06/06/2026

Entre o teatro grego, comédias e documentários na reta final


Interrupção
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Em seu primeiro longa-metragem, o diretor grego Yorgos Zois
lança uma provocação ao espectador, não apenas sobre a relação entre vida e arte, como promete a sinopse do filme, mas sobre a desconstrução da realidade por meio de uma obra artística. Não por acaso, usa como pano de fundo o mito de Orestes, de Ésquilo, tragédia que, no fim, simboliza o julgamento da própria humanidade.
Ele se inspira também no drama real do teatro de Dubrovka (Moscou), em 2002, quando um grupo de terroristas chechenos invadiu o local, colocando mais de 800 pessoas na mira de armas e bombas – e cujo sangrento resultado se tornou um escândalo internacional. Embora violento, Zois não vai tão longe.
A trama de Interrupção passa-se durante uma apresentação pós-moderna da tragédia grega em Atenas. Um grupo autodenominado O Coro apropria-se da peça, isola os atores e chama voluntários da plateia para debater a obra e recompor a apresentação interrompida. “Orestes deveria ou não assassinar a própria mãe, Clitemnestra?”, questiona o líder do grupo aos convidados, que se alternam nas respostas, pautados entre o mito e a realidade que os cercam.
A plateia da peça, tal como o espectador do filme, passa a ver a intervenção como parte da proposta pós-moderna da apresentação, apesar das armas ostentadas pelo O Coro. Zois propõe a uma dialética dentro do princípio do diálogo, que gradativamente leva os voluntários a se apegarem aos seus novos papeis, personificando os personagens do mito.
Para o desfecho, o diretor grego abusa da linguagem figurativa. Imagens e metáforas passam a dominar a narrativa, entrecruzadas com brados “Deus ex machina” e “catarse”. Mito, terrorismo, diálogo e delírios se confrontam no roteiro de Zois, que anseia pela catarse, mas também cria distanciamento. (Rodrigo Zavala)

Cinemateca - Sala Bndes - 30/10 - 21:00
Circuito Spcine Paulo Emilio – CCSP - 1/11 - 20:10


Corações cicatrizados
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Radu Jude é uma espécie de estranho no ninho do cinema romeno contemporâneo. Enquanto a filmografia do país pauta-se por dramas realistas, sombrios e muitas vezes minimalistas, em seus filmes, como Aferim!, exibido na Mostra em 2015 e premiado no Festival de Berlim, ele investiga a identidade do povo romeno por meio da história de um militar e seu filho transportando um escravo cigano, no século XIX.
Corações Cicatrizados é inspirado nos escritos e ilustrações (usadas nos créditos iniciais) do romeno Max Blecher. O protagonista é Emanuel (numa interpretação impressionante do estreante Lucian Tedor Rus), que passa o filme todo hospitalizado e imobilizado por gesso em dos ombros à cintura, para curar uma tuberculose nos ossos – algo que o escritor também enfrentou, morrendo jovem, com menos de 30 anos.
De forma episódica, o filme narra o cotidiano de Emanuel e colegas de confinamento, no final do anos de 1930, quando Hitler sobe ao poder. As cenas são entrecortadas por trechos do romance homônimo de Blecher que ajudam a compor um painel histórico e emocional acentuando a atmosfera do lugar, que, muitas vezes, parece parado no tempo.
Ganhador de diversos prêmios, entre eles o Especial do Júri, em Locarno, Corações Cicatrizados é constituído de uma narrativa fragmentada que dá conta mais de um processo de aquisição de experiência de seu protagonista, do que uma trama propriamente dita. Nesse sentido, são tão importantes e dolorosas as punções quanto a descoberta do amor (espiritual e físico) com outras pacientes do hospital. E as cenas em que eles tentam manter relações sexuais – apesar de ambos imobilizados com gesso – são tão ternas quanto engraçadas.
Trabalhando com o diretor de fotografia Marius Panduru (Polícia, Adjetivo), Jude opta por filmar numa tela quadrada e com câmera estática, o que traduz formalmente a imobilidade e limitações dos personagens naquela situação. Ao contrário de Aferim!, em preto e braço, aqui o diretor se vale de cores, muitas cores, e luz trabalhada, a ponto de compor imagens que parecem pinturas. (Alysson Oliveira)

RESERVA CULTURAL 2 - 29/10 - 17:15
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 31/10 - 21:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 01/11 - 13:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 02/11 - 21:20


Como me apaixonei por Eva Ras
O filme parte de uma premissa sofisticada mas que nunca alcança toda a potencialidade que anuncia. A protagonista é Sena Mujanovic, que mora numa cabine de projeção de um cinema em Sarajevo. Dirigido pelo português André Gil Mata, o filme passa-se inteiramente nesse confinamento, olhando, vez por outra, para a tela do cinema lá longe, pelo quadradinho da janela de exibição.
Os filmes “em cartaz” são todos iugoslavos – alguns protagonizados por Eva Ras (uma atriz sérvia, nascida em 1941). Por meio deles, Mata reconstitui toda a história de um país e uma biografia imaginária para Sena, por meio das sensações, expectativas, alegrias, decepções das personagens femininas na tela do seu cinema. É uma relação complexa, que acontece por meio de imagens e diálogos. Vez ou outra, a projecionista recebe vista de dois amigos, Sasha, jovem e sem dinheiro, e Ilija, um pouco mais velho, mas também sem muitas expectativas na vida.
Como me apaixonei por Eva Ras é um estudo de personagem carinhoso, que observa sua protagonista com curiosidade, mas que nem sempre consegue lhe dar a devida dimensão. Por outro lado, as imagens dos filmes que ela projeta são tão instigantes que é impossível não ter vontade de resgatar a história do cinema iugoslavo e assistir a todos esses filmes. (Alysson Oliveira)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1 - 30/10 - 21:45


Depois da Tempestade
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Um atributo importante do diretor japonês Hirokazu Kore-Eda é a constância para realizar excelentes filmes, como uma sensibilidade técnica, estética e, sem dúvida, emotiva. Basta lembrar Depois da Vida (1998), Ninguém Pode Saber (2004), Seguindo em Frente (2008) e Pais e Filhos (2013), vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes e Melhor Filme de Ficção Estrangeiro na 37ª Mostra de São Paulo.
Aqui, ele volta aos relacionamentos familiares, ao contar uma história de Ryota (Abe Hiroshi), um escritor celebrado por um best-seller que escreveu há mais de uma década e que vive, agora, de bicos como detetive particular chicaneiro. Endividado e enrolador, não paga pensão alimentícia ao filho, que vê perder, aos poucos, para a ex-mulher Kyoko (Yôko Maki) e seu novo namorado.
O porto seguro do protagonista é sua mãe Yoshiko (a hilariante atriz veterana Kirin Kiki) que, apesar de parecer desinteressada e brincalhona, fala ferinas meias verdades aos filhos (há outra irmã vítima de esculhambação) e quer ver Ryota novamente com Kyoko e o neto.
Mas, apesar do humor, Kore-Eda coloca em perspectiva a cobrança que os pais impõem a seus filhos e como essa relação agridoce gera, dentro de um Japão moderno, impacto na vida de cada um deles. Assim como as lições geracionais que perpassaram a família de Ryota e como será aceita essa realidade quando a metáfora do tufão/tempestade que atravessa a cidade (este também um personagem) passar.
(Rodrigo Zavala)


Cinemark Cidade São Paulo – 29/10 - 21:30


O Rei dos Belgas
Depois de sua “Trilogia da Mongólia” de documentários de viés antropológicos, como Estado do Cão (98), o cineasta belga Peter Brosens iniciou uma parceria frutífera com Jessica Woodworth na ficção, com Altiplano (2009) e A Quinta Estação (2012). Agora é a vez de ele juntar sua experiência em ambos os gêneros para criar um híbrido, com um mockumentary. o falso documentário O Rei dos Belgas. Nesta sua primeira inserção na comédia, Brosens sai-se muito bem na tarefa com esta sátira da monarquia decorativa do século XXI.
O rei belga é Nicolas III (Peter Van den Begin), que está em uma viagem diplomática na Turquia quando seu país entra em crise, porque a Valônia, uma das regiões administrativas da Bélgica, declara sua independência. Para piorar, o monarca e sua comitiva, formada pelo chefe de protocolo (Bruno Georis), uma assessora de imprensa (Lucie Debay) e seu camareiro (Titus De Voogdt), ficam presos em território turco porque nenhum voo decola da Europa, por razões climáticas.
O grupo resolve, então, fugir do cerco dos seguranças locais e partir por terra rumo à sua terra natal, via os Balcãs, acompanhados do documentarista britânico Duncan Lloyd (Pieter van der Houwen).
Contratado para fazer um filme “chapa branca” da monarquia, Lloyd passa a gravar, escondido ou não, tudo que acontece nesta viagem pela Bulgária, Sérvia e Albânia, em que se submetem às mais diversas situações, como integrarem um grupo folclórico ou se disfarçarem como uma equipe de TV, encontrando vários tipos curiosos.
Quieto, comedido, dominado pela mulher e os assessores, Nicolas descobre sua faceta mais humana neste caminho, em que até o fim tenta deixar de ser um mero representante figurativo e adquirir voz própria através de um discurso que tenta escrever, insistentemente. No meio das idiossincrasias dessa viagem, uma Bélgica cindida em suas partes francesa e flamenga e seus respectivos preconceitos, é colocada em pauta. Colocar em uma situação de extremo conflito justo a nação considerada o coração da União Europeia, como pontua um personagem, é um modo de discutir essa identidade europeia em tempos de recessão econômica e tentativas de países do Leste Europeu entrarem na UE, enquanto a crise dos refugiados deflagra a desunião do bloco e a oposição à livre circulação de pessoas entre os países do continente. (Nayara Reynaud)

CINEARTE 1


















































29/10 - 17:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
30/10 - 15:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1






31/10 - 19:50


O ídolo
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Em termos de Oscar estrangeiro, em que compete a uma indicação como representante da Palestina, O Ídolo tenta seguir o caminho dos outros longas do diretor Hany Habu-Assad, Paradise Now (2005) e Omar (2013), que chegaram à lista final de indicados na Academia, depois de serem premiados em vários festivais – e exibidos também na Mostra. Sem entrar no mesmo território de questionamento moral dentro do intrincado conflito palestino-israelense, como fizera nos trabalhos anteriores, a maior ousadia do cineasta neste projeto foi filmar no conturbada Faixa de Gaza, onde teve de pedir autorização dos militares israelenses, da Autoridade Palestina e do Hamas.
Baseado em uma história real, o filme traz a trajetória de um dos refugiados que vivem nesta zona de guerra incessante: o cantor Mohammed Assaf, que mobilizou toda a Palestina com a sua participação no Arab Idol, a versão integrada do reality show para os países árabes. Com um primeiro ato dedicado à infância do rapaz, quando montou uma banda com sua irmã e os amigos para cantar em casamentos, destacam-se os atores mirins, como Qais Atallah, interpretando Mohammed quando criança, e a também irmã Hiba Atallah, na pele de Nour. Já adulto, hesitando entre o sonho na música ou conformar-se com sua rotina de taxista, Assaf é vivido por Tawfeek Barhom, de Os Árabes também Dançam (2014).
Romantizando a história do intérprete – a personagem Nour concentra os seis irmãos reais dele, por exemplo – em cima de clichês de filmes do gênero, a produção tem carisma suficiente para agradar ao público, pois traça um caminho interessante com seu protagonista até sua chegada ao programa. No entanto, logo após um plano-sequência no qual a steadycam acompanha Mohammed pelos bastidores do estúdio até o palco, o longa perde sua força, apressando a trama e recorrendo a montagens pobres de apresentações do ator. Ainda assim, a obra de Habu-Assad tem seus momentos mais fortes quando põe a voz do cantor ecoando sobre imagens dos destroços e ruínas de Gaza, transformando-a no lamento de todo um povo. (Nayara Reynaud)
CINEARTE 1 -






29/10 - 15:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 31/10 - 16:45


Martírio
Documentando o massacre sofrido, ao longo de séculos, pelos índios Guarani-Caiowáa, o veterano cineasta Vincent Carelli coloca na ordem do dia a construção da narrativa e a questão da visibilidade social.
Martírio é o segundo filme de uma trilogia de Carelli, iniciada em Corumbiara (2014) – sobre um massacre indígena em 1985, no sul de Rondônia –, que se completa com um filme a ser lançado, Adeus capitão, iniciado em 1986, em torno das indenizações a tribos em função da instalação de grandes projetos, em Marabá, sul do Pará.
Os temas dos três filmes são distintos, mas têm em comum o espírito guerreiro de resgatar a história indígena, insistentemente varrida, adulterada, vilipendiada em séculos da suposta civilização. Nada mais eloquente desse processo do que Martírio, em suas 2h40 de duração enumerando diversos episódios da saga de resistência dos Guarani-Caiwoáa.
Recorrendo a material filmado por ele mesmo desde 25 anos atrás e também a preciosos materiais de arquivo, Carelli – com a colaboração de Ernesto de Carvalho e Tita – situa muito bem a expropriação das terras desse povo, mencionando a Guerra do Paraguai, o ciclo do plantio do mate, as intervenções do Marechal Rondon e de Getúlio Vargas, chegando até o momento atual. Um momento de impasse, em que os índios, cansados da eterna indefinição da demarcação, empenham-se de maneira não raro heroica por retomadas pontuais de seu território, independentemente da violência e das mortes sofridas.
Um dos aspectos mais contundentes de Martírio está nas imagens de políticos – como uma comissão do Senado que tratou da discussão sobre a PEC 215, que traria para o Congresso a palavra final sobre demarcações de terras indígenas -, que demonstram à perfeição em que mãos estão entregues o Congresso e o País. Ou seja, latifundiários da chamada “bancada do boi” avessos a qualquer concessão aos indígenas e no mínimo coniventes com a violência que leva ao seu extermínio. (Neusa Barbosa)
CINE CAIXA BELAS ARTES S/1 VILLA LOBOS – 29/10 – 15:40


A garota desconhecida
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A ética, mais uma vez, ocupa o centro da nova história dos irmãos Dardenne, conduzida por uma médica, Jenny Danvin (a atriz francesa Adèle Haenel). O incidente desencadeador da trama é aparentemente banal e poderia ter acontecido em qualquer lugar. É noite quando toca a campainha do consultório de Jenny. Ela e seu assistente, Julien (Olivier Bonnaud), ainda estão ali dentro. Ele quer abrir, ela o impede. Passou da hora. No dia seguinte, eles descobrem que uma garota, jovem imigrante africana, apareceu morta ali perto.
Pode ter sido um acidente ou um assassinato. Mas Jenny, que é uma médica dedicada, passa a atormentar-se pela culpa. Sabe que, se tivesse aberto a porta, poderia ter salvo a vida dessa moça, cujo nome os policiais não conseguem descobrir. É uma das muitas imigrantes ilegais que se escondem nos submundos das cidades europeias (aqui, Liège), exploradas em atividades como a prostituição.
Obcecada por descobrir o nome dessa moça, cuja imagem foi gravada pela câmera de segurança do consultório, Jenny passa a investigar seus passos. Anda com a foto do rosto dela no próprio celular, mostrando a clientes, conhecidos. Nessa jornada, seu caminho se cruza com o de outras pessoas (interpretadas por dois atores-fetiche dos Dardenne, Olivier Gourmet e Jérémie Rénier), que também têm seu próprio quinhão de responsabilidade na trajetória da garota anônima, cuja história pode ser completamente apagada se não se encontrar ao menos um indício do que se passou em seus momentos finais. Como sempre, os Dardenne estão afinados com o momento político da Europa, sem afastar-se de sua permanente ligação com o que faz a essência da condição humana. Faz bem assistir a um filme assim. (Neusa Barbosa)

CINE CAIXA BELAS ARTES S/1 VILLA LOBOS – 30/10 – 19:10
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1 – 31/10 – 13:30

Sem Deus
Ganhador de diversos prêmios no Festival de Locarno – entre eles, filme, crítica e atriz para
Irena Ivanova – Sem Deus é um estudo da crise financeira, política, emocional e, por fim, moral que assola a Bulgária, na pós-União Soviética. Para uns, pode ser mero misery porn, mas há algo de pungente no realismo da diretora estreante Ralitza Petrova, também autora do roteiro.
Irena interpreta Gana, uma enfermeira que, com seu namorado (Ventzislav Konstantinov), participa de golpes contra idosos. Enfermeira domiciliar, ela rouba identidades de pacientes idosos que visita, vendendo-as para um policial corrupto (Alexandr Triffonov), que as usa para esquemas criminosos. O casal vive uma vida medíocre, marcada pelo uso de morfina, que ela também rouba. A vida da protagonista só muda quando conhece um coral conduzido por um de seus pacientes, Yoan (Ivan Nalbantov).
Ralitza Petrova não se poupa de mostrar toda a miséria financeira e moral que envolve o mundo de seus personagens. A diretora não perde qualquer chance de enfatizar a sordidez desse ambiente, resultando num filme cruel, que parece dizer que nada mudou na Bulgária, mesmo depois da queda do ditador Todor Jivkov, há quase trinta anos.
Há uma recusa na obra em trazer uma luz de esperança, e a ausência de nuances nas personagens e situações talvez impeça o filme de ressoar como poderia. Nesse sentido, os vizinhos romenos da Bulgária encontraram uma forma mais eficiente de retratar os mesmos problemas. (Alysson Oliveira)

CIRCUITO SPCINE OLIDO - 29/10 - 15:00
CINEARTE 2 - 02/11 - 21:30


O apartamento
Como em O Passado e A Separação, o iraniano Asghar Farhadi cria novamente um emaranhado emocional complexo na trama de O Apartamento, vencedor dos prêmios de melhor roteiro e melhorator (Shahab Hossein) no mais recente Festival de Cannes. A princípio, retrata os dilemas de moradia de um casal de atores, Emad (Shahab Hossein) e Rana (Taraneh Alidoosti), em Teerã. O prédio onde viviam sofreu rachaduras e é interditado. Passo seguinte, eles encontram refúgio num apartamento encontrado por um amigo. E é ali, numa noite em que esperava pelo marido, que Rana sofre a agressão de um invasor.
A sugestão de que Rana sofreu um estupro, que nunca fica clara, pode ou não dever-se a uma tentativa de driblar a vigilante censura iraniana, que é denunciada explicitamente numa outra sequência, a da montagem da peça em que trabalha o casal de atores, uma adaptação de A morte de um caixeiro viajante, de Arthur Miller. Na cena em questão, torna-se evidente que a personagem, Miss Francis, estaria nua, ou quase isso, mas ela é vista em cena usando um casaco impermeável (o que é motivo de uma brincadeira posterior do elenco).
A agressão muda completamente a vida do casal, com Rana tornando-se atemorizada e insegura, e Emad, cada vez mais tenso. O foco desloca-se dela, na primeira parte, para ele, cada vez mais obcecado por identificar o agressor.
Como sempre nas histórias de Farhadi, há um eixo moral, ético, que se amplia numa discussão dos limites da vingança. É um roteiro bastante matizado e envolvente, que dá margem para muitas reflexões. (Neusa Barbosa)

CINESALA – 30/10 – 19:50

Bom dia, noite

CINEARTE 1 – 30/10 – 14:00



Correspondências
A amizade entre os poetas portugueses Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen, registrada de forma comovente na prolífica correspondência que os dois mantiveram entre 1957 e 1978, no período em que Sena se exilou no Brasil e nos Estados Unidos, durante a ditadura salazarista, é visitada no documentário
Correspondências, da diretora lisboeta Rita Azevedo Gomes.
A diretora classifica o filme como um diálogo cinematográfico no qual temas presentes durante os 20 anos de troca de cartas, literários ou não, são abordados de forma franca e muitas vezes áspera. Não a aspereza de confronto entre os amigos, mas a aspereza dos temas, como o da ditadura salazarista que une os poetas e amigos numa jornada de pessimismo, amargura e impotência.
A diretora escolheu algumas cartas e poemas e fez um ensaio poético, intercalando os textos e construindo uma textura de imagens que conduz o espectador no conhecimento e compreensão da vida desses dois amigos ao longo da narrativa das cartas. Os poemas são declamados por atores em ambientes familiares, como uma cozinha no campo e quintais acolhedores. Imagens de países visitados pelos amigos também servem para contextualizar o que se aborda nas cartas. Aliás, cartas e poemas parecem ser uma extensão. Ou, numa outra leitura, os textos poéticos refletem também a realidade daquele tempo.
O filme pretende também ultrapassar o mundo lusófano. “Como é que esta conversa portuguesa, de um período que nós conhecemos por dentro, mas do qual lá fora não se tem bem a ideia, com dois poetas portugueses, fala aos outros?”, indagou a cineasta em entrevista ao jornal Pùblico. E ela própria respondeu: “Comecei a perceber que, se calhar, pode ser uma coisa entendida por qualquer pessoa.” (Luiz Vita)


ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA FREI CANECA 5 - 30/10 - 16:50