27/09/2026

Reclusão serve como pano de fundo para os filmes do Irã e da França

"A vista daqui é diferente"

Closed Courtain, de Jafar Panahi e Kamboziya Partovi

Em meio a uma seleção onde questões pessoais mostram-se como uma extensão de dinâmicas sócio-culturais, dois filmes apresentam um retrato do exílio impostos a artistas cuja obra representa o alicerce de suas existências.

De dentro de uma casa podemos ver uma praia. Entre ambas há uma janela, bem como as grades que a protege. Um táxi chega e vemos este homem que vem na direção da casa com sua mala. Em pouco tempo já não veremos mais a praia. Afinal, a primeira coisa que o ocupante fará é cobrir todas as janelas da casa com cortinas que impedem qualquer contato visual com o mundo exterior. Eis o início do filme Closed Courtain, dirigido por Jafar Panahi e Kamboziya Partovi (que é o homem que se instala na casa).

Antes de tudo, o filme é um manifesto em relação à morte artística decretada ao cineasta Jafar Panahi pelo governo iraniano, ao condená-lo a 6 anos de prisão juntamente com uma proibição de realização de filmes por 20 anos. Desde então, inúmeros festivais manifestaram seu repúdio a esta decisão. Em 2011, Jafar Panahi foi homenageado com uma retrospectiva durante a Berlinale. No mesmo ano, o documentário Isto não é um filme, co-dirigido com Mojtaba Mirtahmas, foi apresentado no em Cannes – o que resultou na prisão de Mirtahmas após seu regresso ao Irã.

Closed Courtain é, portanto, um ato de extrema coragem de ambos os diretores. O filme não pode ser considerado um documentário, é mais uma parábola que retrata o momento atual da vida de Jafar. Tanto em sua atuação no filme, como em sua presença na coletiva, Kamboziya Partovi é um porta-voz face ao silêncio imposto ao cineasta. Diante da pergunta sobre as dificuldades para a realização do filme, Kamboziya salientou que, para Jafar, mais difícil do que fazê-lo, do que trabalhar, é não trabalhar. Assim sendo, a partir da sugestão de um amigo, suas anotações, bem como situações concretas que ele vive foram transpostas para cenas que transcorrem dentro da casa,
neste filme onde uma mise en scène metafórica prevalece diante de uma eventual
fronteira entre o real e a ficção.

Outros personagens surgem, entram na casa, interagem com Kamboziya, mas igualmente com Jafar, que surge como um espectro dele próprio. Os diálogos estabelecem uma equivalência entre o destino de um homem – Jafar – e como sua reação às adversidades que lhe são impostas podem servir de espelho em relação à sua bagagem ética (tanto humana quanto profissional).

Há também um cachorro, que chega escondido numa mala – uma denúncia à matança de cachorros instituída pelo governo iraniano por considerá-los como animais «
impuros
». Sua presença na casa serve como pretexto para que todas as janelas da casa sejam vedadas (o que de fato ocorreu para que que não se levantassem suspeitas acerca das filmagens). De certa forma este cachorro simboliza um sinal de esperança diante das incertezas sobre o que a existência deste filme pode acarretar aos seus diretores.

O governo alemão solicitou oficialmente das autoridades iranianas que fosse concedido a Jafar o direito de vir a Berlim, apresentar seu filme, mesmo sabendo que isto seria improvável. Assim sendo, a foto de Jafar exposta no saguão do Berlinale Palast (diariamente são expostas fotos do diretor e dos atores dos filmes em competição) data de 17 de fevereiro de 2006, ocasião em que ele veio apresentar Fora de Jogo no festival.

A grande lição deixada por Closed Courtain é que, se parece não haver limites em relação a atitudes para restringir a liberdade de expressão de Jafar Panahi, há menos limites ainda na
sua coragem e no seu desejo de continuar sendo uma voz ativa e pertinente no cenário cinematográfico mundial.

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"Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta"
Camille Claudel, em carta escrita a Rodin em 1886

O pedestre que passar pelo número 19 do Quai de Bourbon, situado na île Saint-Louis, em Paris, verá a placa sinalizando que este endereço foi a residência da escultora Camille Claudel entre 1899 e 1913 e que «
nesta data (1913) encerrou-se sua breve carreira como artista e começou sua longa noite de internação
». O filme Camille Claudel 1915, de Bruno Dumont, é um mergulho nesta frase, uma possibilidade de abrir uma fresta que permitirá apreender esta fase da vida da escultora jamais retratada até aqui. Pode ser considerado uma continuação ao filme Camille Claudel, de Bruno Nuytten, de 1988, no qual Isabelle Adjani encarnou com uma intensidade ímpar a primeira fase na vida da artista.

Em Camille Claudel 1915 é outro ícone do cinema francês, Juliette Binoche, que interpreta o papel-título. É a Juliette, aliás, que devemos a existência do filme, posto que foi um telefonema dela que originou a colaboração com Bruno Dumont. O diretor estava nas filmagens de Hors Satan (apresentado em Cannes em 2011, na seção Un certain regard) mas quando Juliette manifestou interesse em trabalhar com ele, começou a pensar em como esta colaboração poderia se materializar.

A princípio, pensou em abordar a solidão, a partir de uma mulher em uma casa mas, graças ao mistério das coincidências, ele estava lendo naquela época um livro sobre a vida de Camille Claudel durante a internação. Não demorou muito para que ele percebesse que o filme encontrava-se ali, entre as as linhas daquele livro.

O roteiro foi elaborado a partir da correspondência que Camille trocou ao longo de toda sua vida, sobretudo com seu irmão Paul Claudel, e também a partir dos relatórios médicos acerca dos trinta anos em que ficou reclusa. Em 1913, uma semana após a morte do pai, Camille foi internada num hospício em Ville-Évrard, nos arredores de Paris. O início da I Guerra serviu como pretexto para que ela fosse transferida para Montdevergues, próxima a Avignon.

Retrata-se a vida de Camille neste novo hospício, onde ela ficará até sua morte, em 1945. A escolha da data, 1915, foi feita a partir do desejo de Dumont de abordar uma idade de Camille próxima à idade de Juliette, a fim de não ter que usar artifícios de maquiagem ou caracterização.

Juliette transparece numa Camille repleta de nuances e sensibilidade. Inserida numa rotina ritmada pelos gritos e as crises dos que a rodeiam, a Camille de Juliette apresenta uma leveza e uma alegria palpáveis em momentos em que pensa no irmão, Paul Claudel (interpretado por Jean-Luc Vincent), sem que sua angústia e inconformismo sejam deixados de lado. Tomando como base as distinções da trajetória de vida de Camille e Paul, o filme mostra a que ponto ambos representam as duas faces da mesma moeda. Paul não era necessariamente mais estável ou «
forte
» que sua irmã, apenas envolveu habilmente sua fragilidade psíquica em uma aura místico-religiosa, sem falar que o fato de ser uma mulher veio a ser decisivo para que a opinião e os desejos de Camille acerca de seu próprio destino não fossem considerados.

Trata-se um filme habitado mais por silêncios do que por palavras. Mas, quando elas surgem, são como uma revelação das entrelinhas que revelam o espírito criador de Camille.

Como destacou Bruno Dumont durante a coletiva, sabe-se o quanto durou a internação de Camille e intui-se o quão insuportável isto possa ter sido, mas ela mesma não tinha esta noção. Ao invés de uma revolta pela maneira como se deu sua internação, ela sempre manteve a esperança de que era algo provisório.

Juliette teceu largos elogios em relação a Dumont ao evocar sua nostalgia acerca de diretores como o dinamarquês Carl Theodor Dreyer (morto em 1968) e o russo Andrei Tarkovski (morto em 1986), dizendo que era um grande privilégio poder trabalhar com diretores como Dumont.

Mas é preciso também salientar a importância de contar com atrizes viscerais como Juliette Binoche para colocarem no patamar mais elevado o potencial de experiências sublimadoras a partir do cinema.