro-velho. E se o filho que está na barriga de sua mulher estiver morto… Bem, neste caso vai ser necessário enveredar por meandros burocráticos que trazem à tona da maneira mais crua a precariedade da vida deles.

Nazif é vivido por Nazif, Senada por Senada, assim como, à exceção de dois dos médicos que aparecem no filme, todos os demais personagens. Não há nenhum artifício, nem por trás nem na frente das câmeras:, nesta obra filmada em nove dias, por uma equipe de oito pessoas e com um orçamento que não chegou a 8 mil euros.

Num determinado momento, a escada carregada por um dos amigos de Nazif esbarra na câmera, gerando um ligeiro tremor da imagem O que pode ser considerado uma «
falha
» faz todo sentido no filme pois, antes de tudo, a intenção de Danis é colocar o foco no que está por detrás das imagens, depurar ao máximo para assim chegar ao cerne daquilo que realmente importa.

Talvez seja redundância mencionar que filme só foi possível graças à empatia e confiança instaladas entre Danis e a família de Nazif. Sem falar na solidariedade, que é igualmente o elemento que permite a subsistência econômica, social e humana no dia-a-dia dos ciganos.
Extremamente engajado com a história do seu país, a ponto de considerar-se mais iugoslavo do que bósnio, Danis Tanovic quis mostrar as consequências da guerra que o assolou no início dos anos 90 através do viés da discriminação enfrentada pelas minorias na Bósnia-Herzegovina.

Nazif, que combateu como soldado durante a guerra durante quatro anos, além de ter tido um irmão morto durante a mesma, disse aos jornalistas que pelo menos naquela época ele sabia quais eram seus objetivos. Desde 93, ele vive dia por dia, com o único objetivo de alimentar seus filhos.

Depois de muitos filmes protagonizados por mulheres, eis que surge um personagem masculino capaz de alçar o filme de Danis Tanovic ao ranking dos concorrentes com chances reais de receber um dos prêmios desta edição da Berlinale.


Dando continuidade aos candidatos à competição, Prince Avalanche, do norte-americano David Gordon Green (The sitter), traz dois personagens masculinos como pilares de uma história que se passa no final dos anos 80. Alvin (Paul Rudd, que atuou em Wanderlust) e Lance (Emile Hirsch, Killer Joe) passam o verão de 1988 trabalhando em uma área devastada por um incêndio, com a missão de traçarem as marcas nesta estrada interminável. Alvin é, na verdade, o namorado da irmã de Lance, e dá a entender que a oportunidade que ofereceu a ele foi um favor em relação ao contexto pessoal que os une.

Mas todas as certezas que ele mantém acerca da vida e de si mesmo parecem resultado de um caminho solitário, fazendo com que o personagem de Lance comece a questionar a coerência do discurso pregado por Alvin.

Aquilo que pareceria mais mecânico, como o ingrato trabalho de percorrer uma estrada pintando linhas no chão, serve como estopim para discussões onde ambos os personagens vão analisar as experiências de suas vidas a partir de uma outra perspectiva. Assim como a metáfora da estrada como ponto de partida de mudanças existenciais vai ser revisitada a partir de uma outra abordagem da estrada em si: sua (re)construção.

Ao localizar a história no fim dos anos 80, David Gordon Green teve como objetivo destacar o isolamento ao qual os personagens estão sujeitos. Sua intenção foi criar um filme emocional, intenso e visual. Na coletiva, Emile Hirsch evocou os paralelos com o personagem que viveu em Na Natureza Selvagem, bem como o prazer que experimenta ao filmar em meio à natureza.