Histórias de amor e guerra das Filipinas, Cazaquistão e da Europa
- Por Equipe Cineweb
- 26/10/2016
- Tempo de leitura 12 minutos

Ma’Rosa
Vencedor do prêmio de melhor atriz em Cannes para Jaclyn Jose, o novo drama do premiado diretor filipino Brillante Mendoza é, como sempre em sua obra, encharcado de simpatia por seus personagens vitimizados por condições sociais absurdas.
Neste caso, os protagonistas são os membros de uma família modesta, liderada por Ma’Rosa (Jaclyn Jose), que são donos de um pequeníssimo comércio. Sua renda, no entanto, é insuficiente para garantir o sustento de cinco pessoas, e Ma’Rosa e o marido traficam pequenas quantidades de drogas.
Um dia, o casal é levado preso pela polícia, com grande estardalhaço. Um episódio que serve à perfeição para que o diretor-roteirista revele os meandros de uma estrutura policial corrupta e violenta. A partir daí, retrata-se o pesadelo da mãe e de seus filhos para conseguir o dinheiro pedido pelos policiais para soltá-los. Um calvário conduzido entre a delegacia e as ruas congestionadas de Manila, amontoadas de gente, bicicletas, carros e tomadas por uma chuva intermitente, em que a ética, a solidariedade e mesmo a simples piedade têm dificuldades para existir. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1 – 26/10 – 21:45
CINESALA – 31/10 – 21:20
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2 – 1/11 – 13:30
CINESESC – 2/11 – 15:00

The Stopover
Vencedor do prêmio de melhor roteiro na mostra Un Certain Regard, o filme escrito e dirigido pelas irmãs Muriel e Delphine Coulin revela-se uma inquietante investigação não só sobre a violência inerente à guerra e à vida militar como também sobre a latência do machismo e até da misoginia.
O episódio de partida é a volta de tropas francesas, homens e mulheres, do Afeganistão, com uma parada de “descompressão”, antes da desmobilização e da volta para casa, num resort de luxo no Chipre. Ali, entre o sol, o mar azul cristalino, piscinas, baladas e festas, os soldados deverão relaxar. E também participar diariamente de sessões coletivas de terapia, previstas para que extravasem os naturais traumas das situações vividas em combates.
O foco da história se fecha numa dupla de amigas, Aurore (Ariane Labed) e Marine (a também cantora Soko), que sofrem um estranhamento quando emergem, nessa terapia coletiva, detalhes de um episódio em que Aurore foi ferida. Estas situações terapêuticas provocam reações, tanto nas duas amigas, quanto em outros soldados, num afloramento gradativo de tensões, levando a consequências traumáticas – inclusive uma situação vivida fora do resort, envolvendo as amigas, dois homens locais e soldados que são colegas das duas. Aí é que o filme extrai o seu maior interesse e diz realmente ao que veio. (Neusa Barbosa)
CINEARTE 2 – 26/10 – 21:40
CINESALA – 27/10 – 14:00

O anjo ferido
Em 2014, o estreante cazaque Emir Baigazin ganhou o principal prêmio da Mostra com seu filme de estreia, Lições de Harmonia, um retrato melancólico e esteticamente forte sobre o amadurecimento de um garoto num vilarejo no Cazaquistão. Em seu segundo longa, O Anjo Ferido, ele busca inspiração no quadro homônimo do finlandês Hugo Simberg, e faz uma releitura da pintura de 1903, em uma cena de seu longa.
Novamente, seu tema é o amadurecimento em meio a um ambiente deteriorado. A trama se passa nos anos de 1990, pouco depois do desmantelamento da União Soviética, quando o governo do Cazaquistão cortava a energia elétrica toda noite por motivos de economia. Nesse cenário devastado estão quatro garotos cujas histórias são delimitadas por imagens de um afresco da Capela de Tampere, também de Simberg, que retrata garotos carregando uma guirlanda.
Trabalhando com o diretor de fotografia francês Yves Cape (de Minha Terra, África), Baigazin cria imagens poderosas, repletas de um apuro formal que cristaliza os contos morais do roteiro, também assinado por ele. São pequenas tramas que se conectam pelo tema universal do amadurecimento com a especificidade daquele momento e lugar. Cada um dos garotos passa por uma provação, e o mais trágico deles é Aslan (Omar Adilov), estudante brilhante que aspira ao curso de medicina. Quando sua namorada engravida, ele acaba ajudando-a num aborto, e então perde a razão.
Carregado em simbolismos – talvez nem sempre decodificáveis para quem não conhece bem a realidade histórica retratada no filme –, O Anjo Ferido é um belo exercício que transita entre o realismo e o surreal, sendo que seu resultado estético é impressionante, ainda que sem a mesma força do Lições de Harmonia. De todo modo, trata-se de um filme poderoso, cujo prólogo anuncia toda sua força.
(Alysson Oliveira)
(Alysson Oliveira)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6 - 26/10 - 21:45
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 - 28/10 - 22:00
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP - 01/11 - 19:00
Paisagem após a batalha
Um dos filmes mais interessantes dentro da retrospectiva do diretor polonês Andrzej Wajda, realizado em 1970, este drama retrata com realismo e intensidade os duros tempos que se seguem à liberação de prisioneiros de um campo de concentração na Alemanha.
Para começar, eles são obrigados a permanecer nos mesmos locais onde sofreram toda espécie de abuso antes – e isto começa a injetar uma nota de ceticismo em corpos e espíritos já alquebrados. As melhorias, portanto, são lentas e não superam o caos que continua instalado em seu cotidiano. A repartição de alimentos é desordenada e há suspeitas de desvios. As condições sanitárias são precárias e o vestuário, insuficiente para conter o frio de uma estação de neve.
Nesse clima turbulento, um poeta, Tadeusz (Daniel Olbrychski), tenta manter alguma sanidade, apegando-se aos seus livros e escrevendo seus poemas. Ele é, no entanto, um ser um tanto bizarro no meio de pessoas brutalizadas, obcecadas pela sobrevivência e atormentadas por toda espécie de pesadelo. Uma velha ordem caiu mas uma outra ainda não se formou nas cinzas dela.
Chegam novos habitantes, entre eles, a jovem Nina (Stanilawa Celinska), uma moça judia, que se aproxima de Tadeusz e quer convencê-lo a fugir do campo, procurando refazer suas vidas. Mas ainda paira uma proibição de sair dali, e o panorama parece ameaçador fora dos muros, já que ainda não se reinstalaram os meios de transporte e restam bombas não detonadas em toda parte.
O mestre Wajda entra em cheio no coração da Europa devastada pela guerra, tomando o pulso de um continente em que paisagens, valores e relações humanas foram igualmente destroçados. (Neusa Barbosa)
CINESALA – 26/10 – 19:40
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA 1 – 1/11 – 14:00
O francesito
O documentário argentino tem seu interesse especialmente para aqueles aficionados da psicanálise. Lança luz sobre a figura de Enrique Pichon-Rivière, um dos pioneiros da psicanálise na Argentina e tido como controverso por seus métodos e ideias pouco ortodoxos.
Nascido na França (daí o apelido que dá título ao filme), Enrique veio com sua família quando esta deslocou-se para o Chaco argentino para plantar algodão, depois tabaco. A vivência neste ambiente rural, perto da mata, entre os animais e em contato com resquícios da cultura guarani modificou uma mentalidade que também permaneceu ligada à literatura francesa – ele adorava Rimbaud e Baudelaire e escreveu um livro sobre Lautréamont.
Vivendo, mais tarde, perto de pessoas marginalizadas – como de um bordel -, Pichon-Rivière desenvolveu métodos em que tinha em vista o sonho e o “direito ao delírio”, o que lhe valeu não poucos inimigos – como um grupo neonazista que o combateu em hospital onde o psicanalista trabalhou.
O filme vale-se de arquivos de áudio do personagem, proporcionados por seu filho, Joaquín, um psicólogo social, e de vários depoimentos interessantes àqueles ligados à temática. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 5 – 26/10 -15:50
CIRCUITO SPCINE PAULO EMÍLIO – CCSP – 1/11 – 20:30
Deserto
O longa de estreia do ator Guilherme Weber cria um cenário de fim do mundo para abrigar uma trupe de artistas desgarrados de tempo e lugar, interpretados por Lima Duarte, Everaldo Pontes, Cida Moreira, Márcio Rosário, Fernando Teixeira, Magali Bif, Claudinho Castro e Pietra Pan. Miseráveis andarilhos, de aldeia em aldeia à procura de público, eles desembarcam numa cidadezinha abandonada e resolvem ficar. Depois da morte do líder, contrário ao abandono da vida nômade, eles decidem seus novos papeis num sorteio, ao qual foram lançados papeizinhos onde cada um escreveu o que achava essencial ao funcionamento de uma cidade. Assim, ao sabor deste acaso, a cada um cabe uma função: Cozinheira, Médica, Caçadora, Militar, Negro e Puta.
Inconformados com a opressão que os atinge na nova condição, a Puta e o Negro se rebelam, mas o Militar assume também seu lado repressor. E assim o filme torna-se uma alentada fábula sombria em torno da organização social, assumindo uma reflexão política que nunca se desvincula do poético, ainda mais porque cita organicamente Shakespeare e alguns outros trechos da melhor dramaturgia, sem tornar-se hermético demais pelas referências. O filme respira e se comunica mesmo com quem não decifra todas elas, por conta do esplêndido cenário natural, da direção de arte e especialmente da afinação deste espetacular conjunto de atores. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2 – 26/10 – 19:15
MUSEU DA IMAGEM E DO SOM – MIS – 27/10 – 20:10
CINESALA – 31/10 – 14:00
Vencer
CINEARTE 1 – 26/10 – 16:15
CINEMARK CIDADE SÃO PAULO – 27/10 – 21:30
O Rei Dave
Assistir a O Rei Dave é um exercício de paciência que pode ser recompensador para alguns, mas não para todos – isso é certo. Estruturado num falso plano-sequência de 100 minutos, o longa tem como protagonista o personagem-título, interpretado por Alexandre Goyette (de Mommy), também autor do roteiro. É uma exposição de ego dele, que aparece o tempo todo e não para de falar por um segundo.
Rebelde, ele sai pelas ruas de Quebec em busca do homem que dançou com sua namorada. Baseado numa peça do próprio Goyette, o filme é um samba de uma nota só, cujo exibicionismo técnico nunca é justificável. É bem verdade que depois de um tempo torna-se suportável, e é possível ter alguma pena do protagonista, tamanha a sua falta de noção. Mas, para muitos, isso pode vir tarde demais. (Alysson Oliveira)
CINESESC
- 02/11 - 22:10
- 02/11 - 22:10
Zoologia
Vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Karlovy Vary, este segundo filme do jovem diretor russo Ivan I. Tverdovsky (Corrections Class) promete ser um dos cults da Mostra.
Com um olho fino para o bizarro, ele compõe a história de Natasha (Natalia Pavlenkova), uma mulher de meia-idade, que mora com a mãe idosa e ultra-religiosa e trabalha num zoológico – onde ela se dá melhor com os animais do que com as colegas de trabalho. Sua vida amorosa anda mal também.
Um incidente inusitado muda o rumo das coisas: ela começa a desenvolver uma cauda, que esconde embaixo da roupa. E procura um hospital para tratamento do estranhíssimo problema. Lá, conhece um jovem médico, Peter (Dmitri Groshev), que a examina, tira chapas, como se não fosse nada de extraordinário.
Ao invés de repulsa, Peter fica intensamente curioso e atraído por ela. E os dois começam um romance, também sujeito a altas voltagens de estranheza.
O que vale realmente na história é sua capacidade de gerar metáforas, investigando o ambiente burocrático e invejoso dentro da administração do hospital, a família e todo o funcionamento desta sociedade intensamente disfuncional, abalada por lendas e preconceitos em relação às mulheres. A questão da tolerância e da possibilidade de troca entre seres muito diferentes é outro dos muitos temas deste filme verdadeiramente intrigante. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2
26/10/16 - 13:30
26/10/16 - 13:30
CINESALA
01/11/16 - 22:00
01/11/16 - 22:00
Como podem ocorrer mudanças de programação de última hora, confira sempre previamente a programação no site da Mostra: www.mostra.org
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