06/06/2026

A medicina dos tempos modernos marca passagem no Palast

"Na minha opinião, você é uma vítima das circunstâncias e da biologia"

Side Effects, filme de Steven Soderbergh

Mesmo que não ganhe nenhum prêmio, o que é bem provável diante da dura concorrência representada pelos outros filmes da competição, o diretor austríaco Ulrich Seidl, responsável por Paradise: hope possa considerar-se um diretor de sorte. Enquanto muitos realizadores têm que lidar anualmente com a frustração de não terem tido seus filmes selecionados pelos grandes festivais de cinema, Ulrich simplesmente conseguiu a proeza de, em menos de um ano, ter três filmes presentes nos festivais mais importantes (Cannes, Veneza e Berlim). Em cada um dos festivais apresentou um dos filmes que constituem a trilogia Paraíso.

Em Cannes 2012, ele apresentou Paradise: love, retratando o percurso de Teresa, uma mulher madura que parte rumo ao Quênia em busca de diversão e sexo com jovens africanos. Já Paradise: faith, apresentado em Veneza 2012, acompanha Anna Maria, irmã de Teresa, e seu fervor religioso que a faz percorrer a periferia de onde mora, em busca da conversão religiosa dos mais desfavorecidos.

Em Berlim, Paradise: hope traz como protagonista Melanie, filha de Teresa e interpretada por Melanie Lenz, adolescente às voltas com sua luta para perder peso. O filme segue sua internação em um spa e sua relação tanto com as outras adolescente quanto com o médico vivido pelo ator Joseph Lorenz, que é responsável pelo seu tratamento, mas por quem Melanie se apaixona. Seu paraíso, portanto, baseia-se na esperança de que ele corresponda ao projeto amoroso que ela começa a construir.

Talvez por retratar o universo dos adolescentes, o terceiro capítulo da trilogia possui uma leveza inexistente nos outros filmes. Fiel ao método de «
trabalho em aberto
» de Seidl, o filme foi rodado em sua ordem cronológica. Só há música se ela estiver integrada à cena em questão, e não há um roteiro propriamente dito. Vale dizer que a veracidade do filme deve-se muito ao carisma de Melanie Lenz que, inclusive, já havia passado pela mesma experiência que sua personagem, ao internar-se em 2009 num spa.

Deixando de lado o ambiente dos spas, o Festival de Berlim propôs um mergulho nos bastidores da indústria farmacêutica dos Estados Unidos, mais especificamente nos interesses por trás dos anti-depressivos prescritos de maneira banal por psiquiatras através do filme Side Effects, do badalado diretor norte-americano Steven Soderbergh e apresentado como o último na carreira do diretor.

Depois da saída do marido da prisão, Emily Taylor (Rooney Mara, de A Rede Social, de David Fincher) sente que precisa voltar à terapia para conseguir lidar com a situação. Chega, então, ao consultório do Dr. Jonathan Banks (Jude Law), um psiquiatra inglês que instalou-se em Nova York em busca de ascensão social e reconhecimento. Logo na primeira consulta, ele receita um anti-depressivo que aciona o mecanismo de efeitos secundários, incluindo um assassinato, que seguem ao longo do filme.

Apesar de não tomar nem remédio contra dor de cabeça, conforme revelou na coletiva, Jude Law encarna de maneira justa todo o cinismo do Dr. Banks. E o filme ganha muito quando entra em cena a psiquiatra anterior de Emily, Dra. Victoria Siebert, vivida por Catherina Zeta-Jones, que a acompanhou alguns anos, no momento em que o marido de Emily foi preso.

Os fatos são interpretados de modo a convergir com os interesses de quem tem poder e prestígio, no caso os psiquiatras e os laboratórios farmacêuticos. Além dos excelentes diálogos, o roteiro escrito por Scott Z. Burns é permeado por elementos que ajudam uma compreensão da extensão da indústria farmacêutica. O estado catatônico em que Emily se encontra é o retrato de como os problemas psicológicos das pessoas são relegados a um segundo plano diante dos lobbies envolvidos. Ela é como uma cobaia que tenta se equilibrar diante das fragilidades que a vida lhe apresentou.

Sem abrir mão da ironia, Soderbergh trata deste tema de maneira muito ampla. Vemos, por exemplo, os comerciais de anti-depressivos que banalizam ao extremo a complexidade da questão. O que faz do filme uma crítica pertinente à sociedade contemporânea que prega uma felicidade quase caricata como única possibilidade de integração. A consumir sem moderação – o filme
!